“Valeu a pena”: O ‘Bom Sujeito’ se despede, mas deixa lição: “temos que viver e aproveitar!”

Foto: Reprodução
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Tiago Pitthan ficou conhecido por organizar um ‘velório em vida’ e reuniu amigos e família

Conhecido por celebrar a vida, mesmo que em sua finitude, o advogado e turismólogo Tiago Martins Pitthan, de 47 anos, deixou o mundo na noite deste domingo (5), assim como viveu seus últimos dias: de forma serena, desapegado e com a certeza de que aproveitou o tempo que lhe restava, ao lado da família e dos entes queridos. Ele possuía um grave câncer, que não possibilitava chance de cura ou tratamento.

Em seu perfil nas redes sociais, local onde compartilhou toda a sua jornada, Tiago publicou um vídeo, no momento em que estava internado em um hospital particular de Campo Grande, anunciando que a equipe médica havia solicitado a presença de sua família no local, o que indicava uma possível complicação de seu quadro.

Debilitado, Tiago levou seus últimos momentos com a consciência tranquila. “Só para falar para vocês não se preocuparem. Tô bem, tô em paz, tô em paz, valeu a pena. Tudo valeu a pena. Tive uma vida boa e venci. Vivendo, eu venci, venci todos os dias; a vida valeu. Um beijo do Bom Sujeito”, disse na publicação.

A morte foi confirmada na manhã desta segunda-feira (6). O velório foi realizado no Memorial Park, com término às 16h. Segundo informações, ele optou pela cremação.

Tiago era conhecido como ‘O Bom Sujeito’, pela vida leve que tinha. Amigo há aproximadamente 20 anos de Tiago, o produtor Renato Heimbach comentou que ele era ateu, mas que cada mensagem enviada rezando pela sua recuperação era recebida com muito carinho. Como a mãe era Cristã, Tiago deixou as organizações do velório por sua conta, já que considerava o ‘velório em vida’ como sua despedida oficial.

Renato contou à reportagem que a ideia do amigo para a celebração — da qual ajudou a organizar — surgiu após a morte do próprio pai. Há um ano, mais ou menos, o pai dele faleceu. Ele foi cadeirante por anos, então havia perdido o contato com vários conhecidos. O Tiago, que já havia recebido o diagnóstico do câncer, não queria aquilo para ele, ele gostaria de poder conversar com as pessoas que amava, de dizer adeus”.

Para o velório em vida, Tiago conseguiu reunir tantas pessoas que, no final, o evento chegou a fechar a rua. Uma das mais aguardadas era o irmão, que veio de Portugal para a celebração.

“Tiago passou a mensagem de que tinha que aproveitar a vida. Era uma pessoa diferente, muito expansiva, que junta as pessoas. Quando recebeu o diagnóstico, estava em um dos piores momentos da vida e, ao contrário do esperado, decidiu viver a vida ao máximo”, relembrou Renato.

Para ele, Tiago deixou uma das mensagens mais importantes. “Estamos vivos e temos que viver. Não temos noção de quanto a vida é preciosa e como ela pode acabar de repente. Ele quis tentar viver”.

Mensagem

Atleta amador, Tiago também era conhecido pelo espírito aventureiro, detalhe que não foi perdido após o diagnóstico, já que ele chegou a realizar o sonho de saltar de paraquedas. Entretanto, Renato ressaltou que o amigo também tinha desejos pequenos, como momentos com amigos e familiares, dos quais conseguiu realizar no último um ano e meio. “Eram pequenos sonhos: momentos com amigos e familiares que sempre deixava para depois”.

No velório, Renato relatou que alguns amigos combinaram de ir de roupas coloridas, para representarem a alegria de Tiago. A família não quis falar com a reportagem, permanecendo o tempo todo ao lado do caixão. A namorada de Tiago estava sentada com um buquê de girassóis, com um dos chapéus dele no colo. Ao fundo, um samba raiz tocava, uma das paixões do Bom Sujeito.

O amigo destacou ainda para a reportagem que acredita que o velório em vida irá inspirar outras pessoas que passam por esse momento difícil. “No dia da celebração, tinham pessoas que o conheceram pela internet, que viajaram só para vê-lo. Também teve pessoas que perderam parentes, seja para o câncer ou para outras doenças, e falaram: ‘Acho que essa pessoa também gostaria de ter tido uma despedida assim. Eu gostaria de ter tido essa ideia’. Vi vários amigos falando sobre isso”.

Com carinho, ele relembra do jeito ‘espalhafatoso’ do amigo de longa data, mas que também prezava por pequenos momentos do cotidiano. “Às vezes, a vida, o trabalho e os problemas fazem com que a gente não tenha tempo para os pequenos prazeres. Aproveitar a vida não é só fazer grandes gestos, como praticar esportes radicais. Às vezes, é estar com os amigos, estar com as pessoas de quem você gosta, algo que a rotina e o dia a dia muitas vezes não permitem. O trabalho e outros problemas que a vida nos apresenta acabam tomando esse espaço”.

Alegria para se despedir

“Eu tenho câncer, mas o câncer não me tem”. É a partir dessa frase que o advogado e turismólogo Tiago Martins Pitthan, de 49 anos, passou a ressignificar a própria trajetória após receber, em 2024, o diagnóstico de câncer de estômago. Ao longo dos meses, a doença avançou e chegou a um estágio sem possibilidade de cura, levando o profissional a encarar a morte não como um fim abrupto, mas como parte do ciclo natural da vida.

O ‘Velório em Vida – A Despedida do Bom Sujeito’ reuniu pessoas próximas em um encontro marcado pela música e pela confraternização. “Quero festejar, rir e viver esse momento com vocês. Não quero ser apenas um corpo em um caixão; quero estar presente, junto, vivendo a minha despedida com alegria”, disse a época em entrevista ao Jornal O Estado.

Mesmo após o diagnóstico, Tiago manteve uma visão otimista da vida e reforçou que sua forma de encarar o cotidiano sempre foi guiada por leveza e positividade.

“Meu apelido de ‘Bom Sujeito’ não é por acaso, porque sempre procurei ser um cara positivo, bem com a vida. Eu gosto muito de uma frase de Antonio Machado que diz que o caminho se faz ao andar, e eu sempre levei isso comigo. Agora isso ficou ainda mais forte. Quero aproveitar mais o dia a dia, estar mais perto dos meus amigos e da minha família. No fim, o que importa não é o destino, mas com quem a gente está caminhando e como a gente vive essa trajetória”.

Tiago também acreditava que a forma como compartilhava sua experiência poderia ajudar outras pessoas a refletirem de maneira diferente sobre a morte, ainda tratada como tabu por muitos.

“Eu acredito muito nisso, e é isso que me move hoje. Não é uma situação fácil, eu tenho um câncer terminal e provavelmente vou morrer por causa dele, mas sigo vivendo o presente. Algumas pessoas perguntam como é estar morrendo, e eu digo que não sei, porque estou vivendo. Eu vou morrer uma vez só, e espero que tudo isso faça parte do meu legado e da forma como vão se lembrar de mim”.

O Jornal O Estado lamenta a perda e oferece condolências a família.

 

Por Carolina Rampi

 

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