Economia local, baseada em comércio e serviços, tende a sentir os efeitos antes de outros setores
Supermercados abertos até a noite, indústrias que não desligam as máquinas e serviços que funcionam todos os dias da semana sustentam boa parte do emprego formal em Mato Grosso do Sul. Essa lógica de funcionamento ajuda a explicar por que o fim da jornada 6×1, em debate no Congresso Nacional nesta semana, preocupa empresários e especialistas no Estado.
Com cerca de 700 mil vínculos formais ativos, Mato Grosso do Sul tem sua base de empregos concentrada justamente em atividades que dependem de escalas contínuas ou horários estendidos, como por exemplo os setores de serviços, comércio, indústria, agropecuária e construção.
Ao O Estado, o economista Eugênio Pavão afirma que o impacto da eventual extinção da 6×1 não será homogêneo. “Supermercados com horários estendidos, prestadores de serviços, farmácias, call centers e indústrias de produção contínua tendem a sentir primeiro. A empresa precisa reorganizar turnos, contratar mais ou reduzir escala. Em muitos casos, o custo sobe”, afirma.
Segundo ele, a adaptação não ocorre de forma imediata e pode gerar efeitos contraditórios no curto e no médio prazo. “Num primeiro momento, pode haver mais procura por vagas por parte de trabalhadores que não aceitam a rigidez da escala atual. Mas, com o tempo, a pressão sobre custos aparece e isso pode resultar em demissões ou retração das contratações”, avalia.
O economista pondera que o impacto regional tende a ser inferior à média nacional. “Mato Grosso do Sul responde por algo entre 1,5% e 2% do PIB brasileiro. Além disso, fatores como a demografia e o avanço do comércio eletrônico reduzem a dependência de parte da economia local em relação à indústria e ao comércio tradicionais, o que pode amortecer os efeitos da mudança sobre a carga horária”, explica.
Setor varejista
O debate em torno do fim da escala 6×1 levanta preocupação adicional quanto aos efeitos indiretos da medida sobre o emprego e a formalização. A presidente da FCDL-MS (Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Mato Grosso do Sul), Inês Santiago, avalia que propostas com viés meramente eleitoreiro podem produzir consequências opostas às pretendidas.
“Quando se discute a redução da jornada sem considerar a realidade econômica dos setores que mais empregam, corre-se o risco de empurrar trabalhadores para o desemprego ou para a informalidade. É uma discussão que precisa ser responsável, técnica e baseada em dados, não em apelos fáceis”, afirma.
Ela ressalta que o debate poderia avançar de forma mais equilibrada a partir de propostas que preservem a autonomia do trabalhador. Nesse sentido, Inês aponta a PEC 40/2025, em tramitação na Câmara dos Deputados, como um contraponto mais adequado. A proposta prevê a flexibilização da jornada, permitindo que o empregado escolha entre o regime tradicional da CLT, de até 44 horas semanais, ou um modelo flexível por horas, sem perda de direitos trabalhistas.
A preocupação dialoga com projeções nacionais. Estudo do CLP (Centro de Liderança Pública), elaborado pelo economista Daniel Duque, estima que o fim da jornada 6×1, nos moldes atualmente discutidos no Congresso, pode resultar na eliminação de até 638 mil empregos formais no país.
De acordo com o estudo, o principal ponto de pressão está no custo do trabalho. Caso a redução de horas não venha acompanhada de ajuste proporcional dos salários, o valor da hora trabalhada sobe automaticamente. Parte das empresas consegue absorver esse impacto com reorganização interna ou investimento em tecnologia. Outras, no entanto, tendem a reagir com redução de escala, repasse de preços ou corte de vagas.
No caso de Mato Grosso do Sul, o economista destaca ainda um problema já presente no mercado: a dificuldade de preencher vagas em determinadas atividades. “Os horários rígidos e a escala 6×1 já afastam parte dos trabalhadores. A mudança pode atrair pessoas num primeiro momento, mas, se não for bem desenhada, pressiona empresas e compromete a manutenção dos empregos”, conclui.
Supermercados: outro lado da moeda
O gerente de um supermercados local, Pedro Teixeira, avaliou as possíveis consequências da mudança da escala de trabalho de 6×1 para 5×2. Segundo ele, as empresas terão de se adaptar ao novo modelo de jornada, o que pode representar um aumento nos custos operacionais. Apesar disso, ele acredita que a nova escala poderá atrair mais trabalhadores. “Uma das dificuldades hoje é manter um quadro de funcionários estável. A escala 6×1, que inclui trabalho em sábados, domingos e feriados, não é atrativa e faz com que muitos deixem o emprego”, explicou. Com a adoção do 5×2, ele afirma que os funcionários terão dois dias de folga garantidos para descanso e para estar com a família, o que pode facilitar contratações e reduzir a rotatividade.
Segundo a AMAS (Associação Sul Mato-Grossense de Supermercados), o setor acompanha as discussões e ainda estuda os impactos da possível mudança. “Por enquanto, não há um posicionamento definido. Temos conhecimento de que algumas lojas, em outros estados, começaram a adotar, por liberalidade, a escala 5×2, o que poderá ser utilizado como base para uma definição futura, do posicionamento do setor”.
Por Djeneffer Cordoba e Ana Krasnievicz
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