Foi, como os músicos chamam, ‘de ouvido’, que Helena Meirelles aprendeu a tocar os acordes que a fariam conhecida como ‘Dama da Viola’. A mulher de cara fechada e raro sorriso enfrentou oposição da família e rompeu as limitações impostas às mulheres de seu tempo. Reconhecida tardiamente, levou a sonoridade do Pantanal para o mundo e agora vira musa do longa-metragem documental ‘Som & Cor do Pantanal’, que estreia no dia 12 de agosto, no MIS (Museu da Imagem e do Som) em Campo Grande.
Nascida em um universo no qual tocar violão não era considerado lugar de mulher, Helena era autodidata, fabricava as próprias palhetas, recriava de memória músicas da fronteira e desenvolveu uma sonoridade particular. Conquistou projeção nacional e internacional depois de décadas, sem abandonar as raízes pantaneiras.
O documentário ‘Helena Meirelles: Som & Cor do Pantanal’ reúne lembranças de familiares, músicos, amigos e artistas para revelar sua trajetória, que continua inspirando gerações. Os testemunhos reunidos pelo filme revelam uma mulher afetuosa, festeira, irreverente e radicalmente espontânea, que tomava tereré com os vizinhos e podia transformar qualquer encontro em uma roda de viola. A direção é do cineasta Cyro Clemente.
O projeto foi viabilizado pela Lei Paulo Gustavo, por meio da FCMS (Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul), e contou, além da produção do documentário, com uma pintura artística em grande escala na fachada da Galeria Itamarati, na Rua 14 de Julho, em frente à Praça Ary Coelho, em Campo Grande, realizada pelo artista Marcos Rezende e idealizada por Diogo Rodrigues, responsável técnico pelos trabalhos em altura e produtor executivo. Outra vertente a ser explorada será a música, com a composição ‘Dona Helena’, de Jerry Espindola, Marcelo Ribeiro e Rafael Vital.

Foto: Divulgação
Helena: mulher e musicista, sim!
Em conversa com o jornal O Estado, o cineasta e diretor responsável pelo longa, Cyro Clemente, relata que a ideia para o documentário já é antiga. “Começou quando Diogo e Marcos iniciaram conversas com Francisco, filho de Dona Helena. Nesse processo, surgiu a vontade de resgatar e contar sua história de uma forma que fosse além da música, valorizando sua trajetória e seu impacto na cultura sul-mato-grossense”.
Depois de um longo processo de pesquisa e produção, o documentário, que estreia no dia 12 de agosto, trará sensibilidade para a história da Dama da Viola. “Mais do que contar a trajetória da maior violeira do Brasil, buscamos mostrar quem era Helena Meirelles: uma mulher forte, simples e apaixonada pela música. O documentário reúne depoimentos, registros históricos e uma narrativa que aproxima o espectador da pessoa por trás da artista, valorizando sua história e sua importância para a cultura brasileira”.
O filme apresenta Helena não apenas como uma grande violeira, mas como uma mulher que rompeu padrões em uma época em que tocar viola não era visto como lugar feminino, desafio que também se embrenhou no projeto: unir o meio em que Helena viveu com sua carreira musical.
“Não queríamos apenas exaltar a genialidade musical de Helena, mas entender o contexto em que ela viveu e as dificuldades que enfrentou. Ao longo do filme, mostramos como sua força, independência e perseverança foram fundamentais para que ela construísse um legado tão importante quanto sua música. A artista e a mulher são inseparáveis nessa história”.
Conexões
Para Clemente, o projeto ultrapassa as barreiras do documentário e une cinema, pintura e música. “Helena Meirelles inspira diferentes formas de expressão artística. O documentário preserva sua história, o mural transforma essa memória em um patrimônio visual para a cidade, e a homenagem musical mantém sua obra viva. Reunir essas linguagens foi uma forma de ampliar o alcance do projeto e criar diferentes pontos de conexão entre Helena e o público”, explicou.
O responsável técnico, Diogo Rodrigues, reforça a integração do projeto, que também começou com a proposta de celebrar o centenário da violeira. “O documentário é uma homenagem ao centenário de Helena Meirelles, e entramos no edital como filme. Mas também tínhamos a ideia de fazer o painel. Então aproveitamos, fizemos o roteiro do documentário, contando a história dela. No meio do processo, o Jerry Espíndola gravou uma música em homenagem a ela e agora estamos gravando o making of da pintura do prédio. Estamos ‘matando dois coelhos com uma cajadada só’, por assim dizer”, explica.
Reconhecida tardiamente, Helena Meirelles foi creditada pela revista norte-americana Guitar Player como uma das melhores instrumentistas do mundo, algo que, segundo Clemente, precisa ser mostrado para as novas gerações.
“O documentário registra essa história de forma acessível e permanente, despertando curiosidade e mostrando que grandes referências culturais também nasceram aqui. Esperamos que o filme inspire jovens músicos, pesquisadores e o público em geral a reconhecer e preservar esse patrimônio da cultura sul-mato-grossense”, pontua.
“Helena Meirelles foi escolhida porque sua trajetória representa a essência da cultura sul-mato-grossense e sua arte transcendeu fronteiras. Esse projeto, viabilizado pelo apoio da Lei Paulo Gustavo, busca não apenas homenagear Helena, mas também criar um diálogo entre diferentes expressões artísticas”, finaliza o diretor.
Em entrevista para o jornal O Estado, o cantor Jerry Espíndola compartilhou um pouco sobre a amizade com a violeira.
“Estou muito feliz de prestar essa homenagem, porque essa música foi feita em um momento de muita saudade da Dona Helena Meirelles, de quem tive o prazer de ser amigo; ela sempre me chamava de ‘Régi’, porque não conseguia pronunciar o Jerry, e ela me ligava, era sempre muito bom falar com ela”.
Por Carolina Rampi