Ela foi chamada de rebelde, moderna demais e à frente do seu tempo. Nos anos 1920, em Campo Grande, Lídia Baís rompeu com o destino doméstico reservado às mulheres: pintava, dirigia automóveis, vestia-se de forma ousada e mergulhava na filosofia e na arte. Seu crime? Existir fora da jaula dourada do patriarcado. A punição? O confinamento. A família, constrangida por sua transgressão, internou-a por anos em uma clínica na Europa, num gesto cirúrgico de correção social. Quase um século depois, a pergunta que ecoa dos mesmos rincões de Mato Grosso do Sul é: o que mudou? Se antes se internava o corpo feminino para curar a rebeldia, hoje, na mesma terra, ainda se mata a mulher pela ousadia de existir.
O último relatório anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública escancara um país onde a violência de gênero atinge níveis epidêmicos. O Brasil segue na triste lista das nações com as maiores taxas de feminicídio da América Latina. Mato Grosso do Sul, infelizmente, encontra-se em posição de destaque nesse ranking macabro, com taxas que frequentemente superam a média nacional, especialmente em cidades do interior, onde o cerrado encontra a linha da fronteira, e o isolamento geográfico amplifica o isolamento da vítima diante do agressor. Segundo Dossiê de Feminicídio (MPMS, 2026), o total de ocorrências realizadas entre os anos de 2015 e 2026 chegou em 1.113 feminicídios, sendo 354 consumados e 759 tentados.
É como se a cultura paternalista e misógina, que no passado autorizou a família de Lídia a sequestrar sua liberdade sob o manto da proteção, hoje evoluísse para sua forma mais letal: a permissão social tácita para desqualificar, violentar e, finalmente, aniquilar o feminino. Como nos lembra a historiadora Lilia Schwarcz (2018), testemunhamos cotidianamente formas explícitas de assédio moral numa sociedade patriarcal e machista. O que vemos é a extensão dessa lógica ao direito de posse sobre o corpo da mulher. Se o corpo feminino é visto como território a ser conquistado ou tutelado, a reação à sua autonomia, seja ela política, sexual ou afetiva é a violência corretiva.
Aqui, a articulação com o meio acadêmico torna-se não apenas necessária, mas urgente. O drama de Lídia Baís não é uma simples curiosidade histórica; é um objeto de estudo que dialoga com o presente. As universidades e centros de pesquisa de MS têm o dever de transformar a comoção social em produção de conhecimento aplicado. É preciso ir além da estatística e investigar as raízes profundas desse fenômeno. Por que o homem sul-mato-grossense em sua construção cultural tem recorrido ao extermínio como resposta à frustração? Onde o mito do homem provedor, que esconde uma profunda frustração de gênero, se encontra com a cultura de fronteira e a prevalência de armas de fogo para gerar um cenário tão explosivo?
A universidade precisa ocupar as praças, as escolas e as delegacias com dados, mas também com escuta. Não podemos tratar o feminicídio apenas como uma falha de segurança pública, mas como um sintoma de um tecido social doente, que ainda ensina os meninos a dominar e as meninas a obedecer. A internação de Lídia Baís foi a forma que a sociedade encontrou para silenciar uma voz dissonante. Hoje, o silêncio é imposto pela bala, pela faca ou pelo espancamento. A transgressão de Lídia foi pintar. A transgressão das milhares de mulheres mortas no Brasil é, muitas vezes, simplesmente tentar recomeçar a vida longe de seus agressores.
Diante disso, cabe a nós, formadores de opinião, pesquisadores e cidadãos, um papel ativo. Precisamos desnaturalizar a violência. Se no passado a família de Lídia se sentiu no direito de trancafiá-la para preservar uma honra, hoje precisamos perguntar: ainda estamos, coletivamente, trancafiando nossas mulheres em relações abusivas sob o véu da privacidade do lar? A memória de Lídia Baís, a rebelde, não pode ser apenas uma nota de rodapé nos livros de arte. Ela deve ser um farol a nos lembrar de que, em Mato Grosso do Sul, a luta pelo direito de existir com autonomia ainda está longe de terminar, e que, quando falhamos como sociedade, a rebeldia de ontem é o feminicídio de hoje.
Carolina Mendonça é mestranda em Psicologia (UFMS) e Professora no curso Psicologia, da Universidade Anhanguera-Uniderp. E-mail: carolina.mendonca.psic@gmail.com
Glauce Soares Casimiro é Mestra em Educação (UFMS) e Professora dos Cursos de Pedagogia e Psicologia, da Universidade Anhanguera-Uniderp. E-mail: gscasimiro1@gmail.com
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.