De moletom, tênis e mochila nas costas, Carlo Acutis se parece pouco à imagem tradicional de um santo católico. Morto em 2006, aos 15 anos, tornou-se, duas décadas depois, personagem de memes, figurinhas de WhatsApp e vídeos nas redes sociais.
Se nos anos 1990 o papa era pop, como dizia a canção da banda Engenheiros do Hawaii, nos anos 2020, pop mesmo é o santo millennial. Gamer e fã de franquias de jogos como Mario Bros. e Pokémon, ele passou a ser candidato a patrono da internet, condição que gerou memes e comentários bem-humorados nas redes.
Canonizado pela Igreja Católica em 7 de setembro de 2025, Acutis se tornou o primeiro santo de sua geração e ganhou uma popularidade que ultrapassou o ambiente religioso. Nas redes, há quem peça sua intercessão para salvar um notebook da assistência técnica ou invoque seu nome para brincar com os excessos da vida online.
A irreverência em torno de sua imagem convive com uma devoção crescente entre jovens católicos, que enxergam justamente na vida cotidiana de Acutis uma identificação difícil de encontrar em santos de outros períodos. A história de Acutis passou a influenciar escolhas pessoais, a forma de viver a fé e até decisões profissionais.
Marcus Santos, 22, levou essa aproximação para o trabalho. Mineiro, ele se mudou para Campo Grande (MS) para atuar no apostolado Devotos de Carlo Acutis Brasil, onde hoje cuida das redes sociais do grupo.
O jovem ouviu falar de Acutis pela primeira vez em 2020, quando o italiano foi beatificado. Anos depois, durante um encontro de jovens católicos, passou a conhecer melhor sua história. Com amigos, criou um grupo de oração na internet e começou a usar as redes sociais para evangelizar.
“A gente começou a evangelizar no Instagram, como o Carlo fazia. Eu criei o Instagram Jovem Cristo e coloquei o Carlo como patrono”, conta. “Eu me identifiquei muito com ele por ele ser um santo jovem. Existem outros, mas da nossa geração foi o primeiro.”
Em seu WhatsApp, Marcus tem algumas figurinhas de Carlo. “O que eu mais gosto é uma que ele faz uma careta e coloca a língua para fora, é o mais engraçado”, ri. Para ele, os memes, desde que sejam positivos e respeitosos, são uma boa forma de chamar a atenção das pessoas e convidá-las a conhecer o santo millennial.
Para Daniel da Silva, 22, a influência foi além das redes sociais. Seminarista, ele atribui a Acutis a decisão de retomar um projeto que havia abandonado: tornar-se padre. Em 2020, encontrou no Instagram um perfil dedicado a Acutis, então venerável, e começou a acompanhar as publicações e a pesquisar sua trajetória.
“O Carlo foi um divisor de águas na minha vida. Ele foi o responsável por me tirar de casa e me botar no seminário. Ele mudou totalmente minha vida”, afirma.
Com perfis apenas no WhatsApp e no Instagram, Daniel disse que acompanha pouco a cultura dos memes, mas que, se feitos de forma respeitosa, podem ser positivos para divulgar ainda mais a imagem de Carlo.
“Eu particularmente não tenho problema com isso. Vejo inclusive como uma forma positiva. Se o Carlo estivesse vivo, ele estaria com 30 e poucos anos. Ele iria brincar com isso aí também. Não tem problema não”, comenta.
Daniel diz ter achado graça, por exemplo, de vídeos feitos com inteligência artificial que simulam Acutis falando. Para ele, esse tipo de conteúdo não é necessariamente desrespeitoso.
“Eu vi alguns vídeos assim, como se fosse o Carlos falando. Era uma coisa séria, não era meme nem nada, só que eu achei engraçado, fiquei pensando como ele acharia se ele visse aquilo ali”, diz.
Por ISABELA FAGGIANI / FolhaPress
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