Velório de PM vítima de feminicídio traz mais do que comoção: é um alerta

Foto: Roberta Martins
Foto: Roberta Martins

Subtenente foi morta em casa com um tiro no pescoço; suspeito é o companheiro da vítima, que alegou suicídio

O velório de Marlene de Brito Rodrigues, de 59 anos, morta com um tiro no pescoço na última segunda-feira (6), aconteceu um dia depois do crime e reuniu familiares, amigos e companheiros de trabalho da vítima. A mulher é lembrada por muitos presentes como simpática, alegre e apaixonada pelo trabalho. Marlene era subtenente da PM (Polícia Militar) e foi uma das pioneiras da profissão no Mato Grosso do Sul.

Marlene é a nona vítima de feminicídio no Estado e a primeira na Capital. O crime aconteceu na casa da vítima, onde ela morava com o companheiro, no bairro Estrela Dalva. Para a Polícia Civil, o principal suspeito é o próprio parceiro da mulher, que foi visto por um terceiro com uma arma na mão no momento do tiro, quando um vizinho, que também é policial militar, ouviu o disparo e resolveu subir no muro para verificar o ocorrido.

Abrir caminhos
A terça-feira chuvosa marcou um dia de despedida para quem convivia com Marlene. A dor pela perda fez com que a família ficasse mais reservada, mas amigos e colegas de trabalho falaram com a imprensa local. Em meio às lágrimas, eles não poupam elogios à policial e lembram de sua trajetória.

Hoje Rosângela de Oliveira Ramos é aposentada, mas trabalhou por 31 anos como tenente ao lado de Marlene. Amiga de longa data, Rosângela relembra como foi, de certa forma, abrir o caminho para que mais mulheres passassem a integrar a Polícia Militar. “Eu conheci a Marlene em 1988, quando nós fizemos um curso de soldado da PM. Nós somos a terceira turma feminina da PM. Foi um caminho árduo, mas de vitória”. Ela afirma também que, por serem mulheres, já enfrentaram muitos desafios ao longo da carreira.

Rosângela não poupa elogios ao lembrar da amiga e companheira de trabalho. “A Marlene era puro amor, ela era uma pessoa extremamente caridosa e sempre alegre. Quem chegava próximo dela saía feliz e contente”, diz.

A aposentada afirmou à imprensa que não estava vendo Marlene com muita frequência desde que ela iniciou o relacionamento com o suspeito pelo feminicídio, há mais ou menos um ano e meio. “Ela não tinha relatado nada sobre o relacionamento ser abusivo ou não, até porque faziam alguns meses que eu não a via. Quando eu a encontrei pela última vez ela estava iniciando o relacionamento, estava feliz”.

Apesar de entender que a culpa nunca é da vítima, Rosângela alerta as mulheres sobre relações abusivas. “Se cuidar. Ver com quem anda, com quem se relaciona e não deixar o sentimento ser maior do que a realidade”.

Exemplo
Para o coronel da PM Nelson Antônio, o caso de Marlene fica como um exemplo. “É um exemplo de como os homens não devem agir diante de um relacionamento. Eu acho que a gente precisa reaprender a viver com as esposas, filhas, mãe, irmãs e colegas de trabalho, porque a violência não é só contra a companheira, existem vários tipos de violência. A violência contra à mulher está aí, escancarada, todos os dias a gente vem observando isso”.

Mesmo não tendo trabalhado diretamente com Marlene, o coronel a lembra como uma pessoa querida. “Ela foi uma das primeiras policiais militares femininas da instituição. A Marlene sempre foi uma pessoa muito especial, sempre com um sorriso no rosto, sempre alegre, sempre transmitia algo de bom, era uma pessoa que a gente considerava muito, pode ver pela quantidade de pessoas aqui presentes”. Realmente, o entra e sai era intenso.

É nesse momento que Nelson afirma que nem mesmo a farda pôde proteger uma mulher de um feminicida. “Ela era uma pessoa preparada, que passou a vida toda no meio policial, mas às vezes a afetividade e a solidão faça com que as pessoas não enxerguem o mal ao seu lado. A Marlene viveu muitos anos sozinha, criou os filhos sozinha, então eu acredito que ela tinha essa carência de ter alguém ao lado”. Apesar disso, ele explica que a culpa nunca é da vítima.

Pioneira na corporação
Com uma extensa carreira, Marlene construiu uma história de pioneirismo na Polícia Militar de Mato Grosso do Sul. Integrante da 3ª turma feminina do Estado, ela ajudou a abrir espaço para outras mulheres em uma corporação historicamente masculina.

A subtenente ingressou na PM ainda no fim da década de 1980 e acumulou passagens por diferentes setores da instituição. Entre 1998 e 1999, participou do Curso de Sargentos e, posteriormente, atuou por 16 anos no Quartel do Comando-Geral da PM, passando por diferentes áreas.

Em publicação feita nas redes sociais, a própria policial resumiu a trajetória com orgulho e sinceridade ao recordar os desafios enfrentados ao longo da carreira. “Eu cheguei até aqui, e confesso que nunca pensei que chegaria tão longe. Estudei muito e trabalhei bastante. Primeira mulher a fazer parte da Polícia Florestal, onde antes só tinha homens, lá fomos nós, sem saber nada, e aprendemos”, escreveu.

Mudanças na Lei Maria da Penha
Nesta terça-feira, foi publicado no Diário Oficial da União a Lei Nº 15.380, que altera a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340) ao estabelecer que a audiência de retratação nos casos de violência doméstica seja realizada somente mediante manifestação expressa da vítima, apresentada antes do recebimento da denúncia.

A audiência de retratação ocorre quando a vítima de violência doméstica não quer dar continuidade ao processo contra o agressor. Agora, a audiência busca confirmar a retratação da vítima, não a representação, e somente será designada pelo juiz sob manifestação expressa de seu desejo de se retratar, apresentada por escrito ou oralmente antes do recebimento da denúncia, segundo o Art. 16 da Lei Maria da Penha.

Por Maria Gabriela Arcanjo

 

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