Uma Mãe pelo Avesso: combinando circo, teatro e poesia, espetáculo solo transforma a experiência da maternidade real

Foto: Desiko Produções/Divulgação
Foto: Desiko Produções/Divulgação

 

A maternidade real, com suas contradições, cansaço e afetos intensos, ganha espaço no palco no espetáculo circense “Uma Mãe pelo Avesso”, que iniciou sua circulação por cidades do interior de Mato Grosso do Sul. A montagem, interpretada pela artista Maria Sato, combina elementos do circo e do teatro para apresentar ao público uma narrativa sensível e bem-humorada sobre os desafios cotidianos de ser mãe.

Após estrear no dia 13 de março, a produção segue em turnê até o dia 20, com apresentações gratuitas em Bonito, Miranda e Jardim. A proposta é levar arte e reflexão para diferentes comunidades, convidando o público a olhar para aspectos da maternidade que raramente aparecem em retratos idealizados.

As próximas apresentações acontecem em diferentes espaços comunitários e culturais. No dia 15 de março, o público poderá assistir à montagem na Quadra Esportiva da Comunidade Aldeia Lagoinha, em Miranda (MS), às 17h30. Já no dia 16 de março, o espetáculo será apresentado no Instituto Família Legal, em Bonito (MS), às 15h.

Encerrando a circulação, a peça chega à cidade de Jardim (MS) no dia 20 de março, com sessão às 18h, na ONG Arte Viva, localizada na Rua Ceará, nº 351. Todas as apresentações têm entrada gratuita e classificação livre.

Inspirada em experiências pessoais da própria artista, que também é mãe solo, a obra transforma vivências íntimas em material cênico, utilizando a linguagem circense para tratar, de forma poética e reflexiva, temas como exaustão, afeto e imperfeições da maternidade.

Dores em voz alta

Para a reportagem, a artista circense Maria Sato, levar a maternidade para o palco significou transformar vivências pessoais em linguagem artística. Mãe solo e intérprete do espetáculo, ela utiliza a cena como espaço de reflexão e partilha, explorando sentimentos que atravessam o cotidiano de muitas mulheres.

“Transformar minhas experiências como mãe solo em material cênico foi um processo intenso e também libertador. A maternidade traz sentimentos muito contraditórios: existe um amor profundo, mas também exaustão, medo, culpa e solidão. No espetáculo, procurei olhar para tudo isso com honestidade, trazendo situações que muitas mães reconhecem, mas que nem sempre são ditas em voz alta. A cena se tornou um espaço para elaborar essas vivências e dividir com o público uma visão mais real da maternidade”.

A diretora do espetáculo, Marina Prado, explica que o processo de criação partiu da proposta de refletir sobre aquilo que raramente é discutido quando se fala em maternidade.

“Partimos dessa ideia de olhar para o outro lado da maternidade, aquele que quase não aparece quando tudo é romantizado. É claro que existe amor, mas também existe cansaço, medo e momentos em que percebemos que a realidade é diferente do que nos contaram. Muitas mães têm receio de falar sobre esses sentimentos, como se fosse errado, mas eles também fazem parte da experiência”, conta a diretora.

Segundo ela, os encontros de trabalho começaram com a pergunta central que orienta a dramaturgia: o que significa ser uma “mãe pelo avesso”? A partir dessa provocação, a equipe buscou explorar o contraste entre a imagem idealizada da maternidade e as experiências reais vividas por muitas mulheres.

“No espetáculo, buscamos trazer esse olhar de forma poética e artística, misturando palavra, movimento, dança, palhaçaria e acrobacia. O equilíbrio na cena também ganha um sentido simbólico, porque, assim como no circo, a mãe está sempre tentando equilibrar muitas coisas ao mesmo tempo na vida”, completa.

Arte Circense

Conduzir um espetáculo sozinha no palco exige concentração e entrega constantes. Na montagem, Maria é responsável por manter o ritmo da narrativa e estabelecer a conexão com o público, utilizando principalmente o corpo e a presença cênica para transmitir emoções complexas que atravessam a história.

“O maior desafio de um espetáculo solo é sustentar toda a energia da cena, porque não há outros atores para dividir o ritmo ou a atenção do público. Tudo passa muito pelo meu corpo e pela minha presença. Mas, mesmo estando sozinha no palco, existe uma equipe muito importante por trás”, afirma.

Segundo ela, sentimentos como exaustão, culpa e afeto ganham forma por meio da expressão física e da relação direta com quem assiste.”Conto com o trabalho do sonoplasta Simón Prada, com o olhar sensível da diretora Marina Prado e com a produção de Agustina Colombo. Essa rede criativa é fundamental para dar vida ao espetáculo”.

Mensagem

Marina destaca que abordar a maternidade no palco também representa uma forma de acolher e dar visibilidade a experiências vividas por muitas mulheres. Segundo ela, o espetáculo dialoga especialmente com mães que enfrentam diferentes desafios no cotidiano, como a sobrecarga, a culpa e as dificuldades de conciliar responsabilidades.

“Esse espetáculo foi pensado para chegar também a mulheres que vivem o maternar em diferentes realidades, como mães solo ou mães da periferia, que muitas vezes carregam sentimentos de culpa ou cansaço e não encontram espaço para falar sobre isso”, ressalta a diretora.

Maria explica que o espetáculo propõe ao público uma experiência que mistura humor, identificação e reflexão. A obra não oferece respostas prontas, mas convida a olhar para a maternidade com empatia e compreensão, revelando suas contradições e complexidades de forma sensível e envolvente.

“Conciliar a criação do espetáculo com a maternidade foi um grande desafio, mas também fez parte do processo criativo. Muitas vezes os ensaios aconteciam entre as demandas do dia a dia, nos intervalos possíveis, lidando com cansaço e a imprevisibilidade da rotina com uma criança.A maternidade não foi um obstáculo, mas uma força que impulsionou o trabalho e deu sentido ao que eu queria colocar em cena”, finaliza.

A montagem é um espetáculo solo circense protagonizado por Maria Sato, sob direção de Marina Prado, com produção da Desiko Prod. A obra conta ainda com arte visual de Pronpuri, trilha sonora de Simón Prada com participação de Edgar Salarini, e figurino e cenografia de Maria Neves. Recebe apoio da Espiral Arte Movimento e Visão de Vida, e é realizada pela Fundação de Cultura de MS.

O projeto foi viabilizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, e operacionalizado pelo Governo de Mato Grosso do Sul através da Fundação de Cultura do estado, reforçando a importância do acesso à cultura e à reflexão sobre a maternidade em suas diversas formas.

 

Amanda Ferreira

 

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