Doutora Tetê Espíndola: a feiticeira de Mato Grosso do Sul

Evandro Higa - Especial da Casa

Na última quinta-feira, dia 2 de julho, a UFMS concedeu o título de Doutora Honoris Causa a Tetê Espíndola. Foi uma cerimônia acadêmica, cumprindo os ritos e procedimentos próprios da honraria e que terminou em clima de descontração com a platéia sendo premiada com um pequeno recital acompanhado por piano e cantos de pássaros entoados e encantados por Tetê.

Cheguei em casa em uma noite que anunciava uma massa de ar polar invernal e fui vasculhar meus velhos alfarrábios. Encontrei uns programas de shows de Tetê lá do tempo do onça, quando ela ainda não havia se consagrado nacionalmente com o sucesso de “Escrito nas estrelas” de 1985.

O primeiro documento é sonoro: o antológico LP “Tetê e o Lírio Selvagem”, lançado em 1978 pela Philips. Naquele momento, Mato Grosso do Sul já havia sido legalmente desmembrado do antigo Mato Grosso, mas ainda não havia sido implantado oficialmente (o que só aconteceu em 1o. de janeiro de 1979).

Tetê e seus irmãos Geraldo, Celito e Alzira, materializaram no LP a disposição dos agentes culturais em construir cenários identitários para legitimar a novo estado da federação. Recorrendo a imagens bucólicas da exuberante natureza do pantanal, mescladas com os movimentos da contracultura que buscavam romper com o conservadorismo, as belíssimas canções (a maioria de Geraldo Espíndola) receberam tratamento sofisticado e produção caprichada, potencializadas pela voz singular de Tetê.

No ano seguinte, no Teatro Dom Bosco, em Campo Grande, assisti o show “O canto a cores do Mato Grosso”, realizado nos dias 15 e 16 de março. Dividindo o palco com Tetê e o Lírio Selvagem, estava Almir Sater, naquele momento se lançando como cantor, compositor e instrumentista.

Ainda bem que tínhamos um programa impresso com as letras das músicas, depoimentos dos artistas e um belo texto de apresentação da  saudosa professora Maria da Glória Sá Rosa intitulado “Feiticeiros do som e da floresta”. Em uma das páginas do programa, há reproduções de artigos de jornais sobre o LP lançado no ano anterior. Os títulos são curiosos: “Tetê & Lírio Selvagem: o canto da natureza”, “O lirismo selvagem deste grupo: bom para o pulmão”, “Os mato-grossenses estão chegando”, “Tetê e o Lírio Selvagem estréia em São Paulo” e “A onda sonora que vem do mato”.

Em 1981, Tetê lançou seu antológico LP solo “Pássaros na garganta”, e em 11 de julho assistimos a um show de lançamento no Teatro Glauce Rocha. Naquele momento, Tetê já havia alcançado certa projeção nacional ao se integrar ao movimento da vanguarda paulistana e estabelecer parceria com Arrigo Barnabé, que gerou frutos marcantes como o show e álbum “Clara Crocodilo” e a valsa “Londrina”.

No programa impresso do show, o texto poético de Augusto de Campos declara: “Sem perder a substância do campo grande, que traz no sangue, Tetê se abre, cantora do seu tempo, a inauditos espaços sonoros. […] Ela podia ser grega e teria uma lyra, podia ser uma trobairitz (trovadora) medieval e levaria um saltério. Os deuses a quiseram aqui, meio índia meio hippie. Cunhataiporã contemporânea, do fim do século XX, voz e craviola, Tetê colibrisa. O Brasil vai ouvi-la.

Em março de 1983, Tetê apresentou o show “Craviolando”, com participação do Duo Fel. Tive o privilégio de assistir duas vezes no espaço de uma semana: em Campo Grande no ginásio de esportes do Centro Educacional Lúcia Martins Coelho, e na Sala Funarte Sidney Miller no Rio de Janeiro, dentro da Série Independente, promovida por aquele órgão.

Em Campo Grande, me lembro de ter ficado extremamente incomodado com a reação de grande parte da platéia que reagia de forma infantil a cada potente agudo emitido por Tetê, bem como pelos problemas na acústica do local. No Rio de Janeiro, foi diferente. Sala lotada, público atento, respeitoso e impressionado pelo ineditismo da proposta musical. Dos aplausos tímidos no início, ao final do show a reação da platéia foi extremamente calorosa, levando ao bis com a repetição da canção “Longos prazeres de amor”, de Celito Espíndola.

Apesar do êxito, dias depois uma crítica  meio azeda no Jornal do Brasil acusava “falta de regionalismo”, falta de explicações ecológicas sobre Mato Grosso do Sul, criticava o cenário, o excesso de hermetismo das canções e até os figurinos usados por Tetê (!). Porém ao final, a jornalista rendeu-se ao afirmar que “a arte de Tetê é bem mais ampla do que apenas uma manifestação regional”. Sei…

Agora, vendo novamente Tetê no palco do Glauce Rocha, recebendo o título de Doutora Honoris Causa, me emocionei ao relembrar esses fragmentos de lembranças de tempos idos e vindos, que conferem sentido à nossa existência nesse mundo. E concluo essas linhas citando a inesquecível Glorinha Sá Rosa no texto do programa do show de 1979: “Quatro feiticeiros da floresta, Tetê, Geraldo, Celito e Alzirinha fabricam a alquimia do sorriso, a magia da recomposição de esperanças nas claras manhãs do amanhã.” Na palhinha que a doutora Tetê deu após a cerimônia acadêmica, a feiticeira estava inteira no palco,  com sua cabeleira branca e solta, em toda sua glória e majestade.

Impossível não lembrar de Rita Lee, ao afirmar que o maior amigo das feiticeiras é o tempo, pois ao aceitar o passar dos anos, faz do tempo um aliado e aproveita a maturidade com sabedoria.

 

Por Evandro Higa

Quem é Evandro Higa?

Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, pesquisador e músico, Evandro Higa é doutor em Música e um dos principais estudiosos da história musical de Mato Grosso do Sul. Seu trabalho reúne pesquisas sobre memória, patrimônio cultural e a trajetória da música no Estado, contribuindo para a preservação de episódios e personagens que marcaram a formação da identidade sul-mato-grossense.

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