Tucco Pitanga, ganha o mundo!

Foto: Marlene Freitas/Divulgação
Foto: Marlene Freitas/Divulgação

Entre fotografia, moda e arte, artista de MS leva seu trabalho para galerias, revistas, festivais e premiações internacionais

Quem é de Mato Grosso do Sul sabe que, muitas vezes, crescer por aqui também significa aprender a atravessar fronteiras. É desse território que parte o artista sul-mato-grossense Tucco Pitanga, que vem ampliando sua atuação para além do Estado ao conectar arte, moda e fotografia em projetos autorais e editoriais. Como fotógrafo e diretor criativo, ele transforma referências brasileiras em trabalhos que têm alcançado novos públicos e espaços.

O artista foi destaque na revista internacional EBN, com foco na representatividade negra nos mais diversos aspectos, nos últimos meses, seu trabalho começou a circular por galerias, revistas nacionais e internacionais, premiações de fotografia, festivais e grandes eventos. Entre esses reconhecimentos estão a participação em uma galeria internacional, a capa da revista DBN e a seleção para o Prêmio Internacional FotoDoc 2026, na categoria de fotografia documental.

Nascido em Campo Grande, Tucco também atua como estilista e historiador, incorporando à produção artística elementos relacionados ao território e à memória. As influências familiares, especialmente das mulheres que fizeram parte de sua formação, aparecem como parte importante de seu olhar sobre criatividade, fotografia e construção de identidade.

Em sua produção, referências afro-brasileiras, latino-americanas e sul-mato-grossenses se encontram com uma estética contemporânea. Ao transformar essas experiências em imagens, roupas e projetos criativos, Tucco Pitanga busca ampliar as narrativas sobre o país e fortalecer a presença de artistas que desenvolvem sua produção fora dos grandes centros.

Identidade

Para o jornal O Estado, Tucco Pitanga contou que o projeto “Tucco Pitanga — Abre Caminhos” nasceu da vontade de ampliar sua trajetória artística e criar novas possibilidades para a produção cultural de Mato Grosso do Sul. A proposta aproxima moda e fotografia e parte da relação do artista com o território, transformando experiências e referências locais em linguagem visual.

“O projeto nasceu da vontade de criar novas possibilidades para minha trajetória e também para a arte produzida no meu Estado. A moda me impulsiona e a fotografia é a maneira como observo o mundo. Quando uni essas duas linguagens, percebi que poderia contar minhas próprias histórias por meio da roupa, do corpo e do território. Mato Grosso do Sul está presente nesse processo, e abrir caminhos também significa levar minha origem comigo e ajudar a criar novas oportunidades para outros artistas”, conta.

Em seus trabalhos, o artista procura apresentar o território para além de imagens estereotipadas, destacando diferentes experiências culturais e sociais que fazem parte de sua origem.

“Levar MS para outros espaços é uma responsabilidade enorme. Quero que meu trabalho carregue as memórias, as pessoas e as culturas que formam esse território. A ancestralidade e a cultura afro-brasileira não estão ali apenas como estética, mas como parte da minha história. O mais importante é mostrar que daqui também surgem trabalhos capazes de dialogar com o Brasil e com o mundo e, principalmente, abrir espaço para que outros artistas do Estado também possam chegar”, afirma.

Processo criativo

O artista busca referências em livros, poemas, outros criadores e também na rotina de Campo Grande, transformando inquietações e percepções do cotidiano em trabalhos que transitam por diferentes linguagens.

“Meu processo é muito ligado à existência e começa, muitas vezes, por uma inquietação. Gosto de observar, pesquisar e deixar as ideias amadurecerem antes de criar. Cada linguagem também tem uma forma própria de comunicar: a moda pode construir uma narrativa por meio de uma coleção, enquanto a fotografia registra e traduz outros sentidos. O que procuro é usar cada uma delas para expressar aquilo que me provoca e construir uma mensagem que tenha significado”, detalha.

Tucco complementa que evita moldar seus trabalhos às expectativas do mercado ou de premiações e prefere desenvolver ideias a partir de suas próprias inquietações, sem estabelecer limites prévios para o resultado.
“Não quero começar um trabalho pensando no que uma revista, o público ou o mercado espera de mim, porque isso pode limitar minha criatividade. Quero mostrar que, a partir do nosso território, também existem artistas que pensam, pesquisam e produzem conhecimento. Minha intenção é criar trabalhos que provoquem as pessoas e ofereçam outras maneiras de enxergar o mundo”.

Representatividades

Tucco contou que as parcerias ao longo da carreira tiveram papel importante em sua formação, especialmente a colaboração com o estilista Dih Oraes. A experiência também ampliou sua percepção sobre representatividade e sobre a possibilidade de artistas negros e de diferentes territórios ocuparem espaços de destaque no cenário nacional e internacional.

“Trabalhar com Dih Oraes foi muito importante para mim, não apenas pela parceria profissional, mas também pelo que pude aprender com sua trajetória. Hoje, estou vivendo uma nova fase, mais conectada à minha identidade, à espiritualidade e ao território. Também estou ampliando minha atuação para o audiovisual e preparando um curta-metragem com proposta de circulação internacional. Ainda não posso revelar muito, mas é um projeto no qual acredito bastante”.

Conquistar visibilidade fora de MS, em alguns momentos, acabou sendo mais acessível do que obter reconhecimento no próprio Estado. A experiência fez o artista questionar a distribuição de espaço e investimento entre diferentes áreas da cultura e reforçou sua decisão de buscar novos caminhos sem abandonar suas raízes.

“Às vezes, sinto que preciso sair do Estado para ser reconhecido como artista, e isso me faz refletir sobre quais linguagens recebem mais espaço por aqui. Em vez de me afastar, essa dificuldade aumentou minha vontade de ocupar esses lugares. Hoje me vejo como um artista sul-mato-grossense, mas também como um artista brasileiro, levando nossa cultura para outros países. Minha arte virou uma forma de resistência e de afirmar que estamos aqui, criando e produzindo cultura”, revela.

Tudo isso ganha um significado ainda maior quando Tucco lembra de onde veio: um bairro periférico de Campo Grande, uma universidade pública e a rotina de quem usava transporte público. Em pouco tempo, se viu em uma galeria internacional, na capa de uma revista, recebendo um prêmio de fotografia e sendo convidado para entrevistas e festivais.

“É tudo muito grande e aconteceu muito rápido. Mas, para mim, o mais importante é poder ir cada vez mais longe sem deixar quem eu sou para trás, levando comigo todas as minhas vivências e o território de onde eu vim”, finaliza.

 

Amanda Ferreira

 

 

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