Substâncias podem provocar alterações no coração, pressão arterial, fígado e coagulação; informar o anestesiologista sobre o uso é fundamental para reduzir riscos durante o procedimento
Quem faz uso de anabolizantes e tem uma cirurgia marcada precisa informar a equipe médica antes do procedimento. Mesmo quando os exames pré-operatórios parecem normais, o consumo dessas substâncias pode provocar alterações no organismo capazes de interferir na anestesia e aumentar o risco de complicações.
Segundo o médico anestesiologista Alexandre Xavier, do Servan Anestesiologia, os principais cuidados estão relacionados aos efeitos dos anabolizantes sobre o sistema cardiovascular. O uso, especialmente em doses elevadas e por períodos prolongados, pode estar associado a pressão alta, alterações do colesterol, arritmias e mudanças na estrutura e no funcionamento do coração.
As substâncias também podem provocar alterações no fígado e aumentar a quantidade de glóbulos vermelhos, deixando o sangue mais viscoso e favorecendo a formação de coágulos.
“Esse risco pode ser ainda maior quando o paciente apresenta comorbidades, como pressão alta, diabetes, doença renal ou alterações importantes do colesterol. Além disso, cirurgias de maior duração, com imobilização prolongada podem acrescentar risco para formação de coágulos. Por isso, avaliamos o conjunto: fatores de risco do paciente e o tipo de cirurgia que será realizada”, explica Xavier.
Uso de anabolizantes pode interferir na anestesia
O risco não está necessariamente em uma interação direta entre o anabolizante e os medicamentos utilizados durante a anestesia. A preocupação envolve principalmente as alterações que essas substâncias podem causar no organismo e que podem modificar a resposta do paciente durante a cirurgia.
“Alterações cardiovasculares, hepáticas e até psicológicas podem influenciar a maneira como planejamos e conduzimos a anestesia. Alguns pacientes também podem apresentar ansiedade ou alterações de humor, principalmente quando interrompem o uso abruptamente”, afirma o especialista.
De acordo com Xavier, saber quais substâncias o paciente utiliza permite que o anestesiologista defina os medicamentos, o nível de monitorização e os cuidados mais adequados para cada situação.
O que o paciente deve informar ao anestesiologista?
Durante a consulta pré-anestésica, não basta dizer apenas que faz uso de anabolizantes. É importante informar qual substância é utilizada, a dose, a frequência, há quanto tempo ocorre o uso e quando foi feita a última aplicação.
Também é recomendável informar todos os medicamentos, suplementos e fitoterápicos utilizados regularmente. Essas informações ajudam o médico a avaliar possíveis fatores de risco e definir a estratégia mais segura para o procedimento.
A consulta pré-anestésica é justamente o momento de identificar condições que possam aumentar as chances de complicações durante ou depois da cirurgia.
“A consulta pré-anestésica é justamente o momento de identificar condições que possam aumentar o risco de complicações durante e após uma cirurgia. Quando uma informação importante é omitida, essa avaliação pode ficar incompleta e o risco real do paciente pode ser subestimado. O objetivo não é julgar o paciente, mas tornar a anestesia e a cirurgia mais seguras”, destaca Xavier.
Cirurgia pode ser adiada por causa do uso de anabolizantes?
Em alguns casos, sim. Se a avaliação médica identificar alterações que possam comprometer a segurança do paciente, podem ser solicitados exames adicionais, avaliações com outros especialistas ou mudanças na técnica e na monitorização anestésica.
Em uma cirurgia eletiva, o procedimento pode ser adiado até que eventuais alterações sejam investigadas e tratadas. A decisão depende da avaliação individual e do tipo de cirurgia que será realizada.
“Esse é justamente um dos objetivos da avaliação pré-anestésica: identificar o risco antes que o problema aconteça”, reforça o médico.
Não interrompa o uso por conta própria
Diante de uma cirurgia marcada, interromper o uso de anabolizantes por conta própria também não é recomendado. A suspensão abrupta pode trazer outros problemas e deve ser avaliada individualmente pela equipe responsável pelo acompanhamento do paciente.
“A principal orientação é simples: informe o anestesiologista e o cirurgião. Diga exatamente o que utiliza, em qual dose, com que frequência e quando foi a última utilização. Não suspenda ou modifique o uso por conta própria apenas porque fará uma cirurgia. A necessidade de interrupção ou de alguma outra medida deve ser avaliada individualmente pela equipe médica”, orienta Xavier.
Crescimento no consumo de anabolizantes
O alerta ocorre em um cenário de aumento do consumo dessas substâncias no país. Levantamento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), divulgado em 2025, apontou crescimento de 670% nas vendas de esteroides anabolizantes entre 2018 e 2023.
Embora tenham indicações médicas específicas, os anabolizantes não devem ser utilizados indiscriminadamente. Desde 2023, o Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe a prescrição de esteroides androgênicos e anabolizantes para fins estéticos, ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo.
Para quem vai passar por uma cirurgia, independentemente do motivo pelo qual utiliza essas substâncias, a recomendação é informar a equipe médica. A transparência durante a consulta pré-anestésica permite uma avaliação mais completa e contribui para que o procedimento seja planejado de acordo com as condições de cada paciente.
Confira as redes sociais do Estado Online no Facebook e Instagram