Passagem de seis frentes frias, áreas de baixa pressão e a atuação da Oscilação Antártica ajudaram a provocar chuva acima do normal e temperaturas baixas no Estado
Mato Grosso do Sul teve uma primeira quinzena de setembro de 2026 marcada por chuva acima do normal e temperaturas mais baixas do que o habitual. Em apenas 15 dias, seis frentes frias influenciaram o centro-sul do Brasil, contribuindo para a sequência de períodos chuvosos e de entrada de ar frio.
Na região de Campo Grande, o acumulado de chuva chegou a cerca de 170 milímetros na primeira metade do mês. No centro-sul de Mato Grosso do Sul, os volumes ficaram entre 70 e pouco mais de 120 milímetros em várias áreas.
O cenário chama atenção porque setembro ainda é um período de pouca chuva em grande parte do Centro-Oeste. Dados históricos do Instituto Nacional de Meteorologia mostram que as médias de precipitação do mês ficam abaixo de 100 milímetros em boa parte do Centro-Oeste e do Sudeste.
A sequência de chuva e frio foi resultado de uma combinação de fatores atmosféricos. Entre eles estão a passagem frequente de frentes frias, áreas extensas de baixa pressão entre o Sul do Brasil, Paraguai, Mato Grosso do Sul e São Paulo, além do transporte de umidade e calor da Amazônia para o centro-sul do país.
Outro fator importante foi a atuação do jato de baixos níveis, uma corrente de ar quente e úmido que transportou umidade em direção a Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo. A passagem de cavados atmosféricos, que são ondulações no fluxo de ventos, também contribuiu para a formação e manutenção das áreas de chuva.
Com muita nebulosidade, pouca incidência de sol e a entrada de massas de ar polar, as temperaturas permaneceram mais baixas no centro-sul do Brasil.
Por que tantas frentes frias?
A passagem de frentes frias pelo centro-sul do Brasil em setembro não é incomum. O que chamou atenção na primeira quinzena de 2026 foi a frequência desses sistemas.
A principal explicação apontada para o excesso de frentes frias é a fase negativa da Oscilação Antártica, conhecida pela sigla AAO. Esse padrão favorece o deslocamento de massas de ar frio e de frentes frias da região da Antártida em direção à América do Sul.
A AAO representa uma relação entre o comportamento dos ventos e da pressão atmosférica entre a Antártida e as latitudes mais ao sul da América do Sul. O fenômeno pode permanecer em uma mesma fase por semanas ou meses e influencia a trajetória e a frequência das frentes frias.
Na fase negativa, os ventos de oeste ficam mais fracos ou deslocados para norte, o que facilita o avanço de massas de ar polar em direção à América do Sul.
Já na fase positiva, os ventos de oeste ficam mais fortes e tendem a manter frentes frias e ciclones extratropicais mais ao sul, dificultando o avanço desses sistemas para o Brasil.
Qual é a relação com o El Niño?
A atuação da AAO também ajuda a explicar a relação entre o episódio de chuva e o El Niño. Estudos científicos apontam que a fase negativa da Oscilação Antártica tende a ocorrer com maior frequência durante anos de El Niño.
Em agosto de 2026, o El Niño já era considerado forte, com previsão de intensificação no início da primavera. O fenômeno está associado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial e pode alterar os padrões de circulação atmosférica em diferentes regiões do planeta.
Isso não significa, porém, que o El Niño sozinho tenha provocado a chuva e o frio observados em Mato Grosso do Sul. O episódio foi resultado da combinação entre diferentes padrões atmosféricos, incluindo a AAO, as frentes frias, áreas de baixa pressão, o transporte de umidade e os cavados.
O que esperar para a segunda quinzena?
A tendência é de mudança gradual da Oscilação Antártica para a fase positiva durante a segunda quinzena de setembro. Com isso, a frequência das frentes frias que avançam pelo Brasil pode diminuir.
Mesmo assim, a previsão indica que episódios de chuva devem continuar no centro-sul do país. No Centro-Oeste, pancadas de chuva podem voltar a ocorrer em diferentes áreas, enquanto Paraná e Santa Catarina permanecem sujeitos a períodos de chuva frequente e volumosa.
Em Mato Grosso do Sul, portanto, a primeira quinzena de setembro foi marcada por uma combinação pouco comum para a época: sequência de frentes frias, grande disponibilidade de umidade, áreas de baixa pressão e temperaturas mais baixas.
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