Alta histórica do ouro reduz vendas de joias e aquece mercado de revenda

Foto: Nilson Figueiredo
Foto: Nilson Figueiredo

O metal ultrapassou US$ 3.100 a onça troy, cerca de R$ 572,90 por grama, atingindo o maior valor da história

O ouro atingiu um recorde histórico de US$ 3.132 por onça troy (cerca de R$ 572,90 por grama), impulsionado por incertezas econômicas globais e políticas comerciais mais agressivas dos Estados Unidos. Se, por um lado, a valorização fortalece a atratividade do metal como investimento, por outro, está afastando consumidores do mercado de joias e estimulando a revenda de peças antigas.

Para Jaimes Hinostroza, proprietário da Jaime Joias, a alta reduziu a demanda por joias de ouro. “Ficou pior a procura, o valor tá muito alto”, resume. Se a compra diminuiu, a venda aumentou. Segundo ele, mais clientes têm buscado vender peças antigas, seja para aproveitar a valorização ou por necessidade financeira. “Já vi esse movimento antes”, comenta.

Bruno Zulin, da BZ Joias, que trabalha na revenda para fábricas, confirma que a alta do ouro gerou um aumento na procura pelo metal bruto. “As fábricas têm procurado muito ouro para comprar”, afirma. No entanto, ele explica que a valorização não se reflete imediatamente no preço final das peças, o que pode frear o mercado de joias no curto prazo.

O impacto da alta também é sentido por Dudu Portugal, ourives que atua na compra de ouro puro. Ele destaca que o metal acompanha o dólar e que, com a valorização, as vendas de joias de ouro 18K despencaram. “A negociação de peças de ouro enfraqueceu muito, muito mesmo”, afirma. Ainda assim, ele observa que o ouro continua sendo um símbolo de status e conquista. “É uma maneira de mostrar que você está subindo na vida”, diz.

Amauri Teixeira de Moraes, da Rennova Joalheria, há mais de 40 anos no mercado, confirma que a queda nas vendas é visível, principalmente entre as revendedoras que atendem clientes diretamente. “As vendas caíram muito em relação a anos anteriores, até mesmo se comparando com a pandemia”, relata. Segundo ele, quem ainda compra joias tende a valorizá-las como um investimento, levando em conta o valor agregado da mão de obra. “Ouro puro sai a R$ 600 o grama, mas uma peça pode custar o dobro”, explica.

Com o ouro se consolidando como um ativo seguro em tempos de incerteza, a tendência é que a valorização continue. “O ouro sempre valorizou, e quando há crises, piora. Acho que essa alta vai se manter”, avalia Hinostroza. Se por um lado isso beneficia investidores e o setor de revenda, por outro, torna o metal cada vez mais restrito ao topo da pirâmide econômica.

Temores sobre crescimento global

Ourives avaliando qualidade de peça em ouro
Foto: Nilson Figueiredo

As políticas tarifárias do presidente dos EUA, Donald Trump, geraram preocupações de que uma guerra comercial global alimentará a inflação e causará uma desaceleração econômica nos EUA e além, fazendo com que as ações de Wall Street entrem em correção e aumentando o apelo do ouro.

As expectativas de cortes nas taxas de juros pelo Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) também impulsionaram o ouro, que, como um ativo sem rendimento, geralmente se beneficia de custos de empréstimo mais baixos.

“Tanto investidores institucionais quanto privados estão recorrendo ao ouro para proteger seus portfólios contra turbulências econômicas”, disse Alexander Zumpfe, negociante sênior de metais preciosos na Heraeus.

“O mercado físico de ouro está experimentando uma forte demanda” porque os metais preciosos são valorizados como proteção contra crises econômicas, acrescentou.

Os últimos grandes marcos de preço do ouro foram durante a crise financeira, quando ultrapassou US$ 1.000 por onça troy em março de 2008 —e durante a pandemia de Covid-19, quando os preços atingiram US$ 2.000 em agosto de 2020.

Preocupações de que Trump possa impor tarifas sobre o ouro levaram a um aumento sem precedentes de barras de ouro em Nova York, onde os estoques na Comex atingiram níveis recordes.

Desde que Trump foi eleito, mais de US$ 70 bilhões em ouro foram transportados para Nova York, embora esse fluxo tenha começado a desacelerar recentemente.

O aumento inesperado nos preços do ouro neste ano fez com que bancos de investimento corressem para revisar suas previsões de preço. Pelo menos quatro bancos —Citibank, Goldman Sachs, Macquarie e RBC— elevaram suas previsões nas últimas semanas.

O aumento acima de US$ 3.000 significa que o ouro subiu quase dez vezes desde 2000, superando os principais índices de ações.

 

Por Djeneffer Cordoba

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