Trânsitos e percursos da música: Radamés Gnattali e Mato Grosso do Sul

Evandro Higa - Especial da Casa

As conexões que vinculam Mato Grosso do Sul ao Rio Grande do Sul vão além das questões ligadas a processos migratórios e ao agronegócio. O que o compositor Geraldo Roca chamou de “música do litoral central” se refere a um contexto histórico, social e cultural em que as culturas musicais da região sul do Brasil, de Mato Grosso do Sul e dos países fronteiriços Paraguai, Argentina e Uruguai, dialogam entre si como uma representação metafórica da extensa rede fluvial da Bacia do Prata.

Diversos autores vão também fazer referências a uma América Platina integrada por essa vasta região em que tradições e hábitos permitem vislumbrar complexos processos que as ciências humanas vem estudando há um tempo. As musicalidades trocadas pelas populações desses lugares implicam em apropriação, mistura e resignificação de gêneros musicais (polca paraguaia, guarânias, chamamés, vaneiras, etc.), além do trânsito de artistas que circularam e circulam nesses percursos estabelecendo trocas e negociando identidades.

No entanto, nem sempre esses caminhos parecem atender a uma lógica aparente, configurando-se quase como obra do acaso. São encontros que pareciam improváveis mas que aconteceram. Um exemplo que podemos eleger é o do maestro, pianista e compositor Radamés Gnattali e nosso Mato Grosso do Sul.

Nascido em Porto Alegre em 1906 e falecido no Rio de Janeiro em 1988, Gnattali foi o principal maestro arranjador da Rádio Nacional por mais de 30 anos, tendo criado a célebre introdução do samba exaltação “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso em 1939. Filho de imigrantes italianos apaixonados por ópera, seu nome Radamés foi inspirado no herói da ópera “Aída” de Verdi.

Inclusive, sua irmã mais nova recebeu também o nome de Aída. Ambos estudaram piano no Conservatório de Música de Porto Alegre e, paralelamente, o jovem Radamés participava ativamente da cena de música popular da cidade, seja tocando cavaquinho em serestas e blocos carnavalescos, seja tocando piano para acompanhar a projeção de filmes mudos em preto e branco. Ao alcançar a maioridade, Radamés mudou-se para o Rio de Janeiro e ali construiu uma sólida carreira transitando com desenvoltura entre o universo da música popular e da música erudita.

Aí entra Mato Grosso do Sul na estória.

Quando foi feita a divisão do antigo Mato Grosso, em 1977, instituíram um concurso público para escolha da melodia do hino do novo estado da federação. No final de 1978, a composição de Gnattali foi a melodia vencedora, que em seguida recebeu letra de Jorge Antonio Siufi e Otávio Gonçalves Gomes.

Quase dois anos depois, Gnattali se apresentou no Teatro Glauce Rocha juntamente com o conjunto de choro Camerata Carioca como parte do circuito Projeto Pixinguinha, que percorria o país. A Camerata Carioca foi criada em 1979 como fecunda parceria entre Gnattali e o bandolinista Joel Nascimento. A união entre eles rendeu diversos LPs, entre eles um pelo qual tenho muito carinho, intitulado “Vivaldi & Pixinguinha”, de 1980, que inclui uma transcrição do Concerto Grosso op.3 n.11 de Vivaldi e diversos choros e polcas de Pixinguinha, Anacleto de Medeiros e Henrique Alves de Mesquita. Um primor!

Tive o privilégio de assistir ao show no Glauce Rocha em agosto de 1980. Era o último de uma extensa turnê que havia percorrido várias cidades do país durante algumas semanas. Radamés, no velho “piano da vida” e os jovens chorões da Camerata Carioca, deram um espetáculo de musicalidade e virtuosismo. Ao final, fui tietar nos bastidores e o velho e bonachão (embora sério) Radamés veio se desculpando por não ter tocado bem naquela noite. Imagina!… Alegou que há semanas não conseguia estudar piano por conta das viagens e que sem estudar diariamente seu rendimento musical caía muito… Fiquei admirado com sua humildade e mais ainda pelo nível de exigência consigo mesmo.

Na noite seguinte, minha querida amiga e colega na Academia de Música Marina Rêgo Lopes, a pianista Cássia Virgínia Coelho de Souza deu um belo recital no Paço Municipal de Campo Grande intitulado “Alma Brasileira”, exclusivamente com obras de compositores nacionais e adivinhem quem foi assistir? O próprio maestro Radamés Gnattali, que ainda não havia retornado para o Rio de Janeiro!

 

Arquivo Pessoal

 

Alguns anos depois, quando eu fazia minha graduação em piano no Conservatório Brasileiro de Música, minha professora Maria Guilhermina, através de vínculos de amizade com dona Aída Gnattali (a irmã do maestro), conseguiu os manuscritos de uma obra que ainda não tinha sido tocada: Brasiliana n.12 para dois pianos e orquestra de cordas, composta em 1968.

A partitura ainda estava na grade de orquestra e dona Aída fez as cópias das partes cavadas para os instrumentos e acertamos de estrear com a orquestra do Conservatório, tendo dona Maria Guilhermina e eu como pianistas. Uma certa noite, quando iniciávamos os ensaios, dona Maria Guilhermina recebeu Radamés Gnattali em seu apartamento de Copacabana e ali tivemos uma noite agradável, embalada pela música executada pelo maestro no piano Blüthner da minha professora. Mais uma vez fiquei maravilhado com seu virtuosismo, musicalidade e versatilidade, que transitava da música erudita à popular com muita naturalidade.

Algum tempo depois, Gnattali sofreu um derrame que o deixou com a mobilidade bastante comprometida e o concerto foi adiado e, com seu falecimento, acabou cancelado.

Passados muitos anos, já docente no curso de música da UFMS, vasculhando meus guardados, descobri no fundo do armário as cópias cavadas da Brasiliana 12 e propus ao maestro Eduardo Martinelli, da Orquestra Sinfônica de Campo Grande, que tocássemos a obra. Proposta imediatamente aceita, juntamente com meu colega e pianista Marcus Medeiros, ensaiamos e apresentamos em concerto no Teatro Glauce Rocha em 25 de agosto de 2016.

Como até então ninguém havia tocado essa Brasiliana, quis o universo que ela fosse estreada aqui, em primeira audição, quase 50 anos após ter sido composta. Alguns dias depois, enviei para sua viúva, dona Nelly, as partes cavadas, programa e recortes de jornal para os arquivos que ela organizava diligentemente com toda a documentação da vida e carreira do maestro. A estréia dos três movimentos da Brasiliana 12 estão disponíveis no Youtube como registro dos caminhos inesperados que a música pode percorrer.

Confira:

Brasiliana no. 12 – 1o movimento: Allegro moderato

 

Radamés Gnattali – Brasiliana 12 – 2o movimento: Tema com variações

Radamés Gnattali – Brasiliana no. 12 – 3o movimento: Movido

 

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