Economista explica que menos de 7% das exportações do agronegócio do Estado têm o mercado norte-americano como destino, enquanto mais da metade é enviada à China
Uma eventual tarifa chinesa teria impacto mais severo sobre Mato Grosso do Sul do que a nova sobretaxa anunciada pelos Estados Unidos. O motivo é a concentração das exportações: mais da metade das vendas externas do agronegócio sul-mato-grossense tem a China como destino, enquanto menos de 7% seguem para o mercado norte-americano.
A avaliação é do economista e diretor da Agricon Consultoria, Fábio Ferreira Júnior. Para ele, o impacto da nova tarifa de 12,5% sobre o Estado tende a ser limitado porque os principais produtos da pauta exportadora para os Estados Unidos, como carne bovina, ferro-gusa e celulose, foram preservados.
“Com essa nova tarifa, a taxa para alguns setores chega a 37,5%. Apesar disso, os principais produtos do agronegócio brasileiro, como café, carne bovina e suco de laranja, ficaram fora dessa medida, reduzindo o impacto geral”, afirma.
Como já noticiado pelo O Estado, a nova sobretaxa pode se somar à tarifa adicional de 25% anunciada anteriormente pelo governo de Donald Trump. Para Fábio, no entanto, a exposição de Mato Grosso do Sul ao mercado norte-americano é pequena e os produtos mais relevantes continuam fora da taxação.
“Os principais itens da pauta estadual que vão para os Estados Unidos, como a carne bovina, o ferro-gusa e a celulose, foram preservados. Para o Brasil, essa tarifa adicional representa um desafio para alguns setores exportadores. No caso de Mato Grosso do Sul, o efeito continua sendo pequeno”, explica.
Entre janeiro e junho de 2026, Mato Grosso do Sul exportou mais de US$ 370 milhões para os Estados Unidos. A carne bovina respondeu por mais da metade desse valor. Somadas às vendas de ferro-gusa e celulose, as três cadeias representaram mais de 87% da pauta exportadora estadual destinada ao mercado norte-americano.
O único produto entre os principais itens afetado pela tarifa inicial foi o sebo bovino, que representava menos de 3% das exportações do Estado para os Estados Unidos.
Dependência da China
A concentração das exportações em poucos mercados, no entanto, é apontada como um ponto de atenção. De acordo com Fábio, mais da metade das exportações do agronegócio de Mato Grosso do Sul tem a China como destino.
A dependência é especialmente forte no caso da carne bovina. Entre janeiro e abril de 2026, o Estado exportou 41,6 milhões de quilos do produto para a China, alta de 57,45% em relação ao mesmo período de 2025. A receita também quase dobrou, passando de US$ 130,6 milhões para US$ 250,6 milhões.
A China é o principal comprador da carne bovina brasileira e também o maior destino da produção sul-mato-grossense. No primeiro semestre deste ano, o país respondeu por 39% das exportações de carne bovina de Mato Grosso do Sul, segundo dados da Fiems (Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul).
O crescimento das vendas ocorre em um momento de maior pressão sobre o comércio do produto. A China estabeleceu uma cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina brasileira livre de sobretaxa para 2026. No dia 21 de julho, o governo chinês informou que o Brasil já havia utilizado cerca de 80% desse limite.
Cota chinesa já afeta frigoríficos de MS
Quando a cota for ultrapassada, o volume excedente estará sujeito a uma tarifa adicional de 55%. Somada à alíquota-base de 12%, a tributação chega a 67%, o que já levou frigoríficos de Mato Grosso do Sul a reduzir o ritmo de abates e adotar férias coletivas.
Segundo o Sicadems (Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul), três frigoríficos entraram em férias coletivas: JBS, em Campo Grande; Iguatemi Beef, em Iguatemi; e Boibras, em São Gabriel do Oeste. Outras duas indústrias reduziram o ritmo de abates: Frigo Sul, em Aparecida do Taboado, e Natura Frig, em Rochedo.
“Uma eventual taxação adicional por parte dos chineses teria um impacto muito relevante para as nossas exportações por conta dessa concentração”, afirma Fábio.
Para o economista, o episódio deve ser usado como alerta para uma estratégia de longo prazo. “Mato Grosso do Sul praticamente sai ileso do tarifaço, mas esse episódio deixa um importante alerta. Hoje o Estado foi poupado, mas amanhã pode não ser”, destaca.
Efeitos sobre a soja e milhos são nulos
Para a soja e o milho, os efeitos da elevação da tarifa de importação dos Estados Unidos deve ter efeito praticamente inexistente foi o que avaliou o analista de Economia da Aprosoja/MS (Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul), Raphael Gimenes.
Segundo o economista, a nova tarifa adicional de 12,5%, somada aos 25% já aplicados a determinados produtos brasileiros, não afeta de forma significativa a comercialização dos dois principais grãos produzidos no Estado. Isso porque Mato Grosso do Sul praticamente não exporta soja e milho para o mercado norte-americano.
“Os Estados Unidos atuam muito mais como um concorrente internacional do que como um destino para as exportações sul-mato-grossenses desses produtos”, explica Gimenes.
Com isso, não há expectativa de impactos relevantes sobre a competitividade do setor, os preços pagos ao produtor ou a necessidade de redirecionar os embarques. As exportações de soja e milho de Mato Grosso do Sul seguem concentradas principalmente na China, além de outros mercados da Ásia e da Europa.
Entre os produtos do agronegócio estadual, o etanol é um dos poucos que permanecem efetivamente expostos à tributação acumulada de até 37,5%, já que não integra a lista de exceções anunciada pelos Estados Unidos.
Mesmo assim, o analista avalia que os reflexos sobre as usinas de etanol de milho instaladas em Mato Grosso do Sul tendem a ser limitados. Isso porque a maior parte da produção estadual é destinada ao mercado interno, reduzindo a dependência das exportações para os Estados Unidos.
Procurada pela reportagem, a Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul) informou que ainda avalia o conteúdo da nova sobretaxa e seus possíveis impactos para o setor e, por isso, não se posicionará neste momento.
Djeneffer Cordoba
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