Encontro em Bataguassu reúne cerca de 100 artesãos para ampliar vendas e valorizar a produção regional
Aos sete anos, Elaine Cristina Guarnieri Martins ganhou da tia Neusa a primeira agulha de crochê. Quase quatro décadas depois, as mãos que aprenderam a transformar fios em peças artesanais dão forma a capivaras, araras, tucanos e onças-pintadas do Pantanal. Feitos com a técnica do amigurumi, os animais já ultrapassaram as fronteiras de Mato Grosso do Sul e chegaram a outros países. Aos 46 anos, moradora de Nova Porto XV, distrito de Bataguassu, ela preside a Associação dos Artesãos local e vê no trabalho manual uma possibilidade concreta de ampliar a renda e conquistar autonomia.
É também essa transformação que estará em pauta no Encontro Regional de Artesanato, marcado para 22 de outubro, das 9h às 16h, no Centro de Eventos João Leme, em Bataguassu. Promovido pela MS Florestal, com apoio de instituições parceiras, o evento deve reunir cerca de 100 artesãos da Costa Leste sul-mato-grossense. A proposta é valorizar a produção regional, aproximar quem cria de quem compra e abrir caminhos para que o talento dos profissionais se converta em oportunidades de negócio.

Foto: divulgação
Com o tema “Mãos que conectam, arte que gera oportunidades”, a programação terá talk show às 9h, palestra magna às 11h e sessão de negócios a partir das 14h. Um dos destaques será a participação do artesão e designer Marco Aurelio Pulcherio, conhecido como Marco 500, que há três décadas trabalha para impulsionar o design e o artesanato brasileiro.
Virada
A trajetória de Elaine no artesanato foi construída aos poucos. Depois do crochê aprendido na infância, vieram bordados, pintura e fuxico, técnica que utiliza pequenos retalhos de tecido. Mais tarde, o crochê voltou à rotina, inicialmente em tapetes, bolsas e roupas. Há cerca de dez anos, porém, ela descobriu o amigurumi e encontrou uma nova maneira de unir habilidade manual e identidade regional.
A mudança ganhou força quando recebeu o desafio do designer Renato Imbroisi de reproduzir animais do Pantanal. A partir daí, os bichos da fauna sul-mato-grossense passaram a ocupar o centro de sua produção, transformando referências da natureza em peças que carregam características do território onde ela vive.

Foto: divulgação
“O artesanato hoje representa uma conquista na minha vida. É algo que eu sempre gostei de fazer, mas antes fazia só por fazer. Hoje virou uma renda. Ainda é um complemento, mas eu creio que vai virar a principal e que vou poder viver só do meu artesanato”, conta Elaine.
A experiência da artesã mostra como uma atividade muitas vezes iniciada como passatempo pode ganhar dimensão profissional. Para isso, no entanto, não basta dominar a técnica. É preciso estabelecer preços, divulgar o trabalho, encontrar compradores e compreender as oportunidades de comercialização. São etapas que exigem conhecimentos diferentes daqueles necessários para criar uma peça e que podem determinar o alcance da produção.
Mercado
Na Associação dos Artesãos da Nova Porto XV, presidida por Elaine e formada por cerca de 25 integrantes, o artesanato já é a principal fonte de renda para a maioria dos associados. A argila extraída na própria localidade predomina entre as matérias-primas, acompanhada de trabalhos em madeira e crochê. A diversidade revela como o fazer artesanal reúne técnicas, recursos naturais e conhecimentos transmitidos entre gerações.
“Quem encontra as nossas peças consegue enxergar nos detalhes a história de cada uma, o trabalho, o capricho”, diz Elaine. O valor de cada objeto, portanto, não está apenas no material utilizado, mas também no tempo dedicado à produção e nas referências culturais que ele carrega. Para que essa singularidade seja reconhecida comercialmente, porém, o artesão precisa alcançar públicos interessados e apresentar seu trabalho de maneira adequada.
É justamente nesse ponto que a divulgação se torna um obstáculo. “A minha maior dificuldade hoje é a divulgação”, afirma Elaine. A dificuldade de fazer as peças chegarem aos consumidores limita as possibilidades de venda, mesmo quando há qualidade e variedade na produção. Por isso, a associação vem recebendo cursos com apoio da MS Florestal e do Sebrae, iniciativa voltada ao desenvolvimento dos profissionais e à ampliação de suas oportunidades.
“É uma oportunidade que não podemos perder. Devemos aproveitar ao máximo”, afirma a artesã sobre as capacitações. A expectativa é que os conhecimentos adquiridos ajudem os participantes a organizar melhor a atividade, apresentar seus produtos e estabelecer relações comerciais que ultrapassem os limites da própria comunidade.
Valorização
Para Edvaldo Araujo, analista de Responsabilidade Social da MS Florestal, o reconhecimento do artesanato precisa caminhar junto com a geração de renda. “O artesanato é uma profissão nobre, que carrega a cultura e a identidade de um território. Queremos que as peças feitas aqui sejam reconhecidas pelo valor que têm e que esse reconhecimento se transforme em renda para as famílias da região”, afirma.
A proposta, segundo ele, é estimular um ciclo em que a valorização do trabalho se reflita na economia das famílias e no desenvolvimento local. “Quando uma artesã consegue vender melhor o que produz, ela fortalece a própria casa, inspira outras pessoas e movimenta a economia local. É esse ciclo que queremos estimular.”

Foto: divulgação
A perspectiva ajuda a explicar a importância de iniciativas que aproximam formação profissional e oportunidades comerciais. Embora a habilidade manual seja indispensável, o fortalecimento do setor também depende de acesso a mercados, contatos com compradores e ferramentas para que os artesãos reconheçam o valor de sua produção. Ao reunir esses elementos, o encontro pretende criar condições para que os profissionais ampliem sua atuação.
A participação de Marco 500 reforça essa proposta. Com cerca de 30 anos de experiência no incentivo ao design e ao artesanato brasileiro, ele será responsável pela palestra magna, em um momento dedicado à reflexão sobre o setor e suas possibilidades. A presença do profissional também amplia o contato dos participantes com experiências de quem atua na valorização e no desenvolvimento do artesanato.
Conexões
Para Elaine, a sessão de negócios é um dos momentos mais aguardados da programação. A artesã já participou de feiras e teve contato com compradores de outras localidades, mas considera o encontro uma oportunidade diferente pela possibilidade de ampliar sua rede de contatos e apresentar as peças a novos públicos.
“Espero que a gente tenha bons negócios, boas vendas, bons contatos e muito aprendizado. Já tive contato com feiras e com compradores de fora, mas não uma experiência grande como essa”, diz. Para ela, a iniciativa também representa uma oportunidade coletiva para os profissionais de Nova Porto XV. “É um apoio muito importante para todos os artesãos de Nova Porto XV poder mostrar o seu trabalho para uma parte do mundo.”

Foto: divulgação
Ao abrir espaço para a troca de experiências e a aproximação comercial, o encontro busca fazer com que a produção artesanal seja reconhecida não apenas pela beleza dos objetos, mas também pelo conhecimento, pelo tempo e pela dedicação envolvidos em cada peça. Para quem vive dessa atividade ou deseja transformá-la em profissão, ampliar a rede de contatos pode representar um passo importante para conquistar novos clientes.
Aos artesãos que estão começando, Elaine deixa um conselho baseado na própria trajetória: “Nunca desista dos seus sonhos. Mesmo em meio às dificuldades, devagar a gente chega lá. O segredo é não desistir nunca”.
O Encontro Regional de Artesanato será realizado na quinta-feira (22), das 9h às 16h (horário de Brasília), no Centro de Eventos João Leme, localizado na Rua Ponta Porã, 173, em Bataguassu. A programação prevê talk show às 9h, palestra magna às 11h e sessão de negócios a partir das 14h. As vagas são limitadas, e as inscrições devem ser feitas antecipadamente pelo formulário: https://forms.cloud.microsoft/r/wfi3D1r6i5.
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