A cozinha de casa e as refeições compartilhadas sempre foram um dos principais pontos de encontro entre famílias. Não por acaso, um estudo da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, publicado em 2024, apontou que pessoas que se reúnem à mesa com frequência apresentam redução nos índices de depressão, melhora no humor e maior sensação de felicidade. Em pleno mês do Dia dos Pais, essa tradição ganha ainda mais significado. Em Campo Grande, uma família transformou justamente esse costume em um empreendimento: unindo gerações e uma receita paraguaia passada de geração em geração, eles abriram uma chiparia onde cada fornada também carrega memórias, afeto e convivência.
Por meio dos sabores da chipa e da sopa paraguaia, a família Soto, composta por Déborah Freitas Soto Kohl (filha), Juan Luiz Soto Oviedo (pai) e Maria Nancy de Freitas Soto (mãe), resolveu colocar a mão na massa nas raízes familiares e entregar história, tradição e carinho.
“Pai e filha unidos pela cozinha, receitas e costume de reunir pessoas ao redor da mesa”; é assim que a marca se descreve nas redes sociais. Ao jornal O Estado, Déborah, que é dentista de profissão, viu o pai, um engenheiro civil aposentado, cair nas garras da monotonia do dia a dia, com sintomas de cansaço e quietude, o que acendeu um ‘alerta’ para a filha. E foi pela cozinha que ela resolveu trazer o Seu Juan à ativa novamente.
“Como ele sempre gostou de cozinhar e foi ele quem nos ensinou tantas coisas na cozinha, eu tive a ideia de transformar essa paixão em um negócio familiar. Quando apresentei a proposta, ele foi resistente, pois é um homem muito prudente e preocupado, mas, depois de um tempo, resolveu dar uma chance para minha ideia”, relembrou.
Além da sopa e da chipa, desenvolvidas por meio de receitas tradicionais, a marca ‘Família Paraguaya’ ainda oferece produtos congelados, assados e por encomenda, com produções duas vezes por semana. “Nossa cozinha tem sabor de tradição familiar, de memórias afetivas”, destaca.
Origens
A marca nasceu, segundo Déborah, da cultura familiar, mas também pela própria admiração da empresária pelos pais, que a ensinaram o valor do trabalho e da dedicação. A receita dos pratos foi passada de geração em geração, diretamente da fronteira.
“Nossa ligação com a culinária paraguaia vem das nossas raízes familiares. Meus avós eram paraguaios, meu pai é ‘brasiguaio’ e eu sou campo-grandense. Cresci em uma família que sempre transitou entre os dois lados da fronteira, mantendo vivas as tradições, os sabores e os costumes que herdamos. Ainda temos tios, primos e grande parte da família paterna vivendo na região de fronteira, cruzando a linha entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, então essa conexão continua muito presente na nossa vida”, explica.
Para ela, essa ligação entre Paraguai/Mato Grosso do Sul é vista em cada cliente que chega no Família Paraguaya.
“Mato Grosso do Sul tem uma ligação muito forte com a cultura paraguaia, e percebemos isso em cada cliente que nos procura. Muitas pessoas nos contam histórias dos avós, das mães e dos pais preparando essas receitas em casa. Outras lembram dos encontros de família ou das tardes na casa dos avós. É emocionante perceber que um simples sabor consegue despertar tantas lembranças”, destaca.
“Acreditamos que a culinária tem esse poder de nos conectar às nossas origens. Muitas vezes, a pessoa compra uma chipa ou uma sopa paraguaia e acaba levando para casa muito mais do que comida: leva uma memória afetiva”, complementa.
Família como força motriz
Abrir um negócio em família não é fácil e exige parceria e confiança, para que cada passo não se torne um desafio ainda maior. Déborah acredita que o que é mais especial na Família Paraguaya é a união que o empreendimento proporcionou à própria família, que agora consegue se encontrar na cozinha.
“Nos dias de produção, não estamos apenas preparando chipa ou sopa paraguaia. Estamos compartilhando histórias, lembrando momentos da infância, conversando sobre a vida e criando novas memórias. Entre uma receita e outra, surgem risadas, lembranças e aquele sentimento de pertencimento que só a família proporciona”, revela.
“A cozinha sempre foi um espaço muito importante dentro da nossa casa, muito por influência do meu pai. Foi ali que aprendemos a cozinhar, a receber as pessoas e a valorizar os momentos simples. Hoje, a Família Paraguaya nos permite continuar vivendo tudo isso, mesmo em meio à correria dos dias atuais”.
E é o legado do pai que é levado em cada ingrediente, em cada receita feita e compartilhada com os clientes. “O ingrediente mais importante da nossa receita é a história que ela carrega. Fizemos questão de manter a receita tradicional que meu pai aprendeu lá na fronteira. Fazemos questão de manter o preparo artesanal, o respeito às tradições e os sabores que fizeram parte da nossa infância. Quando produzimos nossas receitas, pensamos nos meus avós, nas reuniões de família, nas conversas na cozinha e nos ensinamentos que recebemos ao longo da vida”, explica.
Legado
Assim como na pesquisa feita lá nos Estados Unidos, Déborah vê a mesa como fator principal para as reuniões de família. “A comida reúne as pessoas de uma forma muito única. Ela faz com que a gente desacelere, converse, compartilhe histórias e celebre a presença uns dos outros. As receitas tradicionais carregam algo ainda mais especial porque atravessam gerações”, pontua.
“Hoje entendemos que, cada vez que reproduzimos uma receita da nossa família, estamos mantendo vivas as pessoas que vieram antes de nós e os valores que elas nos ensinaram”.
Questionada sobre a definição da relação entre a família e a chipa, Déborah diz que o prato “representa a sua história”, que ganha um valor ainda mais especial no Dia dos Pais. “Elas carregam as raízes paraguaias dos meus avós, a força e os ensinamentos do meu pai, o amor pela família e a alegria de estarmos juntos. No Dia dos Pais, e em todos os outros dias, celebramos e agradecemos aquele que nos ensinou que o maior legado não é aquilo que deixamos para os nossos filhos materialmente falando, mas os momentos, os valores e as memórias que construímos ao lado deles”, diz.
“O principal motivo da Família Paraguaya ter nascido foi para criar uma oportunidade de estarmos juntos, em família, fazendo o que a gente ama, que é cozinhar, servir e trabalhar”, finaliza.
Mais informações podem ser adquiridas por meio do perfil @familiaparaguayasoto ou pelo telefone 67 992830054.
Por Carolina Rampi
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