Empresa que construiu ponte que desabou em Coxim foi multada em R$ 242 mil em 2021 e ficou impedida de novas contratações

Foto: reprodução/internet
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Geoserv acumulou contratos para construção de pontes em diferentes regiões de Mato Grosso do Sul

Alexandre Rodrigues, de 49 anos, morreu no último dia 13, após o desabamento da ponte João Wenceslau Leite de Barros, sobre o Rio Taquari, na MS-214, na região de Coxim. A estrutura, construída pela Geoserv Serviços de Geotecnia e Construção Ltda., caiu enquanto o caminhão atravessava a ponte. Levantamento feito pelo Jornal O Estado mostra que a empresa responsável pela obra foi penalizada pelo Governo de Mato Grosso do Sul em 2021, com multa de R$242,6 mil e suspensão temporária do direito de participar de licitações e de novas contratações com a administração pública.

Além disso, a Geoserv foi punida pela Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos) por inexecução total de outro contrato, que previa a recuperação ou construção de duas pontes em Ivinhema.

O contrato nº 042/2021 tinha valor de R$970.450,59 e previa intervenções nas pontes sobre os córregos Zezão e Moacir Nocet, em rodovias vicinais do município. Em dezembro daquele ano, a Agesul aplicou multa de R$242.612,65 à empresa e determinou a suspensão temporária de sua participação em licitações e do direito de contratar com a Administração pelo período de dois anos.

O levantamento feito pelo Jornal O Estado a partir dos registros publicados no Diário Oficial mostra que a Geoserv teve uma atuação extensa na construção de pontes em Mato Grosso do Sul. Os contratos identificados nos documentos ultrapassam R$21 milhões em valores iniciais e ajustes registrados, distribuídos por obras em diferentes municípios e rodovias estaduais.

Entre as estruturas está a ponte sobre o Rio Taquari, no trecho entre a MS-214 e o entroncamento com a MS-423, em Corumbá. A Geoserv venceu a licitação, com resultado publicado em 29 de abril de 2008. A obra, com extensão prevista de 168 metros, foi contratada inicialmente por R$1.840.722,41.

O contrato foi assinado em julho daquele ano. Em 2009, um termo aditivo acrescentou R$452.406,12 ao valor original, fazendo o total do contrato chegar a R$2.293.128,53.

A mesma empresa aparece em outros contratos para construção de pontes. Em 2007, por exemplo, venceu a licitação para uma estrutura de 84 metros sobre o Rio Aquidauana, na MS-450, pelo valor de R$1.252.258,16. O contrato acabou reduzido posteriormente para R$1.186.514,45.

Em 2008, a empresa também foi contratada para construir uma ponte de 72 metros sobre o Rio Taquari, na divisa entre Coxim e Pedro Gomes, por R$ 819.020,74, e outra de 48 metros sobre o Rio Taquari Mirim, em Rio Verde de Mato Grosso, por R$ 684.984,36.

Contratos se espalharam pelo Estado

Em 2009, a Geoserv venceu licitações para construir pontes sobre os rios Sucuriú, Figueirão, Piraputanga e Jauru. Também foi contratada para três pontes sobre o Rio Verde, em diferentes pontos do perímetro urbano de Rio Verde de Mato Grosso.

Somados, os contratos registrados para essas estruturas alcançam mais de R$6,6 milhões em valores originalmente contratados. Entre eles estão a ponte sobre o Rio Figueirão, de 40 metros, por R$ 1.254.763,75; a ponte sobre o Rio Piraputanga, também de 40 metros, por R$ 1.248.190,15; e a ponte sobre o Rio Jauru, de 70 metros, por R$ 1.935.254,26.
As três pontes construídas sobre o Rio Verde, em Rio Verde de Mato Grosso, tiveram contratos de R$503.152,46, R$504.098 e R$466.184,64.

Em 2010, a Geoserv ainda aparece em contratos para pontes sobre o Rio Sucuriú, em Costa Rica, pelo valor de R$ 1.814.532,67; sobre o Rio Garimpo, em Rio Negro, por R$ 1.039.098,61; e sobre o Rio Dourados, entre Dourados e Caarapó, por R$ 1.452.404,51.

Os registros continuam nos anos seguintes. Em 2011, documentos oficiais mostram a contratação da empresa para novas pontes, incluindo uma sobre o Rio São João, em Bandeirantes, por R$ 616.887,02; outra sobre o Rio Aquidauana, entre Aquidauana e Dois Irmãos do Buriti, por R$ 1.257.782,56; e uma terceira sobre o Rio Jauru, entre Coxim e Figueirão, por R$ 759.017,78.

Em 2020, a empresa voltou a vencer licitação da Agesul para a construção de uma ponte de concreto sobre o Rio Guaimbê, na MS-379, entre Laguna Carapã e Aral Moreira. O contrato tinha valor de R$1.444.872,18.

Riedel fala em implodir pontes

Após os recentes desabamentos, o governador Eduardo Riedel (PP) afirmou, na sexta-feira (14), que o Estado poderá implodir pontes consideradas inseguras caso avaliações técnicas apontem que não há possibilidade de recuperação das estruturas.

Durante participação no projeto Café & Política, Riedel foi questionado sobre as quedas de pontes e a necessidade de revisar estruturas diante do aumento do tráfego de veículos pesados e do transporte da produção de Mato Grosso do Sul.

O governador afirmou que o Estado enfrenta um problema relacionado ao peso dos veículos que circulam pelas rodovias e à idade da infraestrutura. Segundo ele, existem veículos com nove eixos e mais de 100 toneladas utilizando uma estrutura que não estaria preparada para esse tipo de carga. “Uma infraestrutura de 20 anos atrás que não está preparada para isso. É um problema, um problema sério. Isso falando de rodovias e de pontes”, disse.

Sobre as pontes construídas pela Geoserv, Riedel afirmou que o Estado contratou uma empresa especializada em engenharia de pontes para avaliar as estruturas restantes e definir se elas poderão ser reforçadas ou se precisarão ser demolidas. “Vamos ter que fazer essa avaliação técnica e discutir. Isso é muita responsabilidade”, afirmou o governador.

O Crea-MS (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul) também passou a acompanhar os casos. O órgão informou que está levantando informações sobre as empresas e os profissionais responsáveis pelo projeto, execução e manutenção das pontes, além das respectivas ARTs (Anotações de Responsabilidade Técnica). O conselho informou ainda que, nos últimos dez anos, quatro pontes estaduais desabaram em Mato Grosso do Sul.

A reportagem tentou contato com a Geoserv para ter um posicionamento sobre os contratos, a penalidade aplicada em 2021 e o desabamento da ponte João Wenceslau Leite de Barros, mas não houve retorno até a publicação. O Governo do Estado também foi questionado e não houve respostas.

Por Biel Gill

 

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