Para Atvos, a adicão fortalece setor de bioenergia e amplia protagonismo de Mato Grosso do Sul
A decisão do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) de elevar de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina (E32) deve fortalecer ainda mais a cadeia da bioenergia em Mato Grosso do Sul. A medida, aprovada nesta semana, busca reduzir a dependência do Brasil das importações de gasolina e ampliar o uso de combustíveis renováveis.
O novo percentual entra em vigor inicialmente por 180 dias, podendo ser prorrogado pelo mesmo período. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a expectativa é reduzir em aproximadamente 900 milhões de litros por ano a necessidade de importação de gasolina, reforçando a segurança energética do país.
Em entrevista ao jornal O Estado, a Atvos, uma das principais empresas do setor sucroenergético, avalia que a mudança acompanha uma tendência de crescimento da demanda por combustíveis renováveis.
Segundo a empresa, o aumento da mistura confirma o etanol como uma solução energética estratégica, competitiva e segura. A companhia ressalta que o consumo do biocombustível vem crescendo tanto no mercado interno quanto nas exportações e em novas aplicações, cenário que reforça a importância de investimentos, como o Complexo de Transição Energética que está sendo desenvolvido em Mato Grosso do Sul.
Para a Biosul (Associação dos Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul), a ampliação da mistura fortalece toda a cadeia dos combustíveis renováveis e cria um ambiente favorável para novos investimentos no setor.
Em nota, a entidade destaca que o E32 “fortalece o mercado de combustíveis renováveis e cria um ambiente ainda mais favorável ao desenvolvimento da bioenergia no Brasil”. Segundo a Biosul, o aumento da demanda por etanol impulsiona uma cadeia produtiva que gera empregos, renda, inovação e desenvolvimento regional, além de ampliar a previsibilidade para investimentos e reforçar o papel estratégico da bioenergia na segurança energética do país.
Atualmente, Mato Grosso do Sul conta com 22 unidades produtoras de bioenergia, sendo 19 usinas de cana-de-açúcar e três de etanol de milho. O setor está presente em 42 municípios, gera cerca de 34,5 mil empregos diretos e responde por aproximadamente 19% do PIB (Produto Interno Bruto) industrial do Estado.
O momento é considerado estratégico para Mato Grosso do Sul. Dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) mostram que o Estado assumiu, em 2026, a terceira posição no ranking nacional de produção de etanol, atrás apenas de São Paulo e Mato Grosso. Entre janeiro e maio, foram produzidos 1,783 bilhão de litros, um crescimento de 29,6% em relação ao mesmo período do ano passado. A produção de etanol anidro, utilizado na mistura da gasolina, foi a que mais avançou, com alta de 61,8%.
Bolso do consumidor sul-mato-grossense
Para o economista Eduardo Matos, o aumento da participação do etanol na gasolina não deve provocar alta nos preços ao consumidor. Pelo contrário, a medida tende a reduzir os impactos causados pelas oscilações do mercado internacional do petróleo. “Hoje, o petróleo sofre muitas oscilações, e a gasolina depende diretamente desse mercado. Já o etanol é produzido em larga escala no Brasil, o que torna seus preços mais estáveis. Ao aumentar a participação do etanol na gasolina, a tendência é reduzir a volatilidade do combustível”, explica.
Segundo o economista, o objetivo da medida não é subsidiar ou baratear artificialmente o preço da gasolina, mas diminuir a exposição do consumidor às variações do barril de petróleo. “Essa é uma medida de mitigação. Ela busca reduzir os impactos das oscilações internacionais sobre o preço da gasolina, oferecendo maior estabilidade ao mercado de combustíveis”, afirma.
Além dos benefícios econômicos, especialistas apontam que o aumento da participação do etanol na gasolina também fortalece a política nacional de combustíveis renováveis, reduz as emissões de gases de efeito estufa e amplia a participação da bioenergia na matriz energética brasileira.
Para Lucas Campos, motorista de uma rede de transportadoras, a nova mistura deve impactar o consumo de combustível, o que pode aumentar os gastos dos motoristas. “Vai haver uma alteração no bolso porque o consumo tende a ser maior. Hoje, a pessoa está acostumada a abastecer com gasolina e fazer uma média de 11 ou 12 quilômetros por litro. Essa média pode cair. Então, é preciso ver se o preço da gasolina vai cair, subir ou permanecer o mesmo. Como haverá uma proporção maior de etanol na mistura, o ideal seria que o preço da gasolina diminuísse, mas, provavelmente, isso não vai acontecer. A tendência é que o valor permaneça o mesmo”, avalia.
Estudos
De acordo com o Ministério de Minas e Energia, a decisão foi respaldada por testes técnicos feitos pelo Instituto Mauá de Tecnologia, que mostraram a viabilidade da mistura em veículos leves e motocicletas, sem comprometer o desempenho ou o consumo, mesmo em motores não flex.
Enquanto a nova mistura (E32) entra em vigor, o governo prossegue com avaliações para verificar os efeitos de teores ainda mais elevados, como o E35, ou seja, 35% de etanol anidro misturado à gasolina, com foco na “durabilidade dos componentes automotivos e dos efeitos da utilização do combustível em longo prazo”.
Ainda com foco na regulação estratégica do mercado de combustíveis, o CNPE aprovou outra resolução que atualiza as diretrizes sobre o fornecimento de biodiesel destinado a atender à mistura obrigatória ao óleo diesel B.
Na prática, a medida impõe barreira à importação do produto, embora se aplique exclusivamente à mistura obrigatória ao diesel B. “A comercialização de biodiesel importado permanece permitida para os demais segmentos previstos na regulamentação vigente”, explicou o ministério, em nota.
Pela nova norma, que ainda será publicada, o biodiesel para a mistura ao óleo diesel B deverá ser produzido exclusivamente por unidades autorizadas pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).
Por Ian Netto