Mudanças de comportamento podem indicar sofrimento de crianças e adolescentes na internet

Conhecer os filhos também significa compreender os espaços virtuais onde eles constroem amizades, buscam reconhecimento e enfrentam conflitos / Imagem Ilustrativa
Conhecer os filhos também significa compreender os espaços virtuais onde eles constroem amizades, buscam reconhecimento e enfrentam conflitos / Imagem Ilustrativa

Psicólogo do Humap-UFMS orienta pais a observar sinais como isolamento, alterações no sono, queda no rendimento escolar e medo ao receber mensagens

Mudanças de comportamento podem ser um dos primeiros sinais de que crianças e adolescentes estão enfrentando situações de sofrimento ou violência psicológica no ambiente digital. Isolamento, alterações no sono, irritabilidade, queda no rendimento escolar e medo ao receber mensagens estão entre os comportamentos que merecem atenção dos pais e responsáveis.

O alerta é do psicólogo Thiago Ayala, do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/HU Brasil), que destaca a importância de acompanhar a rotina digital de crianças e adolescentes e manter o diálogo aberto dentro de casa.

Segundo o especialista, situações de violência psicológica também podem ocorrer exclusivamente pela internet e provocar impactos reais na saúde mental. Crianças e adolescentes podem estar mais vulneráveis por ainda estarem desenvolvendo recursos emocionais para lidar com conflitos e pressões.

Mudanças persistentes exigem atenção

Entre os sinais que podem indicar uma situação de risco estão o isolamento, mudanças no sono, irritabilidade, abandono de atividades, queda no desempenho escolar e alterações nas amizades.

O medo ao receber mensagens ou mudanças significativas na maneira de utilizar redes sociais, plataformas e jogos também pode indicar que algo não está bem.

Ayala ressalta, porém, que um comportamento isolado não significa necessariamente que exista uma situação de risco. O principal ponto de atenção é observar a combinação de sinais e se eles permanecem ao longo do tempo.

“Mais importante que um sinal isolado é perceber um conjunto persistente de mudanças”, afirma o psicólogo.

Pais devem acompanhar rotina digital

Conhecer os ambientes virtuais frequentados pelos filhos pode ajudar os responsáveis a entender melhor as relações estabelecidas na internet e identificar mudanças.

Para o especialista, esse acompanhamento não deve significar invasão de privacidade. A supervisão precisa considerar a idade, a maturidade e o nível de risco ao qual a criança ou adolescente está exposto.

“Privacidade não precisa significar ausência dos pais, e supervisão não precisa significar espionagem”, explica.

A recomendação é estabelecer combinados sobre o uso da internet, conhecer as plataformas utilizadas e criar um ambiente em que o jovem se sinta seguro para falar sobre experiências que ocorreram no ambiente digital.

Conversa deve acontecer antes de surgir um problema

A segurança digital, segundo Ayala, deve fazer parte da educação cotidiana. Pais e responsáveis podem conversar com os filhos sobre manipulação, ameaças, exposição, violência e pedidos que provoquem desconforto.

A orientação é ensinar crianças e adolescentes a reconhecer situações em que alguém tenta estabelecer controle por meio de segredos, pressão ou ameaças.

O especialista também recomenda que os jovens sejam estimulados a fazer perguntas diante de situações suspeitas, como: quem está fazendo o pedido? Por que isso precisa ser mantido em segredo? O que pode acontecer se eu disser não?

Esse tipo de reflexão pode ajudar a identificar relações de controle e manipulação antes que a situação se agrave.

Escutar antes de punir pode facilitar pedido de ajuda

O medo de receber uma bronca ou perder o celular pode fazer com que crianças e adolescentes deixem de contar aos responsáveis quando enfrentam problemas na internet.

Por isso, a forma como os adultos reagem é considerada importante para fortalecer a confiança.

Escutar primeiro, evitar humilhações e demonstrar disponibilidade podem aumentar as chances de o jovem procurar ajuda diante de uma situação perigosa.

Além do diálogo, vínculos familiares, amizades saudáveis, atividades fora das telas, autoestima e a presença de adultos de referência também são apontados como fatores de proteção.

Quando procurar ajuda profissional

Os responsáveis não precisam esperar que uma situação chegue ao limite para buscar orientação. Mudanças persistentes ou que começam a afetar áreas importantes da rotina já podem ser motivo para procurar ajuda profissional.

Entre os sinais de alerta estão prejuízos no sono, na alimentação, na vida escolar, nos relacionamentos e na capacidade de realizar atividades cotidianas.

Caso a família descubra que o adolescente está sendo coagido virtualmente ou participando de grupos nocivos, a recomendação é evitar uma reação impulsiva. O primeiro passo deve ser garantir a segurança, preservar o diálogo e entender o que está acontecendo.

Em situações envolvendo ameaça, coerção, exploração ou risco imediato, é necessário buscar atendimento especializado e acionar os canais de proteção adequados.

Proteção envolve família, escola e serviços de saúde

A prevenção dos riscos digitais não depende exclusivamente dos pais. Família, escola e serviços de saúde têm funções complementares na proteção de crianças e adolescentes.

A família oferece vínculo e supervisão; a escola contribui para a educação digital e identificação de mudanças; e os serviços de saúde podem atuar quando há sofrimento emocional ou necessidade de avaliação.

Outro ponto destacado pelo psicólogo é o equilíbrio no uso das telas. Segundo ele, o problema não está apenas no número de horas conectado, mas no que o uso excessivo pode substituir, como sono, convivência familiar, atividades físicas e outras formas de interação.

Por isso, estabelecer limites, criar períodos sem celular e preservar atividades fora do ambiente digital também fazem parte da proteção.

Para Ayala, conhecer os filhos atualmente também significa compreender os espaços virtuais onde eles constroem amizades, buscam reconhecimento e enfrentam conflitos.

A orientação é que pais e responsáveis observem mudanças de comportamento, mantenham o diálogo e não tenham receio de buscar ajuda profissional quando necessário. Para os adolescentes, o recado é que situações de pressão, ameaça ou manipulação não precisam ser enfrentadas sozinhos.

 

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