Campo Grande vive um processo de expansão urbana que coloca em evidência um desafio cada vez mais presente: como conciliar o crescimento imobiliário com a preservação ambiental. O avanço de novos empreendimentos, especialmente em regiões próximas a áreas verdes e unidades de conservação, tem provocado debates sobre os limites da ocupação do solo e os impactos sobre a biodiversidade.
Um dos principais exemplos está no entorno do Parque Estadual do Prosa e do Parque dos Poderes. Em 2025, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) acionou a Justiça diante da possibilidade de implantação de empreendimentos de maior densidade na zona de amortecimento do parque. Entre as preocupações estavam a impermeabilização do solo, drenagem urbana, impactos sobre nascentes, fauna e vegetação.
O conflito levou à suspensão de novas autorizações e à realização de estudos sobre os impactos acumulados da ocupação. Em março de 2026, o Governo de Mato Grosso do Sul publicou o Decreto nº 16.757, regulamentando a Zona de Amortecimento do Parque Estadual do Prosa e estabelecendo novas regras para a região.
A área regulamentada possui 769,5 hectares. Entre as medidas estão exigências relacionadas à drenagem e infiltração da água da chuva, proteção da fauna e manutenção de áreas permeáveis. Em determinados setores, as construções também passaram a ter limite de altura.
Verde nativo também é infraestrutura urbana
Para a bióloga Júlia, que atua com restauração ambiental, o crescimento da cidade precisa estar acompanhado de planejamento ambiental e de uma arborização que valorize a vegetação nativa. “Uma cidade bem arborizada não é somente aquela que proporciona grande quantidade de sombra, mas que mantém a diversidade nativa e consegue atingir um bom percentual de arborização em todas as suas regiões. A arborização não pode estar restrita a lugares específicos da cidade”, afirma.
Segundo a especialista, entre os desafios de Campo Grande estão o controle da espécie invasora Leucena, a restauração da vegetação no entorno dos córregos, a escolha adequada das espécies e a fiscalização dos novos empreendimentos, incluindo as compensações ambientais.
A arborização também tem papel importante diante das altas temperaturas. Árvores e áreas verdes ajudam a reduzir o calor, melhorar a infiltração da água e diminuir impactos provocados pelas chuvas. “Quanto mais arborização de qualidade, mais a água consegue infiltrar no solo de maneira eficaz”, explica Júlia.
Expansão precisa respeitar limites
A preservação da vegetação também influencia diretamente a biodiversidade urbana. Diferentes espécies de árvores oferecem flores, frutos e abrigo para aves, insetos e outros animais. Para a bióloga, a conservação desses ambientes é fundamental diante da perda de polinizadores registrada em diferentes regiões.
O desafio, portanto, não está apenas em impedir construções em áreas ambientalmente sensíveis, mas em definir critérios para que o crescimento urbano aconteça de maneira planejada. O Plano Diretor de Campo Grande já prevê a proteção ambiental e a organização da expansão da cidade, mas a efetividade dessas regras depende de fiscalização e integração entre poder público, setor imobiliário, comunidade e instituições científicas.
Para os próximos anos, Júlia defende investimentos na arborização das periferias, proteção e recuperação de matas ciliares, combate a espécies invasoras e ampliação de parques. Ela também destaca a importância da participação das universidades na elaboração de projetos ambientais.
Campo Grande se aproxima de 1 milhão de habitantes e terá de lidar cada vez mais com a pressão por novas moradias e empreendimentos. O desafio será encontrar um equilíbrio entre desenvolvimento e conservação. Mais do que decidir onde construir, a cidade precisará definir onde preservar, como ocupar e qual modelo de crescimento pretende adotar para as próximas décadas.
Por Ian Netto