A modernização transforma o campo e abre o mercado para novas profissões

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Com o avanço da inovação tecnológica, funções como piloto de drone agrícola e analista de dados ganham espaço e exigem qualificação constante dos trabalhadores no Estado

Mato Grosso do Sul é o nono estado brasileiro com o maior número de empresas e operadores de drones voltados ao agronegócio. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Estado reúne 138 registros ativos e 228 aeronaves remotamente pilotadas. Contudo, a revolução tecnológica que está mudando o perfil das ocupações nas propriedades rurais enfrenta o desafio de encontrar mão de obra qualificada.

Entre as ocupações que ganharam espaço estão piloto de drone agrícola, especialista de agricultura de precisão, operador de máquinas autônomas e especialista em análise de dados. Elas fazem parte do chamado Agro 4.0, que reúne tecnologias como inteligência artificial, drones e sensores para tornar a produção rural mais eficiente.

Em Mato Grosso do Sul, essa transformação aumenta a produtividade e reduz desperdícios, mas também exige trabalhadores cada vez mais preparados para operar equipamentos e interpretar informações em tempo real.

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Adaptação ao “novo campo”

Eliane de Oliveira é engenheira agrônoma há mais de 20 anos e acompanhou de perto a mudança tecnológica do campo. “Antes eu precisava andar talhões e hectares para procurar pragas, planta por planta. Era um trabalho cansativo e muitas vezes só percebíamos o problema quando já estava grande”.
Hoje, ela confirma que essa inspeção já é realizada de forma digital. “Abrimos o tablet no campo e o mapa mostra exatamente onde está o problema. O drone sobrevoa e os sensores mandam os dados. A ida ao campo agora é direcionada e muito mais rápida”.

Contudo, Lucas Garcia, gerente educacional do Senar/MS (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso do Sul), explica que essa transição não significa a substituição do homem pela máquina, mas uma mudança de mentalidade. “A transformação tecnológica no agro exige a evolução contínua das competências. O setor continua precisando de trabalhadores comprometidos, mas que agora saibam interpretar dados e operar equipamentos inteligentes”. Segundo ele, profissões como operadores de máquinas autônomas deixaram de ser tendência para se tornarem necessidades concretas.

Quem também confirma as mudanças no perfil profissional é Dany Correa, coordenador de campo da Aprosoja/MS (Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul). Ele destaca o desafio de conectar os produtores a esse novo mundo tecnológico. “Como toda tecnologia, quando chega ela causa um certo alvoroço e até mesmo dúvidas. Mas a gente tem visto no campo o produtor bem proativo no sentido de aceitar e procurar ver como que aquela tecnologia pode melhorar e reduzir seu custo também. Hoje a tecnologia tem esse papel fundamental de tentar trazer para o homem do campo redução de custo, otimização dos processos”, ressalta o coordenador.

Qualificação exige aprendizado contínuo

No dia a dia, a qualificação ainda representa um desafio para o setor. Eliane Oliveira observa que muitos jovens chegam ao mercado sabendo pilotar drones, mas falham na análise estratégica. “O maior desafio é transformar esses dados em decisões práticas na lavoura. Interpretar telemetria e usar sistemas autônomos de forma segura ainda é raro”. Para ela, a formação universitária muitas vezes entrega o profissional “cru”, exigindo especializações constantes via cursos online e práticos.

A qualificação é também uma estratégia de sobrevivência econômica. Em Mato Grosso do Sul, o custo do frete e os gargalos logísticos podem representar até 60% do valor da tonelada de milho. “Quando a eficiência aumenta dentro da porteira, por meio da agricultura de precisão e drones, o impacto dos custos externos tende a ser menor”, afirma Garcia. Ele destaca que investir em educação profissional tornou-se indispensável para garantir a rentabilidade e a competitividade do agronegócio.

Para o coordenador da Aprosoja/MS, a palavra que define o momento de modernização do campo é: capacitação. Então a Associação tem promovido o “Circuito Aprosoja”, a fim de levar não apenas para o campo, mas também ao meio universitário o conhecimento necessário para manusear e implementar as novas tecnologias ao cotidiano rural.

“Promovemos treinamentos e mentorias por meio do Projeto Produtividade e do Circuito Acadêmico. Levamos especialistas em irrigação, pulverização e colheita diretamente aos produtores. O objetivo é qualificar os profissionais e contribuir para a redução dos custos no campo. Quanto melhor a mão de obra qualificada, mais resultados positivos o homem do campo vai ter”, finaliza Corrêa

Na tentativa de suprir essa demanda, o Senar/MS também intensificou a formação de trabalhadores. Desde janeiro de 2022, a entidade realizou 1.220 turmas de capacitação em 72 municípios do Estado, alcançando 91% do território sul-mato-grossense. O foco das capacitações abrange desde o domínio técnico das tecnologias digitais até habilidades comportamentais, as chamadas soft skills, como inteligência para resolver problemas complexos e adaptabilidade.

Nesse novo cenário, o papel do profissional de agronomia também foi ressignificado. Segundo a engenheira Eliane Oliveira, a base do conhecimento antigo da agronomia permanece, mas o profissional passou a coordenar pilotos de drones e analistas de dados para transformar tecnologia em decisões mais assertivas.
“Deixamos de ser apenas técnicos de plantas para nos tornarmos gestores de tecnologia e pessoas”, define Oliveira.

“Deixamos de ser apenas técnicos de plantas para nos tornarmos gestores de tecnologia e pessoas”, resume a engenheira agrônoma Eliane Oliveira.

 

Enzo Pereira

 

 

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