Instalação de Centro POP no Amambaí gera tensão entre os moradores e serviço de assistência social

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População questiona escolha do endereço, e Prefeitura defende como instrumento de garantia de direitos

 

A proposta de instalação de um novo Centro POP (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua) no bairro Amambaí, em Campo Grande, tem provocado reação de moradores, comerciantes e da comunidade escolar da região. O principal ponto de preocupação é a proximidade do equipamento com a Escola Municipal José Rodrigues Benfica, que atende crianças e adolescentes.

O assunto foi discutido em audiência pública na Câmara Municipal de Campo Grande, reunindo representantes do poder público, moradores e integrantes da comunidade escolar. Enquanto os moradores cobram a revisão do local escolhido, a administração municipal defende a necessidade de ampliar e qualificar o atendimento às pessoas em situação de rua.

Para a presidente do bairro Amambaí, Rosane Neli, a comunidade não é contrária às políticas públicas destinadas à população em situação de rua, mas questiona a localização escolhida pela Prefeitura. “Nós não somos contra o atendimento a pessoas em situação de rua. Nós somos contra isso no bairro Amambaí e, principalmente, do lado da escola”, afirmou.

Segundo Rosane, o bairro já convive há anos com problemas relacionados à presença de pessoas em situação de rua. Ela afirma que a comunidade busca soluções para a região desde 2012 e considera que a instalação de um novo Centro POP no local poderia agravar problemas já existentes. “A gente já tem uma péssima experiência com esse Centro Pop no bairro. Só que agora, além dele estar no bairro, eles querem instalar do lado de uma escola”, declarou.

A liderança comunitária também chama atenção para o perfil da região. De acordo com ela, o Amambaí reúne cerca de 6 mil moradores, além de intenso movimento comercial e instituições de ensino. Rosane afirma ainda que muitos dos moradores são idosos.

Outro ponto levantado durante a audiência foi a segurança. Rosane questiona a capacidade do município de garantir policiamento permanente no entorno do futuro equipamento e da escola. “Não adianta falar, nós vamos ter segurança. Não vai, não vai, porque não tem”, disse. Para ela, a comunidade teme que episódios de violência já registrados na região possam voltar a ocorrer em uma área próxima às crianças.

Rosane também citou episódios de violência ocorridos na região da Rua Joel Dibas e afirmou que, na avaliação dos moradores, a situação exige uma resposta mais ampla do poder público. “A gente só está pedindo socorro. Alguém olhe para o primeiro bairro de Campo Grande. Alguém respeite a nossa história”, afirmou.

“Nós não somos contra o atendimento, só somos contra isso no nosso bairro”, Rosane Neli, presidente do bairro Amambaí – Foto: Rafaela Tolentino

Pais temem impacto sobre rotina dos alunos

A preocupação também é compartilhada pela Associação de Pais e Mestres da Escola Municipal José Rodrigues Benfica. Presidente da APM, Fernanda da Silva afirma representar 403 alunos matriculados e seus familiares e segundo ela, a comunidade escolar não é contrária à existência do Centro POP nem ao atendimento à população em situação de rua. A principal preocupação está na proximidade do equipamento com a escola, que atende crianças e adolescentes de 5 a 15 anos. “A gente não é contra as políticas públicas com a população de rua, é extremamente necessário. O nosso receio, o nosso medo como pais, é colocar esse centro ali do lado das crianças”, afirmou.

Fernanda explica que parte dos alunos se desloca sem acompanhamento dos pais, que precisam trabalhar, o que aumenta a apreensão das famílias em relação à segurança no trajeto. “Muitas vezes, essas crianças vão e voltam sozinhas, porque os pais têm que trabalhar. Então, a gente está com medo nesse sentido”, disse.

A presidente da APM também reclama da falta de comunicação prévia com a comunidade escolar. Segundo ela, pais e responsáveis não receberam oficialmente informações detalhadas sobre a proposta, incluindo estudos de impacto ou um plano de segurança para a região. “A gente não foi comunicado. Não vieram pra gente falar: vai ser assim, vai mostrar o estudo de impacto social em relação à nossa comunidade escolar”, afirmou.

Fernanda também questiona a promessa de reforço na segurança caso o Centro POP seja instalado no endereço.

Segundo ela, o policiamento no entorno da escola não seria permanente. “Eu não vejo policiamento na redondeza, tanto na escola como ali do lado do Bairro Barbosa, onde é a entrada também do Centro POP”, relatou.

Prefeitura defende atendimento próximo da demanda

Do outro lado do debate, o gerente de Proteção Social para a População em Situação de Rua, Thiago Ribeiro, afirma que a instalação do Centro POP faz parte da estruturação da política pública de assistência social e que a localização considera o princípio da territorialidade.

Segundo ele, os equipamentos públicos devem estar próximos dos locais onde existe maior demanda de atendimento, especialmente em regiões centrais. “Nós temos que estar totalmente alinhados com os princípios da política pública, da garantia dos direitos. Então, nós não podemos criar um equipamento que seja afastado da demanda, para não segregar essa população”, explicou.

Thiago destaca que o Centro POP não é apenas um espaço físico, mas um equipamento destinado à oferta de serviços especializados. Entre os atendimentos estão acompanhamento psicológico e social, encaminhamentos para documentação, habitação, educação, profissionalização e reintegração familiar. “A importância maior é a garantia dos direitos, a importância maior é trazer dignidade para essas pessoas, para que elas possam superar a condição de rua”, afirmou.

O gerente explica ainda que o atendimento será realizado por equipes multidisciplinares, incluindo psicólogos, assistentes sociais e educadores sociais. Também existem equipes de abordagem social que atuam diretamente nas ruas.

De acordo com Thiago, o trabalho busca identificar as necessidades individuais de cada pessoa e encaminhá-la para os serviços adequados da rede pública.

Dados sobre população em situação de rua

A discussão ocorre em meio à divulgação de dados e pesquisas sobre a população em situação de rua em Campo Grande. Para Thiago Ribeiro, levantamentos e contagens são fundamentais para que o poder público conheça o perfil dessa população e consiga formular políticas mais adequadas. “A partir desse diagnóstico, a gente consegue fazer a política pública. Então, eu preciso entender qual é o meu perfil, eu preciso entender quais são as necessidades, eu preciso entender quais são as características para eu poder, de fato, realizar um trabalho assertivo”, explicou.

O gerente afirma que a percepção de aumento expressivo da população em situação de rua nem sempre corresponde aos números oficiais. Segundo ele, fatores como a movimentação de pessoas pelo Centro, fluxos migratórios e a própria dinâmica urbana podem contribuir para a sensação de crescimento. “A pesquisa também nos traz essa garantia do diagnóstico para poder fazer a política pública funcionar”, afirmou.

Comunidade cobra diálogo e alternativa

Apesar da defesa apresentada pela área de assistência social, moradores e representantes da escola querem que a prefeitura reavalie o endereço.

Rosane Neli afirma que a comunidade pretende continuar mobilizada. Entre as medidas anunciadas estão a realização de um abaixo-assinado e a possibilidade de buscar medidas judiciais.

“Estamos fazendo tudo o que é possível. Um abaixo-assinado, vamos mover uma ação pública. E estamos fazendo essa audiência para que haja um diálogo com a Prefeitura e para que ela repense essa situação”, declarou.

Para Fernanda da Silva, o objetivo dos pais também é encontrar um local que permita o atendimento à população em situação de rua sem colocar a comunidade escolar no centro do conflito. “A gente quer evitar de ir para ali, colocar em um lugar mais adequado para ser atendida essa população”, afirmou.

A discussão evidencia um desafio que vai além da escolha de um endereço: de um lado, a necessidade de garantir atendimento, dignidade e acesso a políticas públicas para pessoas em situação de rua; de outro, a preocupação de moradores e pais com os impactos da instalação do equipamento em uma área próxima a uma escola.

A expectativa da comunidade do Amambaí é que o debate avance para além da audiência pública e resulte em diálogo com o poder público sobre a localização do Centro POP, as medidas de segurança e os impactos para moradores, comerciantes e estudantes.

 

Por Ian Netto e Rafela Tolentino

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