Árbitras de MS relatam desafios e conquistas no futebol

Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
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Profissionais do quadro estadual falam sobre preconceito e destacam crescimento da presença feminina na arbitragem sul-mato-grossense

A ofensa machista contra a árbitra Daiane Muniz, após partida do Campeonato Paulista, reacendeu o debate sobre o espaço das mulheres no futebol. A três-lagoense foi alvo de críticas do zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, que afirmou que “mulher não tem capacidade de apitar um jogo desse tamanho”. O jogador acabou suspenso por 12 partidas pelo Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo.

O episódio ganhou repercussão nacional e voltou a expor um cenário ainda enfrentado por mulheres que atuam na arbitragem. No futebol sul-mato-grossense, árbitras que atuam em diferentes níveis da arbitragem afirmam que situações como essa ainda refletem desafios enfrentados pelas mulheres dentro de campo. Ao mesmo tempo, elas destacam avanços e a ampliação da presença feminina na arbitragem.

Paixão pelo esporte abriu caminho

Natural de Campo Grande, a assistente Ana Paula Barbosa, de 29 anos, cresceu acompanhando futebol, mesmo sem seguir carreira como jogadora. A entrada na arbitragem aconteceu de forma inesperada, quando incentivou uma amiga a fazer o curso e acabou participando também. “Uma coisa é gostar de futebol e assistir ao jogo. Outra é aplicar a regra dentro de campo, com pressão de jogador e de torcida”, afirma.

Entre os momentos mais marcantes da carreira, Ana Paula lembra da aprovação no teste físico da federação, etapa considerada decisiva para quem deseja seguir na arbitragem. Ela também destaca a experiência de integrar um trio de arbitragem totalmente feminino em uma partida da Série B do Campeonato Sul-Mato-Grossense.

Ex-jogadora, Karina Carvalho já atua nacionalmente – Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

A trajetória da árbitra central Karina Carvalho, de 26 anos, começou de outra forma. Natural da Bahia, ela chegou a Mato Grosso do Sul como jogadora de futebol e acabou migrando para a arbitragem após incentivo de uma amiga. Hoje integrante do quadro nacional da CBF, Karina já atuou em competições como o Campeonato Brasileiro Feminino Série A1 e a Copa do Brasil Feminina.

Um dos momentos mais marcantes da carreira foi apitar o confronto entre Internacional e Fluminense pela competição nacional. Para ela, o futebol também proporcionou experiências fora de campo. “Conheço o Brasil através do futebol. Primeiro como jogadora e agora como árbitra”, diz.

A mais jovem é Hellen Rafaela de Souza, de 20 anos. Campo-grandense, começou no esporte ainda na escola, jogando futebol com colegas e participando das atividades esportivas. O interesse pela arbitragem surgiu após conversar com um professor que também atuava no quadro nacional. “Percebi que poderia continuar no futebol de uma forma diferente”, conta. Hoje, atua em competições de base no Estado.

Para as árbitras, o caso envolvendo Daiane Muniz é um exemplo de que atitudes machistas ainda precisam ser enfrentadas no futebol. Elas consideram a punição aplicada ao jogador importante, mas defendem que o combate ao preconceito também passa por mudanças culturais dentro do próprio ambiente esportivo.

Se a paixão pelo esporte foi o ponto de partida, a permanência na arbitragem exige resiliência. As árbitras relatam que o preconceito ainda aparece em campo e nas arquibancadas, muitas vezes por meio de comentários depreciativos ou tentativas de desmerecer o trabalho por elas serem mulheres.

Ana Paula afirma que já ouviu ofensas durante partidas, inclusive vindas da torcida. “Já ouvi de torcedora que meu lugar era lavar louça. São palavras pesadas, e é frustrante ouvir isso de outra mulher”, relata.

Hellen também recorda um episódio no início da carreira, quando apitava um amistoso masculino e acabou cercada por jogadores após uma decisão dentro de campo. “O time inteiro veio reclamar e xingar. Foi um momento difícil, mas serviu de aprendizado”, conta.

Karina afirma que também já enfrentou situações de desrespeito durante jogos. Em um dos episódios, um integrante de comissão técnica tentou desmerecer sua atuação por ela ser mulher. “Se para eles é difícil, para nós é dobrado. A gente não pede nada além de respeito”, resume.

Crescimento é esperança

Apesar dos desafios, a presença feminina na arbitragem sul-mato-grossense tem crescido gradualmente. Atualmente, a Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul (FFMS) conta com cinco mulheres entre os 22 integrantes do quadro especial de arbitragem: Ana Paula, Hellen e Karina, de Campo Grande, além de Elita Maria, de Itaporã, e Fabiana Nunes, de Sidrolândia.

No quadro de aspirantes à CBF, a federação também conta com Rosane Barbosa, de Campo Grande, ao lado de 13 homens. O grupo ainda inclui duas assessoras de campo: Carolina Santos e Rosane Amorim, ambas da Capital.

Para Karina, o aumento da presença feminina representa um avanço importante para o futebol. “Antigamente tínhamos pouquíssimas mulheres. Hoje já vemos mais árbitras chegando e buscando espaço”, afirma.

Mesmo diante das dificuldades, as três árbitras defendem que o futebol também é lugar para mulheres e incentivam meninas que desejam seguir carreira no esporte. Para Hellen, o principal conselho é preparar o psicológico para lidar com as pressões da função. “O esporte é um ambiente muito hostil e exige muito mentalmente”, afirma.

Karina reforça a importância da persistência. “Sempre vai ter alguém dizendo que você não consegue. Não desista”, aconselha. Já Ana Paula resume a mensagem de forma direta: “O lugar da mulher é onde ela quiser”.

Festival de Verão tem homenagem às mulheres

Neste domingo (8), o Parque das Nações Indígenas recebe a 4ª edição do Festival de Verão. O evento acontece das 7h às 11h, com programação gratuita organizada pela Fundesporte.

A abertura será com a 19ª Corrida e Caminhada Feminina, em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, com largada prevista para as 7h e participação de cerca de 900 atletas. Ao longo da manhã, o festival também terá atividades esportivas e recreativas abertas ao público, além de apresentação musical.

Durante a programação, grupos ligados à canoagem também promovem um momento de homenagem com o movimento contra a violência às mulheres. A iniciativa reúne os grupos Amigos da Natureza e Tropa da Grota, além da Federação Estadual e Confederação Brasileira de Canoagem e da Fundesporte.

Por Mellissa Ramos

 

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