Neste 8 de março, é hora de celebrar ou de refletir sobre os desafios que persistem?
Uma pesquisa realizada pelos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva mostrou que 97% das mulheres brasileiras vivem com algum grau de temor de sofrer violência sexual. Os números indicam que o medo das mulheres de sofrer um estupro cresceu nos últimos anos. Por isso, o jornal O Estado de Mato Grosso do Sul foi às ruas de Campo Grande para ouvir mulheres.
Em 2020, 78% das mulheres ouvidas pela pesquisa relataram ter “muito medo de ser vítimas de um estupro”. Em 2022, o percentual subiu para 80% e chegou a 82% em 2025. No último ano, além das que convivem com muito medo, 15% disseram ter “um pouco de medo”, o que, somado, resulta em um total de 97% de mulheres que vivem com temor de uma violência sexual. A diretora de conteúdo do Instituto Patrícia Galvão, Marisa Sanematsu, afirma que, além de o medo ser constante, nenhum espaço é considerado, de fato, seguro.
Divulgado na última quarta-feira (4), apenas quatro dias antes do Dia das Mulheres, o Retrato dos Feminicídios no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, coloca Mato Grosso do Sul na terceira posição na taxa de assassinatos de mulheres no país, com 2,7 feminicídios por grupo de 100 mil mulheres, ficando abaixo apenas do Acre, com 3,2, e de Rondônia, com 2,9. Os dados se referem ao ano de 2025. Além disso, no período de 2021 a 2025, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso foram os dois estados que se mantiveram entre os cinco com as maiores taxas.
De acordo com a pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres 2026, três a cada quatro mulheres afirmam já ter sofrido assédio em algum momento de suas vidas, sendo os casos mais comuns na rua e no transporte público.
Nas ruas da Capital, 14 mulheres foram questionadas se sentem ou não medo de algum tipo de violência apenas pelo fato de serem mulheres. O resultado? Não muito diferente do esperado: quase 100% das entrevistadas relatam sentir medo apenas por serem mulheres. Neste dia 8 de março, o que há para comemorar, então?
Uma dessas mulheres, Bruna de Souza, de 24 anos, relata que o assédio já faz parte da sua rotina, dia e noite. “Quando eu estou andando na rua, para um carro do meu lado, anda devagar, começa a oferecer carona, pergunta se eu faço programa”. Mas, para Bruna, a solução é não ficar quieta. “Eu respondo ‘o que foi? O que você quer comigo?’ para ele ver que eu também sou perigosa. Foi uma forma que eu encontrei de perceber que os caras também ficam com medo”.
Além disso, Bruna comenta que parou de utilizar o transporte coletivo após um episódio de assédio que sofreu dentro de um ônibus. “Eu estava sentada e um cara do meu lado estava com a mão embaixo do braço dele tentando pegar no meu peito. Eu fiz um escândalo, porque eu acho que isso é importante, reagir”. Para Bruna, a reação em público da mulher assediada faz com que outras pessoas passem a defendê-la.
Andressa Santana, de 30 anos, também já se acostumou com homens que acham que têm o direito de violar seu corpo e sua segurança. “Teve uma vez que eu estava indo à igreja a pé e um carro passou e o cara deu um tapa na minha bunda. Eu tenho trauma de andar no meio-fio, agora só ando olhando para trás”. Esse não foi o único caso que Andressa teve de enfrentar. Quando tinha 15 anos, brincava de bexiga de água na rua com amigos quando um homem passou de bicicleta e apalpou sua bunda.
Hoje, Andressa guarda traumas que impactam sua rotina. Comprou um carro não por extrema necessidade, mas porque não queria mais passar por situações como essa ou até piores.
O fato é que, se não somos nós, todas conhecemos uma mulher que já foi vítima de algum tipo de violência, seja verbal, física, sexual ou psicológica. Os números mostram uma realidade que pode ser ainda pior, considerando os casos que não são denunciados, por medo, vergonha ou qualquer outro motivo que impede as mulheres de delatar seu agressor.
Aos homens, também falta coragem. Coragem para acabar com um pacto de silêncio que mata mulheres todos os dias, de falar sobre a violência à qual somos submetidas apenas por conta do gênero oposto. Afinal, se toda mulher conhece uma vítima, por que nenhum homem conhece um abusador?
Fala povo
Dália Nunes de Melo, 81 anos
“Sinto sim medo de ser abusada. Eu não saio à noite. Se eu tiver que fazer alguma coisa, faço de dia. Eu não tenho malícia, mas deveria ter, né?”.
Larissa Palácios, 18 anos
“Sim, sinto medo. Principalmente à noite, quando estou andando sozinha, morro de medo. Medo de aparecer alguém, me sequestrar. Então eu ando olhando para trás e rápido”.
Jordana Gomes, 18 anos
“Sim, sinto medo. Eu sou nova na cidade, então pior ainda, porque não conheço muita gente, é bem mais difícil por ser mulher, sinto muito medo de andar por aqui”.
Luana Moreira, 20 anos
“Sinto medo sim. Moro em um bairro onde tem muita mata, então eu evito muito sair de casa à noite, porque a gente sabe o que acontece, né?”.
Giovana Arnel, 21 anos
“A gente nunca sabe o tipo de pessoa que vai entrar, então é isso, é o medo de, às vezes, tentar se defender e não conseguir. A gente sempre fica pensando em como seria”.
Beatriz Chimenes, 18 anos
“É complicado. Situações atuais que acontecem em Campo Grande, muito feminicídio, acabam deixando com medo. Na visão dos homens é mais fácil atacar uma mulher, né?”.
Ana Karolaine Fritzee, 23 anos
“Sim, o tempo todo. Saindo de casa a gente pensa na roupa que vai usar para a gente não sofrer assédio. Já passei por algumas situações”.
Natália Nadal, 41 anos
“Não sinto medo, não há como saber se algo vai acontecer ou não. A gente tem que andar o mais segura possível. Se eu andar com medo não posso fazer nada na minha vida”.
Evanil de Oliveira, 75 anos
“Por ser mulher o medo é maior. Os homens se acham o dono do mundo, os donos de todas as mulheres, eles podem fazer o que eles bem entendem”.
Marielen Aparecida, 31 anos
“Sinto medo apenas pelo fato de ser mulher, não é por ser mais velha ou mais nova. O que eu mais sinto medo é do estupro”.
Giulia de Camargo, 20 anos
“A gente já cresce com isso na cabeça, de tomar cuidado com tudo, estar sempre em alerta, que mesmo querendo, a gente não consegue se sentir segura”.
Clara Hayakawa, 19 anos
“Não tem como se sentir segura sendo mulher. Você nunca sabe o que pode acontecer, é andar para os lados procurando alguma forma de defesa”.
Andressa Santana, 30 anos
“Não me sinto nem um pouco segura. Eu acho que tenho mais medo de ser estuprada do que ser roubada”.
Por Maria Gabriela Arcanjo