Na Capital, farmácias somam aumento de 80% na procura e preparam estoques para uma possível epidemia
O alerta de avanço da chikungunya em Mato Grosso do Sul começou a mudar a rotina da população e aquecer o comércio de produtos voltados à prevenção. Em farmácias, cresce a procura por repelentes, inseticidas e medicamentos para febre e dor. No Camelódromo de Campo Grande, vendedores relatam aumento nas vendas de raquetes elétricas e outros aparelhos usados no combate a mosquitos.
Em meio ao aumento da circulação do vírus e ao cenário mais crítico em municípios como Dourados, moradores têm reforçado os cuidados dentro de casa, intensificado a limpeza de quintais, eliminado recipientes com água parada e incorporado ao dia a dia medidas simples para tentar reduzir o risco de contaminação.
A vendedora Ana Carolina, de 36 anos, conta que a prevenção já faz parte da rotina da família, principalmente por causa da filha de 5 anos, que tem alergia a picadas de mosquito. “Em casa a gente usa muito repelente e também muito inseticida. Minha filha tem alergia a mosquito, qualquer picadinha já incomoda bastante. Então a gente já tem essas precauções”, relatou.
Segundo ela, a alta recente dos casos no Estado aumentou ainda mais a atenção da família. “Agora eu vou ficar bem mais atenta. Estava lendo hoje que está aumentando e que pode ter uma epidemia disso, então vou voltar a usar aqueles espirais, aquelas coisinhas antigas de vó, e trazer inseticida também para o trabalho”, disse.
A dona de casa Ana Carolina Fermina de Sousa também afirma que o aumento dos casos tem gerado preocupação. Para ela, os cuidados dentro de casa precisam ser redobrados. “A gente tem medo, porque está perigoso. Eu cuido da minha casa, não deixo água parada, sempre olho a caixa d’água e, se tiver algum foco, já limpo. Também tento usar repelente e veneno líquido”, contou.
A preocupação também atinge famílias com crianças e idosos. O motorista de aplicativo Voinei Agostine afirma que a atenção aumentou por conta do risco dentro de casa, onde convivem diferentes faixas etárias. Ao lado da mãe, Lourdes Agostine, ele resume o sentimento de muitas famílias neste momento. “A gente fica preocupado porque tem criança em casa, tem idoso em casa. Então cuida das plantas, não deixa a água empoçar e vai tomando os cuidados”, afirmou.
Segundo ele, o foco principal da prevenção ainda está no quintal e nos espaços externos, mas o cenário já faz a família pensar em reforçar hábitos no dia a dia. “Repelente até que não era algo tão frequente, mas agora já é uma boa ideia colocar mais na rotina. A atenção está redobrada, com certeza”.
Camelódromo registra aumento na procura por aparelhos contra mosquitos
O reflexo da preocupação chegou ao comércio popular. A reportagem esteve no Camelódromo da Capital e encontrou vendedores relatando aumento na busca por produtos usados no combate a mosquitos, principalmente raquetes elétricas e aparelhos luminosos. Em três lojas do mesmo proprietário, o vendedor Vinicius Fernandes afirma que a procura aumentou significativamente nas últimas semanas. “Bastante gente está procurando aqui no camelódromo. Se for comparar com o ano passado, aumentou cerca de 60%”, relatou.

Vendedor Vinícius
confirma alta procura
por raquetes elétricas – Foto: Nilson Figueiredo
Segundo ele, os itens mais procurados são justamente os usados para eliminar os insetos dentro de casa. “Raquete elétrica está vendendo bastante, e também aquela luz que atrai o mosquito. A gente até precisou trazer mais do estoque porque está saindo muito”, explicou.
Em outra loja, o vendedor Fernando Sousa também percebeu aumento nas vendas em comparação ao mês anterior. “O que mais aumentou foi a venda de raquete mesmo e também daqueles aparelhos elétricos. Do mês passado para esse, subiu cerca de 15% a 20%”, afirmou.
De acordo com ele, a alta é puxada pelo aumento da presença de mosquitos e pelo medo de doenças como dengue e chikungunya. “Por causa desses casos agora, o pessoal está procurando mais. A gente também procurou aumentar o estoque”, disse. Os preços variam de acordo com o modelo, mas os produtos mais buscados no local custam entre R$30 e R$35.
Busca por repelentes oscila nas farmácias
Nas farmácias, o cenário ainda varia conforme a região da cidade, mas parte do setor já percebe crescimento na demanda. Na Morena Farma, a estimativa é de aumento de cerca de 80% na procura por repelentes nos primeiros meses de 2026. No local, os produtos custam entre R$20 e R$45, dependendo da marca e da formulação.
Já na Farmania, a procura ainda não é considerada alta, embora a expectativa seja de crescimento nos próximos dias, acompanhando a maior divulgação do avanço da doença.
Na Farmácia Grupo Mais, o cenário é semelhante. Até o momento, não houve alta expressiva nas vendas, mas os repelentes seguem disponíveis em faixas de preço entre R$20 e R$60.
Diante da maior preocupação, a Rede Drogasil confirmou que Em campo grande, até o momento, a procura continua a mesma. Contudo, em Dourados, com o aviso da segurança nacional, está tendo um grande aumento da procura por repelentes e afins. Além de medicamentos voltados para o tratamento da chikungunya. A rede confirmou Estamos nos preparando para o aumento da procura aqui em Campo Grande, aumentando o estoque para melhor atender a população.
Além dos produtos de proteção, cresce também a busca por medicamentos voltados ao alívio de sintomas como febre, dores no corpo e mal-estar, comuns em casos suspeitos de arboviroses.
Farmacêuticos alertam para risco da automedicação
Para a presidente do CRF-MS (Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso do Sul), Daniely Proença, o aumento das notificações tem reflexo direto na rotina das farmácias, que passaram a receber mais pacientes em busca de orientação e alívio para sintomas associados à doença.
Segundo ela, mesmo sem gerenciar dados comerciais de venda, o conselho percebe entre os profissionais farmacêuticos um aumento na procura por medicamentos como analgésicos e antitérmicos, além de produtos de proteção individual. “Esse panorama se reflete diretamente nas farmácias, onde os profissionais farmacêuticos relatam uma percepção de fluxo maior de pacientes em busca de alívio para sintomas como febre e dores intensas. Há também uma tendência de aumento na procura por analgésicos, antitérmicos, como dipirona e paracetamol, além da busca preventiva por repelentes”, explicou.
Ela destaca que o medo da infecção também leva muitas pessoas sem diagnóstico a procurar produtos e medicamentos por conta própria, o que exige ainda mais atenção no atendimento. “É comum que esse medo leve pessoas sem diagnóstico a buscarem produtos de proteção, e o farmacêutico atua justamente para filtrar essas necessidades e evitar o uso desnecessário de medicamentos”, afirmou.
Entre as principais dúvidas levadas aos balcões das farmácias, estão a diferença entre os sintomas da chikungunya e da dengue, a forma correta de usar medicamentos e o momento ideal de procurar atendimento médico.
Daniely chama atenção, principalmente, para os riscos da automedicação em casos suspeitos de arboviroses. “A orientação é clara: o risco da automedicação em casos suspeitos pode ser grave. O uso de anti-inflamatórios como ibuprofeno e medicamentos com ácido acetilsalicílico, como a aspirina, pode mascarar sintomas ou até agravar o quadro clínico, especialmente se houver dengue associada”, alertou.
Segundo ela, a orientação correta, principalmente nos primeiros sintomas, é fundamental para evitar complicações. “O farmacêutico está à disposição da população para orientar sobre hidratação, repouso, uso correto dos medicamentos e também para indicar quando é necessário procurar um profissional de saúde para um diagnóstico adequado”.
MS lidera incidência de chikungunya no país
O comportamento da população e o aumento da procura por produtos de prevenção acompanham um cenário epidemiológico preocupante. Mato Grosso do Sul enfrenta uma situação de emergência diante do avanço da chikungunya.
Dados do Ministério da Saúde apontam que o Estado tem, atualmente, a maior incidência de chikungunya do país, com 122,7 casos a cada 100 mil habitantes, índice 11 vezes superior à média nacional.
Ao todo, Mato Grosso do Sul contabiliza sete mortes pela doença e 14 municípios estão em situação de epidemia, segundo o painel de arboviroses do Ministério da Saúde. Segundo informações do Diário Corumbaense, uma adolescente de 13 anos, de nacionalidade boliviana, morreu após dar entrada no Pronto-Socorro de Corumbá, na segunda-feira (30). A principal suspeita é de que o óbito tenha sido causado por dengue hemorrágica.
Ela era moradora de Puerto Quijarro, cidade boliviana na fronteira com o Brasil, e foi levada à unidade de saúde em estado grave. Apresentava quadro clínico debilitado, com sangramentos, e não resistiu. A Secretaria Municipal de Saúde informou que tanto a ficha de atendimento quanto a declaração de óbito foram encaminhadas às autoridades bolivianas para investigação e confirmação da causa da morte. O corpo da adolescente foi levado para a Bolívia.
Por Geane Beserra
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