Iniciativa que nasceu para combater o desperdício dentro dos presídios transforma manutenção hidráulica em qualificação profissional, economia e oportunidade de reinserção social
A água muda vidas. Às vezes, pela torneira que chega a uma casa. Outras, pelo esgoto que deixa de correr a céu aberto. Dentro de uma unidade prisional de Campo Grande, a transformação começa de outra forma: ensinando quem está privado de liberdade a cuidar de um dos recursos mais essenciais à vida.
Na sala de aula do Presídio de Trânsito, tubos, conexões e ferramentas dividem espaço com cadernos e uniformes. Ali, 18 custodiados aprendem que uma instalação hidráulica não é apenas um conjunto de canos escondidos atrás da parede. Um reparo feito no tempo certo pode evitar desperdício. Uma torneira consertada pode representar economia. E o conhecimento adquirido pode continuar sendo útil quando os portões da unidade se abrirem.

Foto; Roberta Martins
É essa a ideia do Programa Mãos e Obras, iniciativa da Águas Guariroba em parceria com o Governo de Mato Grosso do Sul, a Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário) e a Faculdade Senai de Construção.
O ponto de partida foi um problema concreto: vazamentos e necessidades de manutenção hidráulica nas unidades prisionais. A resposta, porém, não ficou restrita ao conserto daquilo que estava quebrado. A proposta foi transformar a necessidade de manutenção em oportunidade de aprendizado.
Ao todo, 140 custodiados de sete unidades prisionais de Campo Grande passarão pela capacitação de Encanador Hidráulico. São 40 horas de formação, com certificação profissional, materiais, uniformes e equipamentos de segurança fornecidos pela concessionária.
A estimativa é de que, somente com a redução da contratação de serviços terceirizados para manutenção hidráulica, o projeto gere cerca de R$ 200 mil em economia. Mas a conta que mais interessa não cabe em uma planilha.
“Fizemos um levantamento em todas as unidades para identificar possíveis vazamentos e materiais hidráulicos que precisavam de reparos. A partir daí, percebemos que poderíamos fazer mais do que uma simples doação. Criamos o curso de Encanador Hidráulico para preparar os reeducandos para serviços básicos, como instalar um chuveiro ou fazer o reparo de uma conexão”, explica Jhonatan Santos, gestor de Responsabilidade Social da Águas Guariroba.
A ideia é que os participantes possam aplicar o conhecimento adquirido nas próprias unidades, contribuindo para a manutenção e para a redução do desperdício, mas também levem a profissão para além dos muros do sistema prisional.
Economia que vai além da planilha
A estimativa de economia de R$ 200 mil com a redução da contratação de serviços terceirizados é um dos resultados objetivos do programa.
Mas existe uma segunda economia, menos mensurável, que é a possibilidade de formar mão de obra dentro do próprio sistema prisional.

Foto; Roberta Martins
Ao aprender uma profissão, o custodiado deixa de ser apenas alguém que recebe uma capacitação durante o cumprimento da pena. Ele passa a carregar uma habilidade que pode ser transformada em fonte de renda.
O diretor do Presídio de Trânsito, Raphael Nepomuceno Lopes, acompanha esse processo de perto. Para ele, o curso reúne qualificação profissional, trabalho e preparação para o futuro.
Os participantes podem aplicar o que aprenderam dentro da unidade e, posteriormente, apresentar a certificação profissional quando estiverem em busca de oportunidades fora do sistema prisional. A formação também pode contribuir para a remição da pena pelo estudo.
Mas, segundo Raphael, o principal resultado não está necessariamente no certificado. O diretor diz perceber entre os participantes uma mudança que não pode ser medida em horas de curso.
“No final, é o ganho de conhecimento que eles tiveram. Dá para ver essa vontade de querer mudar como pessoa.”
Para Jhonatan, esse é justamente o sentido mais amplo do programa. “A gente acredita muito em segundas chances. Isso vai ficar para a vida. A gente entende que é um legado que a gente deixa para a vida e para as famílias que estão ali sendo representadas por eles.”
Uma torneira, uma profissão
No Presídio de Trânsito, os 18 participantes não chegaram à sala de aula por acaso. A seleção considera a condenação, o interesse pelo curso e, quando existe, a experiência anterior na área.Para alguns, o curso é o primeiro contato mais aprofundado com a profissão. Para outros, é a oportunidade de transformar uma experiência que já existia em conhecimento técnico.

Foto: Roberta Martins
Um dos participantes, que está preso há dois anos, já trabalhava com construção civil antes de ser preso. Construía casas para vender e acreditava conhecer parte dos serviços hidráulicos. Durante as aulas, descobriu que ainda tinha muito a aprender.
“Achei ótimo fazer o curso. Eu já trabalhava com construção civil, construía casas para vender, mas muita coisa técnica ensinada aqui eu ainda não sabia.”
Entre as descobertas, estava algo que parece simples, mas que muda completamente a forma de executar um serviço. A pressão da água de um chuveiro, por exemplo, nem sempre é resolvida aumentando o diâmetro do cano.
O aprendizado, segundo ele, não ficará restrito ao período de formação. “Vou usar 200% do curso quando sair daqui.”
Outro participante está preso há três anos e sete meses. Antes de entrar no sistema prisional, trabalhou como vigilante e promotor de vendas. Tinha apenas conhecimentos básicos de hidráulica.
“É sempre gratificante poder adquirir conhecimento. Sabia o básico, até porque sempre trabalhei como vigilante e promotor de vendas; não tinha conhecimento aprofundado sobre hidráulica e esses pequenos reparos.”
Foi também durante o curso que ele passou a enxergar o desperdício de outra maneira.
“Não sabia que uma torneira vazando traz um grande desperdício de água, então saímos desse curso com mais consciência sobre o consumo da água e como devemos tratá-la.”
O conhecimento, agora, pode ser usado dentro e fora da unidade. “Com certeza vou utilizar esse conhecimento no futuro, até porque não sabemos como vai ser quando deixarmos esse lugar.”
Quando o problema vira aprendizado
A professora do Senai e engenheira civil, Iris Justo, é quem conduz os participantes pelos caminhos da hidráulica.
A formação não se limita a ensinar como trocar uma torneira. Os alunos aprendem sobre instalações de água, sistemas de esgoto, localização de tubulações e os critérios necessários para executar pequenos reparos.

Foto: Roberta Martins
A diferença está em entender por que o problema acontece. Uma torneira com pouca pressão pode ter relação com a posição da caixa d’água ou com o dimensionamento da tubulação. Uma descarga que apresenta defeito pode exigir uma manutenção simples. Um vazamento precisa ser identificado antes que a água perdida se transforme em prejuízo.
“Eles descobrem várias coisas que são muita novidade para eles e ficam encantados. ‘Professora, eu não sabia que era por isso’”, conta Iris.
A aula técnica também se transforma em aula de cidadania. Ao compreender como a água chega, circula e é utilizada, os participantes passam a perceber que desperdício não é apenas aquilo que escorre pelo ralo. É também o recurso que deixa de estar disponível para outra pessoa, o custo que aumenta e a pressão que cresce sobre os mananciais.
“É uma gotinha que você faz, se todo mundo juntar, já dá um grande dilúvio”, explica a professora.
Cada gota conta
Fora dos muros do presídio, cada gotinha perdida também ganha uma dimensão alarmante. O desperdício de água não é um problema restrito às unidades prisionais.
O Estudo de Perdas de Água 2026, realizado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, aponta que mais de 4 bilhões de metros cúbicos de água tratada são desperdiçados anualmente no Brasil. Cerca de 40% de toda a água produzida é perdida, e aproximadamente 60% dessas perdas estão relacionadas a vazamentos físicos nas tubulações.
Em Campo Grande, o índice de perdas na distribuição está em aproximadamente 19%. No Ranking do Saneamento 2026, com ano-base 2024, a Capital aparece entre os 20 dos 100 municípios analisados com perdas inferiores a 25%.
Para o diretor-presidente da Águas Guariroba, Gabriel Buim, combater perdas significa também preservar os recursos naturais.
“Quando falamos de perdas, não estamos falando apenas de números. Estamos falando de sustentabilidade. Cada litro de água que deixamos de perder representa menos pressão sobre os mananciais, mais eficiência e mais segurança hídrica para a população.”
Para se ter uma ideia da capacidade de abastecimento em Campo Grande, somente no mês de julho a produção de água tratada alcançou uma média de 283 mil metros cúbicos por dia, volume suficiente para atender com segurança toda a população da Capital. O desempenho acompanha o recorde histórico de produção da concessionária, de 305 mil metros cúbicos em um único dia, demonstrando a capacidade operacional mesmo em momentos de pico.
Todo esse volume percorre uma rede de distribuição de mais de 4,1 mil quilômetros, alimentada por poços, reservatórios e pelas captações dos córregos Lageado e Guariroba. Por trás dessa estrutura, a concessionária utiliza Inteligência Artificial em parceria com a UFMS para prever a vazão dos mananciais e monitora indicadores em tempo real pelo CCO (Centro de Controle Operacional), agindo de forma preventiva para garantir a continuidade do abastecimento.
Quando a água chega
A transformação provocada pela água não acontece apenas dentro de um presídio. Buscar água em uma carriola fazia parte da rotina de Laís Nogueira, moradora da Comunidade Homex, em Campo Grande. Na maior ocupação urbana de Mato Grosso do Sul, famílias passaram quase uma década sem acesso regular à rede de água tratada.
“Cansei de buscar água na carriola. Era todo dia. Para beber, eu trazia da casa da minha sogra, que mora em outro bairro. Quando acabava, a gente fervia a água daqui mesmo, mas, mesmo assim, as crianças passavam mal. Agora é outro tempo, é um alívio enorme”, conta.
A história de Laís ajuda a dimensionar algo que, para quem tem água tratada saindo da torneira todos os dias, pode parecer banal.
“Era uma tristeza. A gente chegou a fazer o famoso ‘gato’, mas, na parte mais baixa da comunidade, a água custava a chegar. Às vezes, pingava ou só saía de madrugada”, lembra o líder comunitário Léo Rodrigues.
Além da dificuldade para obter água, havia consequências para a saúde. “Muitas pessoas, principalmente crianças, ficavam doentes por causa da água. Hoje essa realidade é outra. Graças a Deus”, afirma.
Para Jocely da Silva, uma das primeiras moradoras da comunidade e mãe de seis filhos, a principal mudança foi deixar de depender do armazenamento de água.
“A gente sofria muito, água fraca e isso quando tinha. Hoje, graças a Deus, não temos mais problemas e também não estamos mais irregulares.”
A experiência vivida pelos moradores da Homex também ajuda a explicar por que iniciativas de saneamento podem produzir efeitos que vão muito além da infraestrutura. Ainda conforme o gestor de Responsabilidade Social, quando a água chega, ela leva consigo dignidade, qualidade de vida e novas possibilidades.
“A água não apenas transforma, ela muda a vida das pessoas. No dia a dia, a gente acaba tratando o acesso à água e ao saneamento como algo habitual, mas muda completamente aquela realidade. Isso traz dignidade, melhora a qualidade de vida”, finaliza.
Dentro do presídio, a transformação acontece por outro caminho. O recurso que precisa ser preservado também vira conhecimento, profissão e oportunidade.
Por Rafaela Alves