Das lonas esquecidas aos jeans descartados, pequenos empreendedores de MS transformam resíduos em peças únicas e mostram que reutilizar materiais também pode ser uma forma de reconstruir vidas
Era 2004 quando Lucienne Lopes tentava atravessar o Forte de Coimbra, às margens do Rio Paraguai, em Corumbá, para salvar a vida do filho caçula, de dois anos. No colo da mãe, ele sofria uma parada cardíaca, decorrente de uma forte pneumonia, que evoluiu mal. Enquanto a vida do menino se esvaía em seus braços, ela corria para conseguir atendimento médico. Na época, quase duas décadas atrás, o deslocamento até a cidade era ainda mais difícil. Quando o menino finalmente deu entrada no hospital, já era tarde.
Em meio ao luto por um filho, Lucienne tinha mais dois para criar, além de uma casa para cuidar, ao lado do marido. Mas, acima de tudo, precisava lidar com o sentimento de impotência e de injustiça que sentiu naquele dia, em que tudo mudou. Para não se entregar aos sentimentos ruins da vida, ela entendeu que precisava se movimentar.
Na física, um movimento se resume à mudança de posição de um corpo no espaço. Essa mudança de posição leva sempre em consideração um ponto de referência, um local de partida. Para Lucienne, foi preciso voltar às origens, tal qual uma criança, exatamente como seu filho, entender seu referencial e, então, recomeçar a partir dali.
Nascida e criada no bairro Maria Leite, na Capital do Pantanal Sul-Mato-Grossense, no fim dos anos 1960, Lucienne sempre foi apaixonada pelo Estado onde nasceu. De pouquinho em pouquinho, ela começava a entender as influências a sua volta. Para ela, nada mais típico do que o artesanato. Então pensou: “É isso!”. Comprou uma máquina de costura, mesmo sem a mínima noção de como fazer um simples ponto. Mas de uma coisa ela sabia: queria traduzir em arte tudo aquilo que tinha dentro dela.

Lucienne começou sem saber costurar e hoje tem uma identidade única dentro do negócio. Foto: Cayo Cruz
O luto não segue o espaço-tempo que conhecemos. Lucienne levou cerca de 14 anos para entender que precisava superar o filho que se foi. E superar não significa esquecer, mas colocá-lo em um lugar digno, e ainda assim dar outro significado a sua própria vivência. Foi então em 2018 que a irmã de Lucienne indicou para ela um curso de costura, no Instituto Moinho Cultural. E ela foi, mesmo sem saber que dali nasceria uma nova paixão. Não para substituir o filho, mas para impulsionar a vida. “Para não cair na depressão, comecei a mexer com artesanato”, diz.
Nos três primeiros anos que passou no Instituto, Lucienne fazia figurinos para bailarinos. Junto a isso, ela aprendeu no curso uma valiosa lição, que é o cerne do seu trabalho: dar um outro destino aos materiais que iriam para o lixo. Hoje, já residente na Capital há alguns anos, ela faz estojos, necessaires, mochilas, sacolas, bolsas, entre outros itens da reutilização da lona. E essa é a Lu Lopes Ateliê, não mais Lucienne, a mulher marcada pela perda precoce do filho mais novo e refém da vida. Agora, ela tem uma nova identidade. E pode-se dizer que até única.
Mesmo que não diga com essas exatas palavras, o que Lu faz é conhecido no mundo da moda como upcycling: uma técnica que vai além da reciclagem. Reciclar é transformar resíduos em matéria-prima. No upcycling, eles viram produto final. “O ciclo se dá a partir de resíduos descartados que são trabalhados para compor um novo produto, seja ele um acessório de moda, item decorativo ou outro, o material será trabalhado de maneira mais requintada, onde ganha valor e compõe um produto que irá direto para as prateleiras ou e-commerces”, explica a Embapel Reciclagem.
Lu já trabalhou com reaproveitamento de jeans, pintura em tecido, crochê, bordado, tapete, pano de prato, tricô, e fazia até mesmo roupinhas para pets. Mas encontrou na lona, um material altamente poluente, uma forma de fazer renda, de ocupar a cabeça e ainda contribuir com o meio ambiente. Para conseguir os materiais, ela usa um olhar que pouca gente tem, e enxerga em banners de apresentações científicas, propagandas e até mesmo malotes.
“Tem muito se você andar na cidade e olhar, tem muita lona, é cheio de banner. Aí, quem que tira aquilo ali? Vai ficar ali, aí ele cai, vai ficar se arrastando, parar sabe onde. E eu pego, limpo e dou um destino para ele. É isso que eu faço. A mesma coisa os malotes. Os malotes seriam incinerados. E aí? Por que incinerar esse material se eu posso dar um destino para ele?”, explica.
Mas não é só pegar um material e costurar. Os produtos de Lu já têm identidade visual própria. Em poucos centímetros, eles contam a história do Pantanal Sul-Mato-Grossense, onde cresceu, e traduzem o lugar de pertencimento. Eles abordam espécies animais e vegetais que fazem parte do dia a dia de Mato Grosso do Sul.

Lu busca resgatar a memória de quando viveu no Pantanal Sul-Mato-Grossense. Foto: Cayo Cruz
Lu explica que utiliza banners para fazer sacolas de compras, com o intuito de fazer as pessoas utilizarem menos sacolas plásticas. Conforme a costureira, uma sacola feita de lona chega a ultrapassar dez anos de vida útil. Além disso, os malotes, geralmente verdes, passam por um intenso processo de limpeza. Depois disso, com um segredo que ela guarda a sete chaves, ela estiliza o tecido. Assim, nasce uma peça original e única.
Mesmo que muitas pessoas não percebam, a lona, principalmente utilizada em campanhas publicitárias, se torna um problema silencioso para o planeta. O material é composto por polímeros plásticos como o polietileno e o PVC (Policloreto de Vinila). Segundo o MMA (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima), a poluição por plásticos é hoje um dos maiores desafios ambientais do planeta, e coloca em risco a biodiversidade e a saúde humana.
Além disso, o plástico contribui também para a crise climática. “O ciclo de vida do plástico — da extração do petróleo e gás, passando pela produção e transporte, até a disposição final — é altamente intensivo em energia e emissões. Atualmente, a cadeia do plástico responde por cerca de 3% a 5% das emissões globais de gases de efeito estufa, sendo que mais de 90% dessas emissões ocorrem nas fases iniciais de produção. Projeções apontam que, sem medidas efetivas, essa participação poderá dobrar até 2060”, afirma a pasta.
De acordo com o relatório “Da Poluição à Solução: Uma Análise Global sobre Lixo Marinho e Poluição Plástica”, feito pela ONU (Organização das Nações Unidas), as abordagens circulares, ou seja, ações que dão outros destinos a materiais que poderiam acarretar em um problema maior se jogados ao mundo, ajudam a reduzir resíduos plásticos. O estudo ainda aponta que 85% dos resíduos plásticos chegam aos oceanos, representando risco às espécies marinhas.
O corpo humano também está suscetível à contaminação por esses resíduos pela água, por frutos do mar, bebidas e sal. Essa exposição nociva pode causar alterações hormonais, anormalidades reprodutivas e câncer.
Pequenos empreendimentos como o de Lu não resolvem um problema que é muito mais complexo do que parece ser, de fato, mas são alternativas sustentáveis. Tanto que a artesã foi convidada a participar da COP15 (Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias), que aconteceu em Campo Grande, e expor seus trabalhos.
Hoje, Lu ministra cursos para outras mulheres que, por algum motivo, sentem que precisam do artesanato e, principalmente, da costura. Mas suas maiores vendas são nas feiras de economia criativa. Além disso, ela reconhece a importância de incentivos como o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), com quem tem uma longa história. “Assim que cheguei a Campo Grande, fiz um MEI (Microempreendedor Individual) e comecei a me envolver também com o Sebrae, que sempre quando tem eventos eu recebo convite e é onde eu também faço uma comercialização dos produtos”, afirma.
Longe de uma ruptura abrupta como Lu, quem também utiliza o upcycling em suas criações é o estilista e figurinista Luiz Gugliatto. Sua marca “Why Not” propõe um novo olhar sobre a moda, com foco no equilíbrio do consumo consciente. O que Luiz faz parece ser simples: ele transforma peças jeans em uma completamente nova e única. Mas há muito mais por trás disso. Há intenção, criatividade e anos de estudo.
Gugliatto nasceu na Capital de São Paulo, onde, através da mãe, se apaixonou pelo mundo da moda. Depois da faculdade, nos fim dos anos 1980, trabalhou para marcas grandes e, no meio de produções gigantescas do fast fashion, olhava para os retalhos e roupas com defeitos que iam para o lixo com outro viés. Foi então que decidiu levar para casa as sobras de roupas e dar a elas outro destino.

Gugliatto construiu o próprio nome dentro da moda usando a responsabilidade ambiental. Foto: Cayo Cruz
Com esse simples ato, Luiz foi descobrindo aos poucos uma vocação. Ele usava moldes de roupas comuns, mas era na hora de costurar que tudo mudava. Ele utilizava tecidos de blusas, calças e até tapetes para customizar uma coisa totalmente única. Embora tivesse esse trabalho à parte, o figurinista tirava boa parte da renda de colaborações com revistas. Mas foi durante a pandemia da Covid-19, quando já estava em Campo Grande, que Luiz resolveu investir de vez nas criações que fazia há mais de 30 anos. “E aí, com a pandemia, depois que a revista já tinha fechado, eu resolvi pegar tudo que era jeans da família e montei uma coleção”, explica.
Hoje, referência na moda de Mato Grosso do Sul, o foco de Gugliatto é o jeans. Esse tecido está presente no armário de grande parte dos brasileiros e passa quase despercebido quando se fala em poluição. Acontece que, desde a plantação de algodão, até a lavagem de um jeans, muitos litros de água são gastos. Um relatório do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), divulgado em 2020, revela que, na produção de uma única calça jeans, são consumidos 3.789 litros de água, sem contar o tingimento com produtos químicos poluentes.

O estilista usa da criatividade para que nenhuma parte vá ao lixo. Foto: Cayo Cruz
Para Gugliatto, isso beira o abismo do absurdo. “Eu já sabia que o jeans é algo muito difícil para a natureza. Enquanto eu estou falando aqui, milhões de calças estão sendo feitas no mundo, essa é a preocupação e quem é que não quer ter uma peça única, exclusiva? Quando você pensa nisso aqui, você agrega valores”. E é com esse pensamento que a “Why Not” veste celebridades como Paolla Oliveira, Fabiana Karla e Regiane Alves.
Luiz usa a técnica de espelhamento em suas peças. Quase tudo o que tem de um lado, terá do outro. Esse é o caminho que ele encontrou para reaproveitar tudo: cós, bolsos, braguilha. Com duas ou três calças que o estilista compra em brechós e bazares, ele faz um novo colete, uma saia, uma calça, ou até mesmo bolsas e tapetes.
Publicamente contra produções de grande escala, a sustentabilidade faz parte não apenas do trabalho de Luiz Gugliatto, mas também se expande para a sua vida pessoal. “Meu grande sonho é que chegue uma hora em que a grande maioria da humanidade pense antes de adquirir uma peça. Que compre e use de uma forma consciente. Você não precisa de mais uma calça, com três você sobrevive. Até com menos. Eu já fiz um teste há uns 15 anos, quando eu tinha quatro camisetas e três calças, eu só usava aquilo o tempo todo”, relembra.
O slow fashion, que Gugliatto tanto acredita, também é um modo de viver. O estilista explica que, depois de um episódio traumático em 2025, repensou a própria forma de viver e desacelerou ainda mais. Ele precisou fazer uma cirurgia no coração e contou com uma grande campanha de doação de sangue para sobreviver. “Isso mudou muita coisa na minha vida, porque daí você vê que a vida é um sopro. Você pode sair daqui e não chegar ali”.

Uma das peças únicas que Luiz Gugliatto produz em um pequeno ateliê na Capital. Foto: Cayo Cruz
Talvez o upcycling não seja apenas sobre tecidos, lonas ou calças jeans. Talvez seja, acima de tudo, sobre a capacidade humana de ressignificar aquilo que parecia ter chegado ao fim. Nas mãos de Lu Lopes, um banner abandonado ganha nova utilidade. Nas de Luiz Gugliatto, uma peça descartada se transforma em moda digna de passarelas. Em comum, os dois compartilham a mesma crença: a de que nem tudo o que sobra perdeu o valor.
Em um mundo marcado pelo excesso de consumo e pelo descarte acelerado, histórias como essas lembram que existem outras possibilidades. Em meio a pequenos ateliês, eles desafiam a lógica do desperdício e mostram que sustentabilidade também pode nascer da criatividade, da memória e do afeto.
Porque, no fim das contas, o que Lu e Luiz restauram vai muito além da matéria-prima. Eles restauram histórias. E provam que, às vezes, aquilo que parecia destinado ao esquecimento pode encontrar uma nova forma de existir.
Por Maria Gabriela Arcanjo
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