Leituras criticas sobre o Turismo no Mato Grosso do Sul na perspectiva das ciências humanas

Foto: arquivo pessoal
Foto: arquivo pessoal

As ciências humanas, em sua diversidade de leituras, têm realizado instigantes análises da atividade turística, principalmente sobre seu significado para a produção dos lugares. Entre as ciências humanas, a Geografia tem desempenhado papel fundamental na compreensão do turismo no estado de Mato Grosso do Sul, analisando-o como uma prática social que produz, transforma e reorganiza o espaço geográfico. Diferentemente das abordagens que enfatizam apenas os benefícios econômicos da atividade, a perspectiva geográfica busca compreender as relações de poder, os conflitos territoriais e os processos de apropriação do significado da natureza envolvidos na expansão do turismo. Dessa forma, o turismo é entendido como um fenômeno que modifica paisagens, redefine usos do território e influencia a dinâmica socioespacial das regiões onde se desenvolve.

No Mato Grosso do Sul, os principais estudos geográficos concentram-se em áreas de forte atratividade turística, como a região turística polarizada por Bonito e o Pantanal. Nessas localidades, a natureza constitui o principal recurso turístico, sendo transformada em elemento central para a geração de renda e para a inserção dos municípios nos circuitos econômicos nacionais e internacionais. É importante salientar que as recentes ações voltadas para o reordenamento territorial do MS, com destaque para a construção das obras de infraestrutura do Corredor Bioceânico, indicam a ampliação física da interligação entre o Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, e a possibilidade de consolidar uma ligação de transporte através do oceano Pacifico com os países do continente asiático, gerando novas possibilidades estruturais para o Mato Grosso do Sul, com perspectiva para a ampliação do fluxo turístico.

Essa dinâmica produz importantes transformações territoriais. A infraestrutura turística, a expansão de serviços especializados e a crescente demanda por áreas de preservação alteram os usos do solo e as formas de ocupação do território. Embora frequentemente associadas ao “desenvolvimento sustentável”, tais mudanças nem sempre beneficiam os diferentes grupos sociais afetados por estas transformações. É fundamental destacar que a valorização turística de determinados espaços pode gerar processos de exclusão, concentração fundiária e restrições de acesso a recursos naturais anteriormente utilizados pelas populações locais.

Outro aspecto relevante refere-se à produção das paisagens turísticas. A Geografia compreende a paisagem como resultado das relações históricas entre sociedade e natureza. No turismo, determinadas características ambientais são selecionadas e promovidas como atrativos, enquanto outras dimensões da realidade local permanecem invisibilizadas. No caso do Mato Grosso do Sul, a divulgação de imagens associadas à conservação ambiental, às águas cristalinas e à biodiversidade contribui para a construção de uma representação idealizada do território, narrativa que frequentemente oculta conflitos relacionados ao uso da terra, à expansão das atividades econômicas e às desigualdades socioespaciais presentes na região.

Aspecto relevante é o fato de o turismo integrar os processos de globalização. Os destinos turísticos sul-mato-grossenses são inseridos em redes nacionais e internacionais de circulação de pessoas, capitais e informações, e de decisões tomadas por agentes externos, como empresas e investidores, que podem influenciar diretamente a organização do território local. O espaço turístico deixa de ser apenas um local de visitação e passa a ser compreendido como produto de múltiplas relações econômicas e políticas, voltadas para interesses de grupos empresariais com fortes demandas internacionais de capital.

A leitura geográfica do turismo no Mato Grosso do Sul permite compreender que a atividade não se limita à exploração econômica das potencialidades naturais. Trata-se de um processo de produção do espaço que envolve disputas territoriais, valorização seletiva das paisagens e diferentes formas de apropriação da natureza. Ao evidenciar essas contradições, a Geografia contribui para uma análise das contradições presentes na produção dos lugares pela atividade turística.

Edvaldo Cesar Moretti é Doutor em Geografia. Docente Titular da UFGD. Atua nos cursos de graduação e pós graduação em Geografia da UFGD e da UNIOESTE-Marechal Cândido Rondon. E-mail: edvaldomoretti@ufgd.edu.br

Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.

 

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