De missionários a pais de três: casal transforma chamado de Deus em história de adoção e esperança

"Adoção não é uma obra social. Adoção é para formar uma família", diz casal de pastores que adotou três irmãos- Foto: Cayo Cruz
"Adoção não é uma obra social. Adoção é para formar uma família", diz casal de pastores que adotou três irmãos- Foto: Cayo Cruz

Depois de 33 anos dedicados à missão cristã, Claudinei e Elaine deixaram uma vida de viagens missionárias para formar uma família. Hoje, eles compartilham a experiência para incentivar outras pessoas a enxergarem a adoção como um vínculo para toda a vida

 

Por mais de três décadas, a rotina dos pastores Claudinei e Elaine Scheffer foi marcada por aeroportos, mudanças de país e o compromisso de servir à igreja em diferentes partes do mundo. Foram 33 anos de trabalho missionário, levando a mensagem cristã a nações como Bolívia, Chile e Estados Unidos, além de uma passagem de seis meses por Campo Grande, em 2023.

O casal, natural de Curitiba (PR), adiou o sonho de ter filhos. Não por dificuldades para engravidar, mas porque entendia que aquele era o tempo de cumprir outro propósito. A maternidade e a paternidade ficaram em segundo plano até que, em 2022, os dois afirmam ter recebido aquilo que descrevem como um novo chamado de Deus: era hora de construir uma família.

Elaine e Claudinei Scheffer – Foto: arquivo pesoal

A decisão mudaria completamente a vida dos dois. Em vez de um bebê, como pretendiam inicialmente, vieram três irmãos biológicos. Hoje, Ana Carolina, Davi e Samuel são o centro da rotina do casal, que agora dedica parte do tempo a incentivar outras famílias a seguirem o caminho da adoção. O que imaginavam ser a chegada de um bebê se transformou na formação de uma família com três irmãos biológicos, que hoje chamam de filhos.

Um sonho que esperou mais de 30 anos

Embora a adoção tenha acontecido recentemente, Elaine conta que esse desejo nasceu praticamente junto com o casamento, quando tinham por volta de 19 anos e já sabiam que iriam optar pela adoção em algum momento da vida.

O plano, porém, precisou esperar. Elaine explica que, durante décadas, a prioridade era o ministério. Como missionários, viviam em constantes mudanças de cidade e de país, o que tornava inviável criar filhos, e faz questão de esclarecer que a adoção nunca foi consequência de infertilidade.

“Essa espera foi longa porque a gente sempre teve o ministério. Nós viajávamos muito, morávamos na Bolívia, no Chile, nos Estados Unidos. Em meio a toda aquela loucura ministerial, esse sonho da maternidade ficou de um lado. Nós não colocaríamos filhos nossos no mundo. Isso foi um desejo nosso. Eu não tenho problemas biológicos, nem ele.”

Segundo Elaine, a decisão sempre esteve ligada à fé cristã.

“Ao olhar para Deus Pai. Porque nós somos adotados por Ele. Se não fosse a adoção de Deus por nós, nós não estaríamos aqui com direito à salvação.”

O chamado para deixar o ministério

Em 2022, vivendo nos Estados Unidos, o casal afirma ter entendido que Deus os direcionava para uma nova fase. Eles retornaram ao Brasil e decidiram encerrar o ciclo de 33 anos de viagens missionárias. Claudinei explica que a mudança não foi simples.

“Para a gente fazer a adoção, precisamos nos desligar do ministério, na função em que estivemos por 33 anos. E quando Deus falou que era momento de formar a família, a gente se desligou. A partir dali, toda a atenção passou a ser direcionada ao processo de adoção”, relembra.

Em nove meses, pais de três

Em agosto de 2023, o casal reuniu a documentação necessária e iniciou oficialmente o processo de habilitação para a adoção. Das coincidências da vida, todo o procedimento durou exatamente nove meses, o mesmo período de uma gestação biológica.

“Todo o nosso processo de adoção durou nove meses, o tempo de uma gestação, desde o primeiro papel até o dia em que eles chegaram à nossa casa. E, depois da habilitação, veio outra surpresa, pois permanecemos apenas 15 dias na fila nacional de adoção. Quando entramos na fila de adoção e vimos que estávamos próximos da posição nº 200, pensamos que iria demorar muito. Felizmente, os planos de Deus eram outros”, comenta Elaine, emocionada.

Família Scheffer – Foto: arquivo pessoal

“Seus filhos estão aqui!”

Claudinei e Elaine relembram que, inicialmente, o perfil escolhido para adotar era bastante comum entre os pretendentes. Claudinei conta que imaginava ser pai de apenas uma menina pequena.

“Pensávamos em uma menina, bebê, porque, na nossa concepção, menina era mais carinhosa. Achávamos que seria uma experiência talvez mais fácil, no sentido de darmos carinho, porque a visão que muitas pessoas têm é de que, a partir de certa idade, meninos são mais resistentes a aceitar um beijo, um abraço, essas coisas.”

Depois das entrevistas com psicólogos e assistentes sociais, o casal ampliou o perfil para duas crianças. Uma ligação da assistente social informando que havia três crianças esperando para serem adotadas em Paranavaí (PR) trouxe outra realidade.

Elaine relembra que nunca esqueceu as palavras da assistente social. Os irmãos biológicos estavam havia cerca de dois anos aguardando uma família. O mais novo, Samuel, havia entrado bebê no acolhimento e poderia ter sido adotado sozinho, mas a Justiça decidiu preservar o vínculo entre os três irmãos.

“Ela me ligou e falou: ‘Seus filhos estão aqui. O juiz falou que não dava para separar porque existia um vínculo muito profundo entre eles’. Então, fomos buscá-los no dia 12 de abril de 2024, um dia antes do aniversário do meu esposo. Foi um presentão.”

O sonho que antecedeu a ligação

Pouco antes de receber o telefonema, Elaine afirma ter vivido uma experiência que considera uma confirmação divina. Ela conta que sonhou com três crianças um mês antes de o telefone tocar. No sonho, segundo ela, os filhos tinham exatamente as mesmas idades e características das crianças que seriam apresentadas posteriormente.

“Quando ela falou que eram três, eu falei: ‘São eles’.”

Para o casal, isso reforçou a convicção de que aquela era a família preparada por Deus.

Do silêncio à família: casal transforma experiência da adoção em livro para incentivar novos pais

Depois de 31 anos vivendo apenas os dois, a rotina dos pastores Claudinei e Elaine Scheffer mudou completamente. A casa que antes era silenciosa deu lugar ao barulho das brincadeiras, das mamadeiras, das fraldas e dos desafios de criar três crianças ao mesmo tempo. A experiência, marcada por aprendizados, inseguranças e transformações, inspirou o casal a escrever o livro *O Milagre da Adoção*, que será lançado em agosto e busca incentivar outras famílias a enxergarem a adoção como um compromisso para toda a vida.

Foto: divulgação

A chegada dos irmãos Ana Carolina, Davi e Samuel mudou completamente a rotina do casal. Acostumados a viver apenas os dois durante mais de três décadas de casamento, eles precisaram aprender, de uma só vez, a ser pais de três crianças pequenas.

“A casa que era silêncio e, de repente, viramos pais de três, de uma vez [risos]. Três crianças que ainda usavam fraldas, mamadeiras, dependiam bastante de nós.”

Apesar da felicidade, Elaine faz questão de não idealizar o processo de adaptação. Segundo ela, a adoção exige preparo emocional e disposição para enfrentar mudanças profundas.

“Foi um caos exaustivo, a gente não romantiza. E acredito que, de certa forma, já vínhamos nos preparando para esse momento, porque, a partir do momento em que entramos com o processo, começamos a gestar nossos filhos.”

Foi justamente durante esse período de adaptação que surgiu a ideia de transformar a experiência em um livro.

“Neste momento, senti em meu coração a necessidade de compartilhar essas experiências em forma de livro.”

O Milagre da Adoção começou a ser escrito em um dos momentos mais desafiadores da nova vida da família. Já convivendo com os três filhos, Elaine conta que ela e o marido buscavam compreender como seria essa nova etapa.

Segundo a pastora, a obra mostra que a adoção transforma não apenas a vida das crianças, mas também a dos pais.

“O livro ‘O Milagre da Adoção’ fala sobre como toda adoção é um milagre, e todo milagre transforma de todas as formas. A gente precisa estar preparado para tantas mudanças.”

Ela explica que o conteúdo vai muito além do relato pessoal e procura acolher diferentes públicos.

“O livro conta a história, antes de todo mundo junto, a renúncia de não gerar o biológico. Então a gente fala de perdas. O livro é tanto para quem deseja adotar — tem todo o passo a passo no final, sendo também um guia da adoção — como para aquela pessoa que adotou e está passando por um momento de adaptação, e até para aquela pessoa que não tem desejo de adotar, mas está precisando entender os milagres da vida, como Deus conduz a vida da gente.”

Ao longo das páginas, Elaine também aborda o propósito que acredita existir por trás das mudanças inesperadas da vida. Ela resume a essência da obra afirmando que o verdadeiro milagre da adoção acontece na transformação de todos os envolvidos.

“Toda a nossa vida tem um propósito. Na caminhada até chegar a esse propósito, às vezes a gente vai deixando coisas para trás que tinha certeza de que iam acontecer, mas não era daquela forma. Esse livro nasce nesse momento, chama ‘O Milagre da Adoção’, porque toda adoção é um milagre. Um milagre que Deus fez, o milagre que nós fazemos na mudança, transformando três gerações. O milagre que acontece é transformar nossa própria vida.”

O lançamento está previsto para agosto. Para viabilizar a publicação, o casal busca patrocinadores. Além do livro, Claudinei e Elaine criaram, em Curitiba, o ministério Adoção Plena, voltado para orientar pessoas interessadas em iniciar o processo de adoção.

Segundo Elaine, a resposta foi imediata.

“Nós começamos o ministério chamado Adoção Plena em Curitiba. Na igreja em que estamos, na primeira reunião de adoção que fizemos, três casais se levantaram e já entraram no processo de adoção.”

O casal também oferece orientações pelas redes sociais e atendimento para quem deseja tirar dúvidas sobre o processo.

Para Claudinei, um dos aspectos mais importantes da adoção é permitir que as crianças conheçam a própria história sem esconder o passado. Segundo ele, falar sobre essa trajetória de maneira acolhedora ajuda na construção da identidade e fortalece os vínculos familiares.

“Eles sabem de toda a história de vida deles. Eles chegaram já bem conscientes do que passaram. Quando as crianças vão para um novo lar, encontrar a família que desejam, isso não vai ser um trauma para elas. Elas vão contar, vão ressignificar.”

O pastor afirma que o casal permanece à disposição para orientar outras famílias.

“Qualquer dúvida que as pessoas tenham, podem se comunicar com a gente para um conselho. Tem o Instagram @omilagredaadocao. A gente pode orientar e conversar. Algumas pessoas têm preconceito, outras têm medo.”

“Adoção não é obra de caridade”

Ao falar sobre o tema, Elaine faz um alerta para quem decide adotar motivado apenas pelo desejo de ajudar uma criança. Ela acredita que essa é uma das maiores causas de frustrações e até de devoluções de crianças adotadas. Na visão da pastora, a lógica deve ser a mesma da maternidade e da paternidade biológica: amar os filhos independentemente das dificuldades. Elaine destaca que os desafios existem em qualquer família.

“Adoção não é uma obra social. Adoção é para formar uma família. Porque a pessoa pensa que vai ao abrigo fazer uma obra de caridade e que aquela criança vai ser grata para ela a vida inteira. Quando você tem um filho biológico, você não pensa que ele vai ser grato para você a vida inteira. Você ama apesar de tudo. Vai entrar na adolescência, vai vir a rebeldia, vai casar, vai escolher outro caminho, e o amor continua. O filho biológico também dá trabalho. Também pode ir para as drogas, cometer erros. O problema é o preconceito. Se eu tivesse que deixar uma frase para as pessoas, seria essa: adoção não é obra de caridade. Adoção é uma forma de formar família para a vida inteira. Família com laços eternos, raízes eternas. Quem entra nesse processo precisa entender que está formando uma família que vai caminhar junto por toda a vida.”

Adoção no Brasil: milhares de crianças ainda aguardam uma família

De acordo com os dados mais recentes do SNA (Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento), do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), o Brasil possui cerca de 34 mil crianças e adolescentes vivendo em serviços de acolhimento. Desses, aproximadamente 5 mil estão aptos à adoção, enquanto mais de 35 mil pessoas ou casais estão habilitados para adotar.

Em Mato Grosso do Sul, o cenário acompanha a realidade nacional. A maior parte das crianças disponíveis para adoção é formada por grupos de irmãos, crianças maiores de seis anos e adolescentes. No entanto, a maioria dos pretendentes ainda busca bebês, sem irmãos e com perfis bastante específicos, o que faz com que muitas crianças permaneçam anos aguardando uma família.

A história de Claudinei e Elaine vai justamente na direção oposta dessa estatística. Eles ampliaram o perfil inicialmente desejado, acolheram três irmãos biológicos e hoje utilizam a própria experiência para mostrar que a adoção começa muito antes da chegada dos filhos e continua sendo construída todos os dias, por meio do vínculo, da convivência e do compromisso de formar uma família para toda a vida.

Confira a entrevista concedida pelo casal à comunicadora Marinalva Pereira.

 

Acesse as redes sociais do Estado Online no Facebook Instagram

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *