NOTA SOBRE UM CISMA RECENTÍSSIMO

Josemar de Campos Maciel - Foto: divulgação
Josemar de Campos Maciel - Foto: divulgação

Cismas acontecem na história do cristianismo. São divisões por doutrina, jurisdição, influência e poder, o velho amigo e princípio de realidade humana a convocar a assembleia dos santos à autocrítica. Este momento, com uma declaração de ato cismático envolvendo um grupo ultraconservador, não é muito diferente. Procede-se assim (Sic proceditur): o grupo fustiga a grande Instituição; esta o adverte que, se executar o ato x, incorrerá na penalidade y. O grupo faz birra, viola o limite e é expulso. Com o tempo, pode consolidar-se como alternativa à grande Comunhão, disputando a ideia de Tradição, ou definhar, reduzindo-se em número, importância e potencialidade para aporrinhar. Mas o momento apresenta traços interessantes para nós da grande ecumene e para quaisquer seres humanos de boa vontade.

O primeiro é o agente deflagrador: a ordenação de bispos à revelia. O episcopado completa o sacramento da Ordem e vincula-se à transmissão do testemunho apostólico. Isso exige o escrutínio do sucessor de Pedro, neste momento o indômito Leão XIV. Bispos foram ordenados sem consultá-lo, configurando um ato de cisma. A coisa é tão complexa que não podemos proclamar que isso configura um cisma, atenção! Um cisma é uma fratura definitiva. Apenas podemos atestar que ela foi deflagrada. Diante de um ato desse porte, que implica ruptura e quebra de hierarquia, a excomunhão é automática.

Eis aqui o segundo traço. O Dicastério para a Doutrina da Fé, coordenador autorizado da vocalidade eclesiástica, avisou que a excomunhão automática (latae sententiae) atinge ordenantes, ordenados e fiéis que os sigam. Para além de uma diatribe por jurisdição, isso implica um deslocamento de placa tectônica na comunhão eclesial. O que nos traz a mais dois traços, de subtexto gravíssimo.

O terceiro traço é dado pelas impressionantes credenciais financeiras e geopolíticas dos grupos ultraconservadores. O grupo em rota cismática promove suas performances num dos países mais ricos da Europa, conectado a fundos transnacionais imensos e a governos intervencionistas. Um cardeal muito simpático a esse movimento, suficientemente estratégico para não romper formalmente com Roma, é muito próximo de Washington e abençoa as guerras e o saque de recursos em nome da democracia. Outro cardeal (cardeais são bispos, entendamo-nos) atua desde a África, trovejando contra reformas litúrgicas e tenta sequestrar a adesão de outros cardeais europeus para assinar seus libelos. Quase conseguiu a assinatura de Bento XVI, que a retirou a tempo, desautorizando-o.

O que nos conduz ao traço mais perigoso da questão que envolve a ordenação de quatro velhinhos amorosos, em latim, comunhão na boca etc., que tanto agrada aos militantes desavisados. O grupo cismático, em textos discretos e posicionados cirurgicamente, sugere a revogação do Concílio Vaticano II (1962–1965). Há católicos no Brasil que ecoam essa ideia, esposando a tese de que um concílio “pastoral” não é “vinculante”. A manobra é tão sutil e agressiva que desafia a história das heresias. Tratar-se-ia de concilioclastia?

De qualquer forma, é a tentativa de devolver o Catolicismo romano, interlocutor crítico do mundo moderno, à posição do Concílio de Trento (1545–1563). Isso reduz o potencial católico para construção de pontes com os movimentos políticos e intelectuais globais. É um grave cisma de quem deseja virar as costas, em latim e com muito dinheiro, a tudo o que aconteceu na história do combalido Ocidente. Felizmente, Leão percebeu e rugiu firme. Para mais dados, sigamos a Santa Sé. E sigamos.

Josemar de Campos Maciel é Doutor em Psicologia (PUC-Campinas) e professor dos Programas de Pós-Graduação em Desenvolvimento Local e Psicologia da UCDB. E-mail: maciel50334@yahoo.com.br

Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS

 

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