Condição inflamatória crônica não é contagiosa e pode afetar a autoestima, as articulações e a saúde integral; informação e tratamento adequado ajudam a melhorar a qualidade de vida

Imagem Divulgação
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Deixar de usar uma roupa de que gosta, evitar a praia ou a piscina, esconder os braços e as pernas ou sentir vergonha de iniciar um relacionamento por medo da reação das outras pessoas. Para quem convive com a psoríase, situações comuns do cotidiano podem se transformar em momentos de insegurança. As marcas na pele, muitas vezes visíveis, podem despertar olhares, comentários e dúvidas, enquanto os impactos emocionais nem sempre são percebidos por quem está ao redor.
No Dia Mundial da Psoríase, celebrado em 29 de outubro, o Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), filiado à HU Brasil, chama a atenção para uma doença que exige mais do que cuidados com a pele: requer informação, diagnóstico, acompanhamento profissional e acolhimento. Embora suas manifestações sejam frequentemente visíveis, seus efeitos podem alcançar outras partes do organismo e interferir na autoestima, nas relações sociais e na qualidade de vida.
A dermatologista Marina Franco Panovich explica que a psoríase é uma doença inflamatória crônica relacionada ao sistema imunológico. Isso significa que mecanismos de defesa do próprio organismo participam do processo inflamatório que provoca as manifestações da doença.
“Não é contagiosa!”, ressalta a especialista, ao destacar um dos principais esclarecimentos que precisam chegar à população. A psoríase não é transmitida pelo contato com a pele, por abraços, apertos de mão, compartilhamento de ambientes ou convivência com uma pessoa diagnosticada.
Quando as marcas na pele afetam a vida
A psoríase costuma se manifestar por placas avermelhadas, geralmente bem delimitadas e acompanhadas de descamação esbranquiçada. As lesões podem provocar coceira, desconforto e incômodo estético. Entre as regiões mais frequentemente atingidas estão os cotovelos, os joelhos, o couro cabeludo e a região lombar, embora as manifestações possam aparecer em outras partes do corpo.
A intensidade e a extensão das lesões variam de uma pessoa para outra. Em alguns casos, as alterações são localizadas; em outros, podem atingir áreas mais extensas e provocar desconforto significativo.
Mas o impacto não se limita aos sintomas físicos. A exposição das lesões pode gerar constrangimento, preocupação com a aparência e receio de sofrer preconceito. Com isso, algumas pessoas passam a evitar atividades de lazer, encontros sociais e situações em que a pele fica mais exposta.
A dermatologista alerta que esse sofrimento merece atenção. A coceira e o desconforto podem se somar à ansiedade, ao isolamento social e até à depressão. Por isso, o cuidado com quem tem psoríase também envolve compreender os efeitos emocionais da doença e evitar julgamentos.
Nem sempre é possível perceber o que uma pessoa está enfrentando apenas ao olhar para sua pele. Da mesma forma, a presença de lesões não deve ser motivo para afastamento, discriminação ou tratamento diferente.
Psoríase não é falta de higiene
A associação equivocada entre descamação e falta de higiene é outro preconceito que precisa ser combatido. A psoríase não surge porque alguém deixa de tomar banho ou não cuida adequadamente da pele. Trata-se de uma condição inflamatória relacionada ao sistema imunológico.
Também não existe risco de transmissão pelo convívio cotidiano. Uma pessoa com psoríase pode trabalhar, estudar, frequentar espaços públicos, praticar atividades físicas e manter relacionamentos normalmente, sem representar risco de contágio por causa da doença.
“Você não pega psoríase ao tocar na pele de alguém, abraçar, apertar a mão, compartilhar ambientes ou conviver com uma pessoa que tem a doença”, esclarece Marina.
A informação é uma ferramenta importante para reduzir o preconceito e evitar que o paciente, além de lidar com os sintomas, tenha de enfrentar o afastamento de outras pessoas. O acolhimento começa pelo entendimento de que a doença não define quem a pessoa é e não justifica qualquer forma de discriminação.
Os efeitos podem ir além da pele
Embora as placas e a descamação sejam as manifestações mais conhecidas, a psoríase está associada a alterações que podem atingir outras partes do organismo. Uma delas é a artrite psoriásica, condição que provoca inflamação nas articulações e pode causar dor, inchaço e dificuldade de movimentação.
Em situações graves e sem controle adequado, a inflamação articular pode provocar danos permanentes e deformidades. Por isso, sintomas nas articulações merecem atenção, especialmente quando aparecem em pessoas que já apresentam lesões de pele ou alterações nas unhas.
Outro aspecto importante é a associação da psoríase com maior risco de determinadas condições de saúde, como doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes. Isso não significa que todas as pessoas com a doença desenvolverão esses problemas, mas reforça a importância do acompanhamento médico e da avaliação da saúde de forma integral.
A atenção aos sinais do corpo é fundamental. Dor articular persistente, inchaço ou dificuldade para movimentar as mãos, os pés e outras articulações devem ser comunicados ao profissional de saúde. A identificação precoce de possíveis manifestações associadas pode contribuir para o cuidado adequado.
Como reconhecer os sinais e obter o diagnóstico
Os sinais mais comuns da psoríase são placas avermelhadas, com limites bem definidos e descamação esbranquiçada. Elas podem surgir em diferentes regiões do corpo e apresentar intensidade variável. A coceira também pode estar presente, assim como o desconforto causado pelas lesões.
Entretanto, alterações na pele podem ter diferentes causas, e a aparência de uma lesão, isoladamente, não é suficiente para confirmar a doença. O diagnóstico é feito principalmente pela avaliação clínica do dermatologista, que considera as características das manifestações e o histórico do paciente.
Por isso, diante de lesões persistentes ou recorrentes, a recomendação é procurar atendimento de saúde em vez de recorrer à automedicação ou utilizar produtos sem orientação profissional.
O diagnóstico adequado permite avaliar a extensão da doença, a intensidade dos sintomas e a necessidade de tratamento. Também possibilita investigar sinais de comprometimento articular e outras condições que possam estar associadas à psoríase.
Tratamento: a doença pode ser controlada
A psoríase é uma doença crônica, mas isso não significa que o paciente precise conviver permanentemente com os sintomas sem alívio. Atualmente, existem tratamentos capazes de controlar as manifestações, reduzir a inflamação e melhorar significativamente a qualidade de vida.
A escolha depende da gravidade do quadro, das áreas atingidas, dos sintomas e das características de cada paciente.
Nos casos mais leves, podem ser indicados medicamentos de uso tópico, como cremes e pomadas. Nas situações moderadas ou graves, pode ser necessário recorrer a medicamentos sistêmicos, que atuam no organismo como um todo, incluindo imunossupressores e medicamentos imunobiológicos, conforme avaliação médica.
O acompanhamento é importante para verificar a resposta ao tratamento, ajustar a conduta quando necessário e identificar possíveis efeitos adversos ou manifestações associadas. A terapia deve ser individualizada, e a interrupção ou alteração dos medicamentos precisa ser discutida com o profissional responsável.
A dermatologista ressalta que os avanços terapêuticos permitem controlar a doença e reduzir seus impactos. Mesmo sendo crônica, a psoríase pode apresentar melhora significativa com o tratamento adequado.
Como buscar atendimento pelo SUS
Quem suspeita que tem psoríase pode procurar inicialmente uma Unidade Básica de Saúde (UBS), porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde (SUS). O profissional fará a avaliação inicial e, quando houver indicação, poderá encaminhar o paciente para atendimento especializado em dermatologia, conforme o fluxo de regulação do município.
O SUS dispõe de tratamentos para a psoríase, inclusive opções destinadas a casos mais graves. A indicação e o acesso a cada medicamento dependem da avaliação clínica, dos critérios previstos nos protocolos aplicáveis e dos fluxos assistenciais.
Buscar atendimento é importante tanto para confirmar o diagnóstico quanto para definir a melhor estratégia de cuidado. O tratamento não deve ser escolhido apenas com base em fotografias, relatos de outras pessoas ou informações encontradas na internet, pois as necessidades variam conforme cada caso.
Informação e acolhimento também fazem parte do cuidado
A psoríase pode deixar marcas visíveis, mas o sofrimento de quem convive com a doença nem sempre aparece na pele. Por isso, ampliar o conhecimento sobre a condição é uma forma de contribuir para que os pacientes sejam tratados com respeito e tenham acesso ao acompanhamento de que precisam.
Neste Dia Mundial da Psoríase, a mensagem é clara: a doença não é contagiosa, não está relacionada à falta de higiene e pode ser controlada com tratamento adequado. Reconhecer os sinais, buscar orientação profissional e combater a desinformação são passos importantes para melhorar a qualidade de vida de quem convive com a condição.
Mais do que olhar para as marcas, é preciso enxergar a pessoa. A informação ajuda a derrubar mitos; o acolhimento reduz o isolamento; e o acesso ao tratamento permite que cada paciente tenha melhores condições de cuidar da própria saúde e viver o cotidiano com mais segurança e bem-estar.
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