Com avanço dos casos e novos riscos no ambiente digital, especialista da Afya pontua os sinais de alerta e como família pode agir
Mato Grosso do Sul já registrou 225 mortes por suicídio até o início de agosto de 2026, segundo dados do painel Estatística Sigo, da Sejusp (Secretaria de Justiça e Segurança Pública). Desse total, 14 vítimas eram adolescentes e 69 estavam na faixa considerada jovem.

Carlos Renato Periotto, docente do curso de pós-graduação em Psiquiatria da Afya Educação Médica Campo Grande – Foto: divulgação
Diante desse cenário, o médico psiquiatra e professor da Afya Educação Médica, Carlos Periotto, alerta que discutir saúde mental entre crianças, adolescentes e jovens também exige atenção às mudanças na forma como essa população se relaciona, especialmente no ambiente digital. “Os jovens são uma população vulnerável devido à imaturidade emocional e à impulsividade. Além disso, há fatores como conflitos familiares, vulnerabilidades sociais e, mais recentemente, o impacto das redes sociais, com comparação constante e alta exposição”, explica.
O alerta ganha força diante de casos recentes que mostram como a internet também pode ser utilizada para violência e manipulação. Em julho, a morte de uma adolescente de 13 anos, em Naviraí, levou a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul a deflagrar a Operação Lívia. A investigação apontou que a menina havia sido aliciada por integrantes de grupos virtuais que recrutavam crianças e adolescentes e submetiam as vítimas a manipulação psicológica, ameaças e desafios violentos. O caso passou a ser tratado como homicídio, com cinco adolescentes e um adulto identificados por participação no grupo.
Da exposição à manipulação
A internet ampliou as possibilidades de interação, mas também criou ambientes em que adultos e adolescentes podem esconder a identidade e conquistar a confiança das vítimas. Na Operação Lívia, a polícia identificou o uso de perfis falsos e a migração entre diferentes plataformas para manter as atividades dos grupos.
Segundo a investigação, informações sobre família, escola e rotina eram utilizadas para aumentar o controle sobre as vítimas. Para Periotto, crianças e adolescentes ainda estão desenvolvendo recursos emocionais para lidar com frustrações, pressão social e conflitos, o que pode tornar situações virtuais ainda mais difíceis de administrar. A necessidade de pertencimento também tem grande peso nessa fase. “A sensação de não fazer parte de um grupo pesa muito”, afirma.
A exposição constante à comparação, cobranças e rejeição pode contribuir para sentimentos de inadequação, ansiedade, isolamento e baixa autoestima. Em situações mais graves, o sofrimento pode estar associado a comportamentos de risco, automutilação ou pensamentos suicidas.
A investigação da Operação Lívia apontou ainda a presença frequente de meninas entre as vítimas submetidas a controle virtual e situações de automutilação. Segundo a polícia, havia também uma disputa entre grupos, que buscavam prestígio por meio da escalada da violência. O especialista ressalta, porém, que o ambiente virtual, isoladamente, não é responsável por casos de suicídio ou autolesão.
Esses comportamentos resultam de uma combinação de fatores e precisam ser avaliados individualmente.
“Nem sempre existe um diagnóstico formal, especialmente entre adolescentes. Muitas vezes ainda não houve tempo para caracterizar um transtorno, mas a angústia e a frustração já estão presentes e podem levar a comportamentos impulsivos”, explica.
Mudanças de comportamento exigem atenção
Para familiares, uma das principais dificuldades é diferenciar mudanças próprias da adolescência de sinais de sofrimento emocional. Segundo Periotto, isolamento repentino, irritabilidade, queda no rendimento escolar, alterações no sono ou no apetite, abandono de atividades que antes davam prazer e falas negativas sobre si mesmo merecem atenção. Mudanças bruscas de humor e alterações na relação com amigos também devem ser observadas.
Nenhum desses sinais, isoladamente, significa que o adolescente esteja pensando em suicídio. O alerta aumenta quando as mudanças são persistentes ou intensas, principalmente se acompanhadas de falas sobre morte, desesperança ou falta de perspectiva. “Não é preciso esperar que a situação se agrave. Quanto mais cedo a intervenção, melhor o prognóstico”, reforça o médico.
Família precisa acompanhar e manter o diálogo
A Operação Lívia também evidenciou uma dificuldade enfrentada por muitos pais: nem sempre os adultos sabem o que os filhos fazem na internet. Para Periotto, porém, o acompanhamento não deve se limitar ao controle. O vínculo e a abertura para conversar são fundamentais para que crianças e adolescentes procurem ajuda diante de ameaças, constrangimentos ou situações de pressão.
“A prevenção começa com vínculo, escuta sem julgamento e diálogo aberto. Muitas vezes, o jovem precisa de acolhimento, não de crítica ou punição”, afirma. O psiquiatra também alerta que minimizar ou ridicularizar o sofrimento pode agravá-lo. “Tratar como ‘chamar atenção’ pode agravar muito o quadro”, diz.
Proteção no ambiente digital
O debate sobre os riscos enfrentados por crianças e adolescentes na internet também ganhou força com a sanção de uma nova legislação que endurece o combate à violência sexual contra menores no ambiente digital. A norma passou a tratar expressamente como crime a produção de conteúdos que simulem a participação de crianças ou adolescentes em situações sexuais, inclusive por meio de montagens, adulterações ou deepfakes, além de ampliar mecanismos de investigação de crimes virtuais.
Embora tenha foco na violência sexual, a mudança ocorre no mesmo período em que a Operação Lívia expôs outro tipo de ameaça no ambiente digital: o recrutamento, a manipulação e o controle psicológico de menores.
Para o psiquiatra da Afya, casos como esses reforçam a importância de identificar sinais de sofrimento antes que eles evoluam para situações mais graves. Quando necessário, o tratamento pode envolver psicoterapia, acompanhamento médico, participação da família e, em alguns casos, medicamentos. A conduta deve ser individualizada e considerar também os ambientes familiar, escolar e social do jovem.
Atendimento gratuito – Em Campo Grande, a Afya Educação Médica oferece atendimento psiquiátrico gratuito por meio do modelo de ambulatório-escola, que integra a formação médica à assistência à população. Os atendimentos são realizados por profissionais especializados, com supervisão de especialistas, ampliando o acesso ao cuidado em saúde mental.
Agendamentos: (67) 99885-9556
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