Com fretes baseados na tabela da ANTT, motoristas dizem que aumento do combustível não é repassado e custo das viagens sobe
Em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio, caminhoneiros estão absorvendo parte dos prejuízos provocados pela recente alta do diesel. Com contratos baseados na tabela de referência da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), motoristas relatam que o custo das viagens sobe rapidamente, enquanto o valor pago pelo transporte permanece o mesmo.
Há cerca de 30 anos na profissão, o caminhoneiro Colomar de Brito, de 58 anos, afirma que a alta recente do combustível pegou a categoria de surpresa e tornou o trabalho mais difícil. “Isso daí ninguém esperava. De um dia para a noite aumentar mais de um real, cerca de R$ 1,30, é um absurdo”, relata à reportagem do O Estado.
Segundo ele, mesmo com o aumento do combustível, os caminhoneiros nem sempre conseguem reajustar o valor do frete, já que muitos contratos seguem referências estabelecidas pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres).
Sem alternativas imediatas para compensar o aumento de custos, o motorista diz que resta continuar trabalhando e absorvendo parte das perdas. “A gente tem que arcar com os prejuízos que eles fazem. A gente deixa de ganhar”, completa.
Oscilações no mercado internacional
De acordo com o diretor-executivo do sindicato da categoria em Mato Grosso do Sul, Edson Lazarotto, o aumento no preço dos combustíveis acompanha as oscilações do petróleo no mercado internacional desde o início das tensões envolvendo Estados Unidos e Irã.
Segundo ele, o barril do petróleo, que estava na faixa de US$ 62 no início do conflito, chegou a ultrapassar US$ 100 durante o período de maior instabilidade, registrado nesta segunda semana de março .
“Todos os setores ligados ao combustível tiveram aumento em larga escala. Como há muitas empresas que importam diesel e gasolina, os preços acabam sendo ajustados de acordo com essa realidade internacional”, explicou.
Impacto pode ser gradual
Segundo Gomes, o reflexo no Brasil não costuma ser imediato, pois depende de fatores como estoques, estratégia comercial das refinarias e variações cambiais.
“Uma escalada prolongada do conflito pode pressionar os preços nas próximas semanas ou meses, mas o impacto tende a ocorrer de forma gradual”, afirma.
Em nota, a Petrobras informou que não atua diretamente na venda ao consumidor final. “A Petrobras esclarece que não atua no setor de distribuição. A Petrobras produz, refina e vende o combustível para as distribuidoras. As empresas de distribuição ou os sindicatos que as representam devem ser consultados sobre o preço final nos postos. O preço final é composto por uma série de fatores”, informou a estatal.
Alíquotas zero
O Governo do Brasil anunciou ontem (12) um conjunto de ações para reduzir a pressão que as altas na cotação internacional do barril de petróleo vêm exercendo sobre o óleo diesel, bem como para aumentar a fiscalização no setor, com o objetivo de combater a especulação e a alta abusiva de preços.
As ações, que incluem a edição de Medida Provisória e de três decretos assinados pelo presidente Lula.
“Nós vamos fazer tudo o que for possível. E quem sabe esperar, até com a boa vontade dos governadores de estados, que podem reduzir um pouco o ICMS também no preço do combustível, naquilo que for possível cada estado fazer, para que a gente garanta que essa guerra não chegue ao bolso do motorista, ao bolso do caminhoneiro. E sobretudo, não chegando ao bolso do caminhoneiro, não vai chegar ao prato de feijão, salada, alface, cebola e da comida que o povo mais come”, disse Lula.
Uma das medidas será zerar as alíquotas de PIS/Cofins incidentes sobre o diesel. Na prática, isso elimina os únicos dois impostos federais atualmente cobrados sobre o combustível e representa uma redução de R$ 0,32 por litro.
Além disso, uma Medida Provisória vai prever o pagamento de subvenção a produtores e importadores de diesel, no valor de R$ 0,32 por litro, que deverá ser repassada. Somadas, as duas medidas têm o objetivo de gerar um alívio de R$ 0,64 por litro nas bombas, para conter a pressão de custos ao longo da cadeia e criar condições para que esse efeito chegue à população nas bombas dos postos. Será editado decreto para regulamentar a subvenção.
Por Djeneffer Cordoba