‘Nosso Segredo’ aqui: prestigie o legado de Domingos Oliveira

Grace Passô é premiada no Festival de Gramado com 'Nosso segredo' /   Foto: Edison Vara/Ag.Pressphoto
Grace Passô é premiada no Festival de Gramado com 'Nosso segredo' / Foto: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Fera indomável do teatro brasileiro, escalada para defender o país no Festival de San Sebastián, na mostra Horizontes Latinos, de 18 a 26 de setembro, a mineira Grace Passô deixou Gramado em estado de júbilo com sua estreia como realizadora de longas-metragens, “Nosso Segredo”, prometido pelo circuito exibidor para a próxima quinta-feira. É um drama decolonial, de traços fabulares, sobre uma família às voltas com a ausência dolorosa do protagonista, acossada por um vetor de mistério que envolve a morte (de brancos) na preservação das populações pretas há muito oprimidas.

É um exercício de criação magistral de uma estrela que nos faz pensar no quão potente é a interseção entre palcos e telas em nosso audiovisual. Quando se debate essa proximidade das artes cênicas com as telas, a doce figura de Domingos de Oliveira (1936-2019) é uma imagem que comina nossa lembrança. Em terras gramadenses, ele foi um titã. Perpétuo tanto na arte quanto na saudade deixada por sua obra, Domingos ganha em 2026 uma série de celebrações que atravessam diferentes momentos de sua trajetória.

Na proximidade do aniversário de 90 anos que completaria em outubro, o realizador carioca é lembrado sazonalmente pela TV Brasil, que, virou, mexeu, transmite seu “Separações” (2002), um dos maiores sucessos de sua carreira no cinema. Aliás, 2026 marca também os dez anos de “BR716”, a dramédia memorialista que lhe rendeu o Kikito de Melhor Filme no Festival de Gramado de 2016, e os 60 anos de “Todas as Mulheres do Mundo”, seu clássico de 1966, vencedor do Candango no Festival de Brasília.

Em “Separações”, Domingos transforma uma experiência íntima em matéria dramatúrgica ao interpretar Cabral, um encenador que tenta recuperar o amor de Glorinha, vivida por Priscilla Rozenbaum, sua companheira de vida e de obra. O filme parte da própria separação do casal e acompanha as consequências sentimentais, filosóficas e artísticas desse rompimento.

Lançado no Festival de Gramado em 2002, “Separações” ampliou o prestígio de Priscilla, que conquistou o Kikito de Melhor Atriz. Suzana Saldanha, que interpreta Laura, uma velha amiga e confidente de Cabral, recebeu o troféu de Melhor Atriz Coadjuvante. Naquele mesmo ano, “Durval Discos”, de Anna Muylaert, foi um dos grandes destaques da premiação.

O Cabral de Separações é um personagem profundamente ligado ao próprio Domingos. Apaixonado por Glorinha, ele sofre com a ideia de que “amar é querer o bem do outro”. O princípio, entretanto, ganha uma dimensão paradoxal: ao tentar garantir a felicidade da mulher que ama, Cabral passa a sentir que o relacionamento também o impede de experimentar outras possibilidades. É daí que surgem as sucessivas propostas de “folga” no relacionamento.

Durante um desses intervalos, o casal reencontra Diogo (Fábio Junqueira), antigo aluno de Cabral, que guarda uma paixão inacabada. A aproximação provoca uma nova ruptura e desencadeia uma rede de relações que envolve Ricardo (Ricardo Kosovski), ex-namorado de Glorinha; Maribel (Nanda Rocha), jovem com quem ele se relaciona; Júlia (Maria Ribeiro), filha de Cabral; e Laura, interpretada por Suzana Saldanha.

A estrutura do filme nasceu de uma ideia de Domingos que associava a separação amorosa às cinco fases enfrentadas diante da morte. A referência veio do livro Sobre a Morte e o Morrer, da psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross, presenteado a ele por Maria Clara Machado.

Essa narrativa cheia de lirismo nasceu primeiro no teatro. Sem dinheiro suficiente para bancar imediatamente uma produção cinematográfica, Domingos e Priscilla levaram a história para o palco do Planetário da Gávea, espaço que haviam construído e ocupado naquele período.

Lançado comercialmente em janeiro de 2003, “Separações” ultrapassou as fronteiras brasileiras e conquistou o Festival de Mar del Plata, na Argentina, onde recebeu os prémios de Melhor Filme e Melhor Ator, para Domingos.

O longa pertence a uma fase particularmente fértil da carreira do cineasta durante a chamada Retomada do cinema brasileiro. Depois de cerca de 18 anos afastado das telas, período em que se dedicou sobretudo à televisão e ao teatro, Domingos voltou ao cinema em 1998 com “Amores”, vencedor do Kikito de Júri Popular em Gramado. A partir dali, estabeleceu uma nova fase de sua dramaturgia cinematográfica, cada vez mais próxima de suas experiências pessoais, de suas inquietações sobre o amor e das relações entre arte e vida.

Tem um canal no Youtube, o Set por Sete, de André Dessandes, onde o jovem crítico Gustavo Valente, promessa de renovação da crítica, vem analisando grandes nomes brasileiros, de Ugo Giorgetti a Ana Carolina (de “Mar de Rosas”). Seu programa se chama “Momento Crítico”. Ele tem um livro obrigatório, com o mesmo nome, analisando cineastas de peso.

Nessa sua safra Brasil, com o autor desta coluna como parceiro, Valente acaba de esquadrinhar a importância política de Gramado. Grace Passô esteve entre seus destaques. A atriz e, agora, realizadora é uma prova de vitalidade de nossa atividade cinematográfica. Seu “Nosso Segredo” é um drama de trilha sonora estonteante (composta por Amaro Freitas) esculpido entre luto, lágrimas e lama (ligada a um surpreendente signo animal) a partir de reescrita de “Amores Surdos”, texto teatral de autoria da própria Grace. A fotografia dionisíaca de Wilssa Esser assegura um aspecto crepuscular ao enredo que mistura finitude, recomeço e perenidade.

Ó… ainda sobre Gramado: que filme lindo é “Pão Doce”, um curta… “O” curta. De tudo o que se viu no festival, na zona dedicada a pílulas de Brasil, nenhum título exibido comoveu mais a cidade do que o pequeno grande filme de Wesley Gabriel Silva Santos. O desempenho de Francisco Gaspar na pele de um padeiro que encara os abusos laborais de uma jornada sem um pingo de humanidade levou o festival por uma trilha de neorrealismo (tardio, mas poético).

Se nos longas-metragens, o trabalho de José Loreto em “Chorão – Só Os Loucos Sabem”, exibido na segunda-feira passada, segue imbatível, nos curtas, Gaspar marcou seu nome e deixou seu talento GG se impor. Em Guarulhos, seu personagem, Fernando, tenta preservar o máximo de tempo para poder curtir o sexto aniversário da sua filha. Forçado a levar Sophia para a padaria, por não ter com quem deixa-la, ele precisa navegar pelo espaço estreito entre a sobrevivência profissional e o zelo paterno. A realização de Wesley Gabriel é primorosa, e evoca clássicos de SP nas telas como “O Grande Momento” (1958), de Roberto Santos (1928-1987).

 

Por Rodrigo Fonseca

 

Confira as redes sociais do Estado Online no Facebook Instagram

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *