Neste sábado (29), o cantor Seu Jorge sobe ao palco do Festival de Inverno de Bonito e é uma das atrações mais aguardadas da programação deste ano. Consolidado como um dos artistas mais influentes da cultura brasileira, o cantor, compositor, ator e multi-instrumentista ultrapassa gerações e navega pelo samba, MPB, R&B, bossa nova e funk, além de uma trajetória de sucesso no cinema.
Em entrevista ao Jornal O Estado, Seu Jorge afirma que voltar a Mato Grosso do Sul e ao palco do Festival de Inverno de Bonito é “sempre especial” e relembra a relação de memória afetiva construída com o público ao longo do tempo.
“Bonito é um lugar muito especial por si só, pela natureza, pela energia, e o Festival tem essa característica de reunir as pessoas em torno da cultura e da arte. Tenho lembranças muito boas das minhas passagens por Mato Grosso do Sul e fico muito feliz de poder voltar. A gente chega também com outra história, com novas experiências, então nunca é exatamente o mesmo encontro”, destaca.
Música e muito mais
Uma das propostas do Festival de Inverno de Bonito é o multiculturalismo, ou seja, uma programação que vai além da música, com diferentes linguagens artísticas, em que a cultura é o foco. Com uma carreira que dialoga diretamente com essa questão, o artista revela que sua arte nunca foi separada em apenas uma linguagem e vê o festival como uma oportunidade para a criação de possibilidades na arte.
“Minha formação passa pelo teatro, depois veio a música, o cinema entrou na minha vida, e tudo isso acabou fazendo parte da minha maneira de me expressar; uma coisa alimenta a outra: o ator me ajuda como músico, a música me ajuda como ator, o cinema me ensinou outras maneiras de contar histórias. Até a moda tem uma relação muito forte com identidade, comportamento e com a maneira como a gente se apresenta para o mundo”, explica.
“A cultura é justamente isso: uma coisa viva, que se mistura, se transforma e cria novas possibilidades”, complementa.
MS da cultura
Mato Grosso do Sul é um Estado que possui uma identidade cultural marcada por influências do Pantanal, culturas indígenas, fronteiriças e latino-americanas. Essa ‘mistura’ é o que mais chama a atenção do artista para MS.
“Tenho muita curiosidade por essas sonoridades e por entender como essas influências aparecem na música produzida no Estado e viajar pelo Brasil também é uma oportunidade de aprender. A gente muitas vezes fala em ‘música brasileira’ como se fosse uma coisa só, quando na verdade existem muitos ‘Brasis’ e muitas músicas brasileiras acontecendo ao mesmo tempo”.
Arte por toda parte
Autor de sucessos como ‘Carolina’, ‘Burguesinha’, ‘Mina do Condomínio’ e ‘Tive Razão’, o carioca Jorge Mário da Silva já levou para casa o Latin Grammy de Best MPB Álbum e os álbuns “Músicas Para Churrasco Vol 1” (2012) e “Músicas Para Churrasco Vol 1 (Ao Vivo)” (2013) também venceram o Grammy Latino, na categoria Best Brazilian Contemporary Album.
Mesmo após tantos anos de carreira, Seu Jorge segue atravessando diferentes gerações e chegando a públicos diversos; para ele, a verdade contida em uma música sua é responsável por sua arte permanecer viva e ultrapassar barreiras.
“Quando uma canção fala de sentimentos e experiências humanas de uma maneira sincera, ela não pertence necessariamente a uma época. O amor, a saudade, a alegria, a dor, a vontade de mudar de vida, tudo isso continua existindo. A forma de produzir música muda, a maneira de ouvir muda, mas esses sentimentos permanecem”, explica.
“É muito bonito perceber hoje pessoas muito jovens cantando músicas que eu gravei há vinte anos, às vezes pessoas que nem tinham nascido quando elas foram lançadas. A música ganha uma vida própria depois que você a coloca no mundo; ela deixa de ser só sua e passa a fazer parte da história das pessoas”, completa.
Ajuda ou atrapalha?
Na atualidade, a Inteligencia Artificial é vista por uns como auxilio e por outros como desastre, nas mais diversas áreas. Seus avanços já chegaram na cultura, com criação de músicas, textos e imagens, o que provoca debates sobre autoria, criatividade e até sobre a substituição do trabalho de artistas.
Questionado sobre o uso da tecnologia e IA, Seu Jorge entende que esse avanço faz parte de um processo, sendo uma ferramenta poderosa, mas que ainda estamos entendendo os limites, possibilidades e responsabilidades.
“Acho importante que exista uma discussão séria sobre autoria e sobre o trabalho dos artistas, porque não dá para separar a tecnologia dessas questões, mas existe uma coisa que nenhuma ferramenta substitui, que é a experiência humana. Uma pessoa cria a partir do que viveu, das pessoas que conheceu, das perdas, dos amores, das alegrias, das contradições… a arte tem muito dessa experiência e desse desejo de comunicar alguma coisa para outra pessoa. A tecnologia pode ajudar a criar, mas a necessidade humana de contar histórias e de se reconhecer na história do outro continua sendo fundamental”.
Essa transformação também auxilia no acesso à arte, que chega a lugares que antes eram impossíveis e possibilita ao público uma diversidade de artistas e gêneros. Porém, o artista acredita que o tempo de escuta está se perdendo pela rapidez das informações.
“Antes, você comprava um disco, olhava a capa, lia os créditos, escutava um lado inteiro, depois virava o disco. Hoje tudo acontece muito rápido e existe uma quantidade enorme de informação disputando a nossa atenção; às vezes, uma música já é considerada velha depois de poucas semanas. Então acho que o desafio é aproveitar tudo o que a tecnologia trouxe de bom sem perder a profundidade, o cuidado e o tempo que a música também merece. No final, independentemente da plataforma, o que permanece é a canção e a conexão que ela consegue criar com alguém”, finaliza.
Por Carolina Rampi