Rua 7 de Setembro: memória e transformação no coração de Campo Grande

Crédito: Nilson Figueiredo
Crédito: Nilson Figueiredo

Em Campo Grande, algumas ruas são mais do que caminhos que ligam um ponto a outro. São registros a céu aberto da história da cidade. É o caso da Rua 7 de Setembro, no centro da Capital, que carrega no próprio nome uma das datas mais importantes da história brasileira.

A denominação faz referência ao 7 de setembro de 1822, quando Dom Pedro proclamou a Independência do Brasil às margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo. Em Campo Grande, o nome passou a fazer parte do traçado urbano no início do século XX, quando a então vila começava a se organizar e ganhar novas ruas.

Registros históricos apontam que o alinhamento das ruas da cidade foi aprovado em 18 de junho de 1909, a partir de uma planta elaborada pelo engenheiro municipal Nilo Javari Barem. Entre os novos logradouros estavam as ruas 7 de Setembro e 15 de Novembro, nomes que remetiam a acontecimentos marcantes da história nacional.

A antiga “Rua Alegre”

Mas a história da 7 de Setembro vai além do significado cívico. Nas primeiras décadas de Campo Grande, a via ficou conhecida popularmente como “Rua Alegre” ou “Rua das Alegrias”, devido à intensa movimentação noturna. Bares, festas, cabarés e outros estabelecimentos faziam parte da paisagem da região.

Eulália Amaral, de 76 anos, mora na região há mais de 40 anos e guarda lembranças dessa época. “Aqui na esquina tinha um bar que vivia lotado, era música ao vivo, muita gente, mas uma época boa”, recorda.

Ela chegou ao local depois de se casar e, desde então, permaneceu na região. “Quando casei, vim pra cá. Desde então não saí mais. Criei meus filhos tudo por aqui.”

A antiga Campo Grande ainda tinha características de uma pequena cidade, com poucas construções e população em crescimento. A chegada da ferrovia e o fortalecimento das atividades comerciais contribuíram para transformar o cenário e impulsionar o desenvolvimento da região central.

Uma das empresas que acompanhou essa transformação desde o início é a Dunil. A loja abriu as portas na Rua 7 de Setembro em 1973, antes da divisão de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e nunca deixou o endereço. Para Jailson Netto, sócio-proprietário da empresa, o ponto onde a história começou mantém um significado especial.

“A Dunil da Sete está aqui, começou aqui, expandiu para todos os lugares, mas a semente começou aqui, está aqui até hoje. Desde então, a loja nunca saiu daqui. Abriu filiais, mas a matriz nunca saiu daqui.”

Do passado boêmio ao comércio

Com o crescimento de Campo Grande, a Rua 7 de Setembro também mudou. Antigos estabelecimentos deram lugar a lojas, empresas, restaurantes e serviços, consolidando a região como um dos principais pontos comerciais da Capital.

A chegada de novos centros comerciais também transformou os hábitos de consumo. O Shopping Campo Grande, inaugurado em 1989, trouxe uma nova alternativa para os consumidores, mas, para Jailson, o comércio de rua continua tendo seu espaço. “Eu acho que o comércio de centro tem o seu grande valor por você dar essa alternativa para o cliente, comércio de rua, de centro.”

Mais de cinco décadas depois, a Dunil também se tornou parte da memória de diferentes gerações. Segundo Jailson, clientes que frequentavam a loja nas décadas de 1970 e 1980 continuam comprando no local e levaram os filhos para conhecer o estabelecimento. “O pai vinha solteiro com a namorada, casaram, tiveram os filhos, os filhos continuaram comprando. \[…\] Compraram roupa do casamento, casaram e estão comprando até hoje.”

Para Alfredo Franscisco, de 23 anos, que mora na região, a relação com a rua hoje é diferente. Ele afirma que gostaria de ter vivido o período de maior movimentação da via, mas considera a região perigosa atualmente. “Preferia ter morado aqui nessa época. Hoje em dia é mais perigoso, não podemos ficar até tarde na rua.”

Mesmo com os perigos, Alfredo afirma que gosta da regiã. “Hoje tem dia tem seus contras, mas aqui é uma região muito boa, perto do centro, com edificios históricos para a história de Campo Grande.” relata o estudante.

O significado do 7 de Setembro

Mais de um século depois de receber seu nome, a Rua 7 de Setembro continua fazendo parte do cotidiano de Campo Grande. Nesta época do ano, porém, a denominação ganha ainda mais significado.

Todos os anos, em 7 de setembro, o Brasil celebra sua Independência, com desfiles e cerimônias que lembram o processo iniciado em 1822. Em Campo Grande, a data também integra o calendário cívico e costuma movimentar a região central.

Ao caminhar atualmente pela Rua 7 de Setembro, pode ser difícil imaginar as diferentes fases que aquele mesmo espaço já viveu. A via marcada pela boemia nas primeiras décadas do século XX deu lugar a um corredor comercial integrado à dinâmica de uma das principais cidades do Centro-Oeste.

A história da rua também mostra como a memória de Campo Grande permanece presente nos próprios logradouros. Cada nome carrega uma referência, uma homenagem ou um acontecimento. No caso da 7 de Setembro, a lembrança ultrapassa os limites da cidade e remete à Independência do Brasil.

Embora exista confusão entre as duas datas, 7 de setembro marca a Independência do Brasil, em 1822. Já a Proclamação da República ocorreu em 15 de novembro de 1889.

Mais de dois séculos depois da Independência e mais de um século após receber seu nome, a Rua 7 de Setembro continua testemunhando as transformações de Campo Grande — da antiga “Rua Alegre” ao tradicional corredor comercial que permanece vivo no coração da Capital.

 

Por Ian Netto

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