Móveis usados carregam histórias e mantêm tradição na Marechal Rondon

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Comércio tradicional atravessa mudanças no consumo e continua atraindo clientes em busca de peças que resistem ao tempo

Uma fazenda, uma novela de época e dezenas de móveis antigos. A combinação virou uma das histórias mais marcantes da Torres Móveis, na Rua Marechal Rondon, depois que um cliente procurou a loja para recriar na propriedade o cenário de uma trama que havia assistido na televisão.

A equipe garimpou cristaleiras, vitrolas, tapetes, mesas, guarda-roupas e outros objetos até montar o ambiente desejado. “Eu falei para ele que, se ligasse para a Globo, dava para gravar uma novela lá”, lembra a comerciante Miria Mota.

A negociação ficou marcada entre as centenas de histórias acumuladas pela loja ao longo de quase três décadas de funcionamento no endereço conhecido pelos campo-grandenses como a “rua dos móveis usados”. Ali, peças antigas mudam de dono diariamente e carregam lembranças, memórias e novos começos.

A Torres Móveis foi fundada há cerca de 28 anos, quando ocupava um pequeno imóvel identificado apenas por uma placa de madeira. Com o tempo, o espaço cresceu e conquistou uma clientela fiel, formada principalmente por estudantes, famílias e empresas.

“Os estudantes compram quando chegam e, quando vão embora, vendem de volta para nós. Eles indicam quem está vindo e isso mantém o ciclo”, descreve Dioneide Torres.

A rua que virou referência

Nas vitrines espalhadas pela via, aparecem desde eletrodomésticos de primeira necessidade até cristaleiras, mesas, guarda-roupas e peças antigas de madeira que dificilmente são encontradas nas grandes redes varejistas.

A tradição, porém, já foi maior. Segundo Miria, a rua chegou a concentrar um número bem maior de lojas especializadas. O cenário mudou principalmente durante a pandemia de covid-19, quando comerciantes encerraram atividades e outros morreram em decorrência da doença.

“Antes tinha muito mais lojas. A pandemia levou muitos colegas e outros acabaram fechando as portas. Hoje somos menos, mas quem ficou continua mantendo essa tradição”, afirma.

Mesmo com as mudanças, a região mantém um público diversificado. Há clientes que procuram móveis para montar a primeira casa, famílias em busca de peças resistentes e consumidores interessados em objetos antigos. Entre eles, os estudantes universitários continuam sendo uma parcela importante.

O movimento acompanha o calendário acadêmico. No início dos semestres, os comerciantes recebem alunos em busca de geladeiras, fogões, camas, mesas e máquinas de lavar. Depois da formatura, muitos retornam para vender os móveis antes de deixar a cidade, mantendo um ciclo que se repete há décadas.

A comerciante Thais Matsuda acompanha essa dinâmica desde que abriu a loja na Marechal Rondon. Ela deixou Primavera do Leste (MT) ao lado do esposo para investir no próprio negócio e afirma que os universitários representam uma parte importante da clientela.

“Quem vem estudar não quer gastar muito porque sabe que vai embora depois de alguns anos. Então compra usado. Quando termina a faculdade, vende de novo e chegam outros estudantes para comprar”.

Madeira que atravessa gerações

Se antes o preço era o principal motivo para procurar móveis usados, hoje a durabilidade também passou a pesar na decisão dos consumidores. Peças antigas de madeira maciça costumam atrair compradores justamente pela resistência e pela possibilidade de restauração.

Para Ariadne Calixto, que trabalha há seis anos no ramo, a diferença entre os materiais influencia diretamente na procura. “Guarda-roupa de madeira, cômoda, qualquer móvel de madeira você anuncia e vende rapidinho. O pessoal procura porque sabe que dura muito mais”, afirma.

A percepção também aparece no relato de Thais. Segundo ela, muitos clientes passaram a valorizar móveis antigos porque enxergam neles uma qualidade que nem sempre encontram nos produtos atuais. “Você consegue restaurar um móvel antigo e ele vai durar o resto da vida. Já o MDF e o MDP não permitem isso.”

A mudança acompanha uma transformação na forma como produtos usados são vistos pela população. Miria lembra que, durante muito tempo, móveis de segunda mão eram associados apenas à falta de condições financeiras, mas esse conceito mudou.

“Assim como aconteceu com os brechós, as pessoas entenderam que usado não significa ruim. Hoje elas procuram variedade e qualidade.”

Das vitrines para o celular

A transformação do consumo também chegou às vendas. Se antes o cliente precisava percorrer a rua para encontrar uma peça, hoje muitas negociações começam pelo celular, com fotos, vídeos e atendimento pelas redes sociais.

Na Torres Móveis, o movimento está dividido entre os dois formatos. Segundo Miria, metade das vendas acontece presencialmente e a outra metade por plataformas digitais. Já na loja de Thais, Marketplace, OLX e Instagram se tornaram importantes vitrines do negócio.

Para Ariadne, a internet deixou de ser uma concorrente das lojas físicas e passou a funcionar como uma extensão do comércio. Muitos consumidores encontram o anúncio online e depois procuram o estabelecimento para conferir a peça ou receber a entrega em casa.

“O cliente pede foto, pede vídeo, escolhe o móvel e depois combina a entrega. Hoje isso faz parte da rotina da loja”, explica.

Histórias de quem ficou

Nem todos os comerciantes da Marechal Rondon chegaram ao setor por tradição familiar. Ariadne entrou no ramo por influência do relacionamento. “Comecei por amor”, conta, entre risos. “Fui me envolvendo, aprendendo a vender, a atender os clientes e peguei gosto. É um trabalho que você vai conhecendo e acaba gostando.”

A trajetória de Thais também representa uma nova geração de comerciantes. Depois de deixar Mato Grosso, ela e o esposo decidiram investir o dinheiro guardado em um negócio próprio em Campo Grande. A recepção dos clientes ajudou na consolidação da loja.

Uma das primeiras grandes conquistas veio com a venda de prateleiras de aço para uma empresa. Segundo ela, o negócio representou, em um único dia, o equivalente ao faturamento de uma semana. “As prateleiras de aço viraram o nosso carro-chefe. Até hoje são elas que mantêm um movimento muito forte na loja.”

Apesar da adaptação ao comércio digital e das mudanças no perfil dos consumidores, os comerciantes ainda enfrentam desafios na região, principalmente relacionados à insegurança no entorno da antiga rodoviária.

Mesmo assim, a Marechal Rondon continua preservando uma tradição construída ao longo de décadas. Entre móveis antigos, vitrines e anúncios na internet, peças continuam encontrando novos donos e novas histórias. “Os móveis mudam de dono, mas continuam fazendo parte da vida das pessoas”, resume Miria.

Por Djeneffer Cordoba

 

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