Pandemia impulsionou ansiedade em 50% dos trabalhadores de saúde

UPA
Foto: Valentin Manieri

Dados estão em relatório parcial da pesquisa que contou com mais de 500 profissionais da área

Um total de 57,7% de profissionais de saúde que participaram de um estudo ainda em andamento da Fiocruz-MS (Fundação Oswaldo Cruz de Mato Grosso do Sul) relatou sintomas de ansiedade em algum momento durante a pandemia. Os dados parciais ainda apontam que 57,3% dos entrevistados tiveram estresse e 54,4%, depressão.

A pesquisa, que começou em outubro do ano passado e ocorre em Mato Grosso do Sul, em parceria com a Fiocruz Brasília e pesquisadores da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) e ESP (Escola de Saúde Pública), busca avaliar o impacto do transtorno mental no trabalho e nos trabalhadores de saúde na pandemia. Está sendo avaliada a presença de sintomas dos transtornos de depressão, ansiedade e estresse, para, em seguida, serem identificadas as estratégias utilizadas para o enfrentamento do sofrimento mental durante este período.

Participou do estudo um total de 518 profissionais de saúde das áreas de enfermagem, odontologia, medicina, farmácia e fisioterapia. Segundo a pesquisadora da Fiocruz-MS Sílvia Helena Mendonça de Moraes, a primeira etapa da pesquisa está praticamente concluída. “A partir dos resultados parciais dessa primeira etapa, conseguimos perceber que grande parte dos profissionais que relataram um desses sintomas ou os três [ansiedade, estresse e depressão], é do sexo feminino, com idades entre 30 e 39 anos. Além disso, não são só profissionais dos hospitais, mas os profissionais que também atendem na Atenção Primária à Saúde”, enfatizou.

De acordo com o estudo, 45,9% dos que relataram ter tido transtornos mentais atuam na APS (Atenção Primária à Saúde), ou seja, que é a porta de entrada para o SUS (Sistema Único de Saúde) e leva os serviços para as comunidades, como as USFs (Unidades de Saúde da Família). Profissionais que atuam em hospitais e pronto atendimento representam 26,1% dos que apresentaram alguns dos sintomas e 28% atuam em outros locais.

“O que nos surpreendeu nessa pesquisa, mas confirmou o que tínhamos como hipótese, é que não são só profissionais dos hospitais, porque a gente pensa que os profissionais que estão na linha frente dos hospitais que mais sofrem com a pandemia, mas os profissionais que também estão em outros pontos da rede, principalmente na Atenção Primária à Saúde, também têm sofrido com essa pandemia, que tem causado impactos”, explicou

A pesquisa mostrou ainda que a maioria dos profissionais (61,1%) que participaram do estudo não se sentia segura com as ações de enfrentamento direcionadas para o controle, a prevenção e a assistência a COVID-19. Seguido por aqueles que afirmaram que se sentiam seguros (27,5%) e os que não sabiam responder (11,5%).

A angústia do diagnóstico positivo para a COVID-19 está presente todos os dias na vida desses profissionais. Nos dados, 71,2% dos participantes não tinham se contaminado com o novo coronavírus, 28,8% contraíram e, desses que foram infectados, 91% estavam recuperados.

Cartilha

Como uma das metas da pesquisa, foi elaborado um catálogo onde estão mapeados os projetos e serviços psicológicos públicos e privados em Mato Grosso do Sul.

A cartilha foi desenvolvida para fornecer informações aos trabalhadores de saúde que necessitam encontrar atendimento e apoio para o cuidado mental durante a pandemia. O material será lançado nesse dia 17 de setembro.

Importância do cuidado com sofrimento mental

A coordenadora da área de Educação da Fiocruz de Mato Grosso do Sul, Debora Dupas, afirma que a pesquisa vem trazendo resultados significativos para os trabalhadores de saúde. “A pesquisa tem por objetivo reconhecer a influência da pandemia na saúde mental desses profissionais, assim é possível identificar e monitorar os grupos com maior probabilidade de desenvolver sofrimento mental, para que intervenções psicossociais sejam possibilitadas em tempo hábil”, disse.

“A questão do sofrimento mental para esses profissionais da saúde não é novidade, com a pandemia isso ficou mais acentuado. Tudo o que eles vivenciavam antes de jornada de trabalho extenuante, de falta de pessoal, precárias condições de trabalho, falta de EPIs [equipamentos de proteção individual] e insumos só foi acentuado com a pandemia. Se esses profissionais não tiverem um tratamento adequado, um apoio oportuno para esse sofrimento mental, isso pode se intensificar e trazer incapacidades social e profissional, é preciso ter esse cuidado”, ressaltou a pesquisadora da Fiocruz-MS Sílvia Helena Mendonça de Moraes.

Para o presidente do Conselho Regional de Enfermagem, Sebastião Junior Henrique Duarte, essa pesquisa é de suma importância já que os resultados podem subsidiar políticas que possam atender esse segmento.

“O atendimento do profissional de enfermagem é na linha de frente e é um dos maiores contingentes em atividade na pandemia, a melhora das condições de trabalho bem como a segurança desse trabalhador reflete diretamente no atendimento à comunidade”, acrescentou.

Após finalizada a primeira etapa, os pesquisadores darão início à segunda parte do estudo, que visa entender a estratégia que os profissionais de saúde utilizam para enfrentar esse sofrimento mental.

 

(Texto de Mariana Ostemberg)

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