De casca de banana a renda extra: oficina ensina novas habilidades a mulheres da Capital

Foto: Roberta Martins
Foto: Roberta Martins

Curso “Mão na Massa” reúne 50 mulheres em Campo Grande e aposta no reaproveitamento de alimentos como alternativa para geração de renda

O que antes poderia terminar no lixo ganhou espaço entre panelas, receitas e planos de empreendedorismo. Em Campo Grande, uma oficina de culinária está ensinando mulheres a transformar alimentos que normalmente seriam descartados em produtos que podem chegar ao mercado e gerar renda.

A iniciativa “Mão na Massa”, promovida pelo FAC (Fundo de Apoio à Comunidade ), reúne 50 mulheres na Associação Solidária às Famílias do Vespasiano Martins, na região do Anhanduizinho. A capacitação inclui o preparo de brigadeiro de banana, feito com o aproveitamento da casca da fruta, e da tradicional saltenha, prato de origem boliviana bastante popular na região.

Mais do que ensinar receitas, a proposta é mostrar que a cozinha pode se transformar em uma oportunidade de trabalho, principalmente para mulheres que têm dificuldades de sair de casa para trabalhar.

Para a gastrônoma e professora Eva Galvão Santos, responsável por ensinar as participantes a preparar o brigadeiro de casca de banana, o reaproveitamento dos alimentos pode unir duas necessidades: reduzir o desperdício e criar uma fonte de renda. “Eu queria que elas primeiro entendessem como surge essa iniciativa de pegar a casca de banana, reutilizar e tornar algo novo. Muitas pessoas jogam muito alimento fora que dá para reaproveitar”, explica.

Segundo Eva, a iniciativa também contribui para a redução do volume de resíduos produzidos diariamente e pode representar uma alternativa para mulheres que precisam permanecer em casa por questões familiares. “Eu acho que vai dar uma geração de renda para a pessoa. Para aquela mulher que tem filho acamado, para quem não pode trabalhar porque, às vezes, precisa cuidar de um pai ou de uma mãe idosa, ela pode conseguir uma geração de renda dentro de casa”, afirma.

Da cozinha para o negócio

A ideia é que o aprendizado não termine quando a oficina acabar. A capacitação também aborda aspectos necessários para transformar a produção em negócio, como precificação, escolha de materiais, embalagem e divulgação dos produtos. Ao final, as participantes recebem um certificado profissional.

Foto: Roberta Martins

Para Eva, o curso deve ser visto como o primeiro passo de uma trajetória de aprendizado. “O objetivo nosso é que elas saiam daqui já sabendo fazer. É um início, um início. A Prefeitura também oferece vários cursos além desses, e elas sempre podem continuar fazendo, e são totalmente gratuitos”, destaca.

A professora acredita ainda que levar a capacitação para bairros mais afastados do centro facilita o acesso das pessoas que, muitas vezes, não têm condições de se deslocar para outras regiões da cidade. “Às vezes, a pessoa não tem passagem de ônibus. Então, a gente vai até o local onde elas estão”, reforça.

Para Adir Diniz, diretora da FAC (Fundo de Apoio à Comunidade), a gastronomia é uma das principais frentes do FAC, mas o programa também oferece atividades de artesanato e outras ações voltadas à autonomia financeira. Durante a capacitação, as participantes aprendem desde o preparo dos alimentos até técnicas de venda.
Para Adir, a iniciativa tem papel importante especialmente para mães solo e mulheres que precisam permanecer em casa por questões familiares.

“O nosso objetivo é que elas venham a ter uma geração de renda, uma independência financeira e que possam gerar renda dentro da casa. Eu sempre falo: saia da crise sem sair de casa. Elas podem ganhar o seu dinheiro sem sair de casa”, ressaltou.

Moradores com novas oportunidades

Entre as participantes está Rosemeire de Souza Teixeira, que já trabalha como padeira e viu na oficina uma oportunidade de ampliar as possibilidades. Ela conta que ficou sabendo do curso por meio de um grupo de moradores do bairro. O convite despertou o interesse justamente pela possibilidade de aprender uma nova atividade que pudesse ser incorporada ao trabalho que já realiza. “Eu fiz para agregar à nossa renda. Eu me interessei. É mais uma renda para mim”, conta.

Depois de aprender a preparar o brigadeiro com casca de banana, Rosemeire pretende levar o conhecimento para além da sala de aula e começar a comercializar o produto. “É uma renda extra para mim. Como eu já tenho as minhas outras rendas, é mais uma para agregar”, afirma.

Foto: Roberta Martins

A nova habilidade também representa, para ela, uma forma de ampliar o currículo profissional. “Eu sou padeira. Por enquanto, nesse momento, sou salgadeira, mas já tenho mais uma coisa para agregar no meu currículo”, diz.

Moradora da região, Rosemeire também defende que ações de capacitação sejam realizadas com mais frequência no bairro, que, segundo ela, fica distante de outras áreas onde normalmente são oferecidos cursos. “Nosso bairro é bem afastado, não tem muitas opções. Essas ações acabam trazendo mais oportunidade para a gente e podem até movimentar o comércio”, completa.

Sustentabilidade dentro da cozinha

A proposta do curso também se conecta ao conceito de economia circular, ao incentivar que partes dos alimentos normalmente descartadas sejam utilizadas em novas preparações. Segundo a Prefeitura da Capital, a oficina busca justamente estimular a sustentabilidade e a economia circular nas comunidades de Campo Grande.

Para Eva, o impacto pode ser percebido tanto na renda das famílias quanto no meio ambiente. “Olha o tanto de lixo que a gente joga e que polui o nosso meio ambiente. Então, vai ajudar o meio ambiente, melhorar o nosso ar que a gente respira e também gerar renda para aquela pessoa que está dentro de casa e não pode sair para trabalhar”, destaca.

A expectativa é que as participantes consigam transformar o conhecimento adquirido em uma atividade que possa ser desenvolvida de forma autônoma, dentro de casa ou em pequenos negócios.

Por Ian Netto 

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