Avaliação médica considera estado de saúde, função dos órgãos e riscos do procedimento; para doação de rim, não há limite máximo de idade
A idade avançada, por si só, não impede uma pessoa de doar órgãos em vida. Durante o Setembro Verde, campanha de conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos, especialistas reforçam que a possibilidade depende de uma avaliação médica individualizada, que considera as condições de saúde do doador e os riscos do procedimento.
No Brasil, a doação em vida pode ser feita por pessoas maiores de idade, desde que sejam consideradas aptas pela equipe médica. A avaliação busca garantir que a retirada do órgão não provoque danos à saúde do doador, além de verificar se o órgão apresenta condições adequadas para o receptor.
Segundo o enfermeiro e coordenador da equipe de Doação de Órgãos e Tecidos do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/HU Brasil), Guilherme Fernandes, idosos passam pelo mesmo processo de avaliação dos demais possíveis doadores, mas a análise pode ser ainda mais criteriosa.
“A doação em vida de órgãos por parte de idosos segue os mesmos critérios de qualquer pessoa, verificando-se a viabilidade e se não existe contraindicação, mas é preciso ter uma análise criteriosa para não causar danos à saúde desse doador. Esse é o principal critério médico”, explica.
Não existe um exame único capaz de determinar se uma pessoa idosa pode doar um órgão. A decisão é tomada a partir de uma avaliação completa, que pode incluir exames de sangue e urina, análise da função dos rins, exames de imagem e avaliação cardiovascular.
Também são considerados o estado geral de saúde, a expectativa de vida, a possibilidade de o doador permanecer saudável após a cirurgia e os riscos envolvidos no procedimento.
Quais órgãos podem ser doados em vida?
Em uma doação em vida, a segurança do doador e do receptor é o principal critério. Atualmente, podem ser doados em vida um dos rins, parte do fígado, parte do pulmão e medula óssea, desde que o procedimento seja considerado seguro pela equipe responsável pelo transplante.
Os critérios podem variar de acordo com o órgão. Para a doação de parte do fígado, por exemplo, existe uma faixa etária considerada adequada, que vai dos 16 aos 50 anos, conforme explica Guilherme Fernandes.
Já para a doação de um dos rins, não existe limite máximo de idade. Nesse caso, as condições de saúde do possível doador são determinantes para avaliar a segurança do procedimento.
“Para garantir o bom estado de órgãos e tecidos, são utilizados exames laboratoriais e de imagem. Além disso, as equipes médicas costumam fazer exames de sorologia em todos os doadores para verificar se existe alguma doença que contraindique a doação”, afirma o coordenador.
Idade pode aumentar os riscos
Embora a idade avançada não seja uma exclusão automática para toda doação em vida, o envelhecimento pode aumentar a ocorrência de condições como hipertensão, diabetes e alterações na função renal. Por isso, a investigação médica tende a ser mais detalhada.
“A idade avançada pode contraindicar a doação de órgãos em vida se ela comprometer as condições ideais do doador, além de expor essa pessoa a um procedimento que, pela idade avançada, possa ser prejudicial”, ressalta o enfermeiro.
Outro ponto analisado é a qualidade do órgão que será transplantado. Em alguns casos, a idade pode influenciar as condições do órgão e, consequentemente, sua utilização no transplante.
Por isso, a decisão é tomada individualmente pela equipe médica, considerando os exames, as condições do doador e do receptor e os possíveis riscos e benefícios do procedimento.
Quem pode receber o órgão de um doador vivo?
A legislação brasileira permite a doação entre parentes até o quarto grau e entre cônjuges sem necessidade de autorização judicial.
Quando não existe esse grau de parentesco, a doação também pode ser realizada, mas depende de autorização judicial.
No caso do doador vivo, a idade não altera a necessidade de autorização prevista em lei. A pessoa precisa ser maior de idade e passar pela avaliação médica para verificar se está apta à doação.
A família ou a rede de apoio também pode participar do processo de decisão, mas, diferentemente da doação após a morte, não é necessária autorização familiar para que uma pessoa adulta seja doadora em vida.
Setembro Verde
A campanha Setembro Verde busca ampliar a conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos. Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes, o Brasil registrou 4.335 doadores efetivos no ano passado, com taxa de 20,3 doadores por milhão de população, o maior número já registrado no país.
Ao mesmo tempo, 49.489 brasileiros aguardavam por um transplante.
A doação em vida é uma das possibilidades existentes no sistema de transplantes, mas depende sempre de avaliação médica individualizada e da garantia de segurança para o doador e o receptor.
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