Mais do que uma atividade esportiva, a bola se torna uma forma de convivência entre pais, filhos, avôs e netos, transmitindo valores que permanecem mesmo quando os campeonatos acabam, as carreiras mudam ou a distância separa a família.
Na família de Eraldo de Oliveira Nunes, de 54 anos, o futebol já fazia parte da história antes mesmo de ele entrar em campo. Seu pai, João Batista Nunes, jogou pela Portuguesa e pelo Taveirópolis. Eraldo também teve passagem profissional por Comercial, Taveirópolis e Alegrete, do Rio Grande do Sul, entre 1985 e 1989.
A paixão continuou com o filho, Alex Ramos Nunes, de 34 anos, goleiro, e chegou aos netos. Kauã Henrique Sousa Nunes, de 18 anos, atua como meio-campista, enquanto Arthur, de 11, e Nicolas, de 9, também praticam o esporte. Nicolas chegou a ser artilheiro estadual de futsal nas categorias sub-6, sub-7, sub-8 e sub-9.
“Está no sangue da família”, resume Eraldo.
Para ele, porém, o principal legado não está apenas na habilidade com a bola. Está na união construída ao redor dela. Quando seu irmão mais velho decidiu seguir no futebol, criou o Náutico Esporte Clube, inicialmente um time de pelada que depois se federou. O grupo existiu até 1992 e reunia familiares e amigos.
Os jogos eram acompanhados por momentos de convivência: as famílias tomavam café da manhã juntas, organizavam concentrações e se ajudavam quando surgiam dificuldades. Mesmo depois do fim do clube, a paixão continuou nos campeonatos da Prefeitura e na Copa Kaiser, competição em que a equipe conquistou títulos.
Eraldo precisou interromper a carreira profissional após sofrer uma grave lesão no tornozelo, com rompimento dos ligamentos. Anos depois, voltou aos campeonatos amadores, retomando uma relação com o futebol que nunca havia desaparecido.
Hoje, o filho Alex atua como goleiro pelo EC Borussia, do Jardim Zé Pereira, e pelo Sayonara FC. Em algumas ocasiões, chega a dividir o campo com o filho mais velho, mantendo a tradição familiar.
Kauã também enfrentou uma lesão séria no tornozelo esquerdo. A previsão inicial era de até um ano afastado dos gramados, mas, depois da cirurgia e do tratamento, voltou em apenas quatro meses. O retorno teve um significado especial: em uma competição de alto nível em Miranda, na categoria sub-16, foi eleito o melhor atleta do campeonato.
Para Alex, a influência paterna é decisiva: “Meu pai é o meu maior espelho. Para mim, ele é tudo”.
Kauã cresceu observando o pai e o avô jogarem. O campo fazia parte da infância, e a convivência com os dois despertou nele o desejo de seguir pelo mesmo caminho. Durante a recuperação da lesão, a presença da família ganhou ainda mais importância. Sem poder treinar ou jogar, ele enfrentou ansiedade e incerteza, enquanto o pai reforçava que a cirurgia daria certo e que ele voltaria aos gramados.
Hoje, Alex também trabalha com formação esportiva na escolinha do Borussia e procura transmitir a outras crianças os valores que aprendeu em casa. Para Eraldo, a principal herança de seu próprio pai foi justamente essa capacidade de reunir as pessoas.
“Se não tiver união, não tem como vencer sozinho”, afirma
Futebol como escola
Na família de Francisco Rafael de Araújo, de 36 anos, o futebol também começou com o pai e se tornou uma ferramenta de educação e convivência. Hoje, Rafael está parcialmente afastado dos gramados, mas continua ligado ao esporte como presidente e responsável pelo Laion Futebol Clube, time amador que fundou em 2024.
Os filhos cresceram acompanhando essa rotina. Alisson, conhecido como Chico, tem 16 anos; Pedro, 14; e Caleb, apenas 2 anos, já demonstra interesse pela bola.
Rafael conta que os filhos demonstravam gosto pelo futebol desde muito pequenos. A partir da convivência diária, percebeu neles comportamentos que reconhecia da própria infância. Para ele, a influência não significa apenas ensinar a jogar, mas também transmitir valores.
Nos treinos e competições, cobra respeito aos professores, adversários e colegas. A rivalidade, segundo ele, deve terminar quando acaba a partida. O futebol funciona como instrumento para ensinar disciplina, saúde, convivência e responsabilidade.
Alisson acompanhava o pai nos campos e o via jogar como volante. Aos poucos, passou a reproduzir seus movimentos e recebeu os primeiros ensinamentos, inclusive em campos de areia. Hoje, reconhece no pai uma das principais razões para sua trajetória:
“Foi ele que me ensinou tudo o que eu sou agora”.
A cobrança faz parte dessa relação. Rafael acompanha os jogos e as viagens, exigindo evolução dos filhos, mas também oferecendo apoio. Os irmãos atualmente defendem o Vitória Esporte Clube. A trajetória começou no projeto Champions, na Comunidade Tia Eva, e avançou para competições e viagens, incluindo uma experiência em São Paulo.
Para Alisson, o que o pai transmite é um legado que ultrapassa o futebol:
“Vai passando de geração em geração. Está no nosso sangue, no nosso coração”.
Do campo aos grandes estádios
A terceira história mostra como uma influência familiar pode levar um menino de Campo Grande aos principais estádios do país.
Moisés “Jarrão”, ou Elisés Moreira da Cunha, de 65 anos, foi jogador e passou por diferentes equipes de futebol e futsal da Capital. Desde pequeno, levava o filho Jean, nascido em 1986, aos treinos, jogos e campeonatos.
Antes mesmo de entrar em uma escolinha, Jean já passava horas com a bola dentro de casa, no terreiro e na rua. Aos seis anos, ingressou na Escolinha Pelezinho e depois passou por Dom Bosco e Operário. Em 2002, aos 16 anos, surgiu a oportunidade de fazer um teste no São Paulo. Após seis meses de avaliação, foi aprovado.
Jean chegou ao profissional em 2005 e, em 2008, fez parte do elenco campeão brasileiro pelo São Paulo. Depois, jogou por Fluminense, Palmeiras e Cruzeiro. Pelo Fluminense, conquistou o Brasileiro de 2012. No Palmeiras, foi bicampeão brasileiro, em 2016 e 2018. Também defendeu a Seleção Brasileira, conquistando o Superclássico das Américas, em 2012, e a Copa das Confederações, em 2013. Aos 40 anos, em 2026, continua em atividade pelo Pantanal, no Campeonato Sul-Mato-Grossense.
Para Moisés, formar um jogador nunca foi suficiente. Ele também queria formar um homem. Disciplina, obediência, humildade e respeito estavam entre os principais ensinamentos.
“Se você quer ser um jogador famoso, precisa ter disciplina, obediência e humildade”, ensinava.
A trajetória trouxe momentos de orgulho, como os dois gols marcados por Jean contra o Fluminense, no Maracanã, ainda nas categorias de base, além dos títulos conquistados e da convocação para a Seleção.
Aos 14 anos, Jean deixou Campo Grande para seguir o sonho. A mudança para São Paulo trouxe dificuldades e momentos em que pensou em desistir. Mesmo à distância, o pai continuou sendo uma referência e o incentivou a seguir.
Jean reconhece que o sonho nasceu da convivência com Moisés, mas que, com o tempo, tornou-se também uma escolha própria.
“Chega um momento que parte da gente”, explica Jean.
Os ensinamentos do pai continuaram presentes, especialmente a ideia de “matar um leão por dia”. A frase se tornou uma espécie de lema para enfrentar adversários difíceis, derrotas e períodos de dúvida.
Outro exemplo marcante foi o esforço de Moisés para sustentar a família e acompanhar o filho. Trabalhava de madrugada entregando jornais e, durante o dia, levava Jean aos treinos. Para o jogador, o fato de nunca ter visto o pai reclamar de cansaço tornou-se uma inspiração para enfrentar dificuldades dentro e fora de campo.
A lembrança do esforço paterno acompanhou Jean durante toda a carreira. Diante de obstáculos, ele buscava nas memórias da infância a força para continuar, levando consigo os valores aprendidos muito antes de chegar aos grandes estádios.
Uma herança que continua
As três famílias têm trajetórias diferentes. Eraldo viu o futebol atravessar quatro gerações. Rafael acompanha os filhos enquanto constrói uma nova história no futebol amador. Moisés viu Jean sair de Campo Grande ainda adolescente e chegar aos grandes estádios e à Seleção Brasileira.
Em todas elas, porém, o futebol aparece como muito mais do que competição. É transmitido por meio da convivência, dos treinos, das viagens, das cobranças depois dos jogos e da presença nos momentos difíceis.
Uma lesão pode afastar um jogador, uma carreira pode chegar ao fim e um filho pode precisar partir para outra cidade em busca de oportunidades. Os times mudam, os campeonatos passam e os jogadores envelhecem. Ainda assim, os ensinamentos permanecem.
O futebol ensina a competir, respeitar, superar obstáculos e, principalmente, permanecer junto. Para essas famílias, a maior herança não está em troféus ou títulos, mas nas memórias construídas ao redor de cada partida.
Quando a bola volta a rolar, o passado reaparece. E, de geração em geração, a paixão continua sendo jogada adiante.
Ricardo Prado
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