Um dos raros DVDs que não foram despachados para as Casas Casadas (acervo público de mídia audiovisual física do Rio de Janeiro) numa arrumação doméstica aqui em Bonsucesso (o meu planeta) foi uma edição de “Memento” (2000), aqui chamado “Amnésia”, autografado por um deus: Christopher Nolan.
Poucos diretores atualmente na ativa conseguem despertar tanta paixão quanto este realizador britânico alçado ao estrelato popular com a franquia do Homem-Morcego realizada de 2005 a 2012. Há um paredão de ranço contra sua estética por parte de uma ala da crítica que esnoba o binômio de virtuosismo + humanismo em sua mirada.
Esse muro de lamentações parece ter sido furado… enfim… por “A Odisseia”, seu longa-metragem da vez, que traz Matt Damon a singrar as narrativas de Homero. Há um elenco colossal que tem Robert Pattinson (de “Mickey 17”) em papel de destaque, como vilão, ao lado de uma horda de talentos. Lupita Nyong’o, Anne Hathaway, Zendaya, Charlize Theron, Mia Goth e Jon Bernthal se embrenham nesse épico que pode repetir os feitos de seu realizador em “Oppenheimer”.
Lançado em 2023, a produção que deu o Oscar de Melhor Realização a Nolan soma 370 láureas em seu currículo de prêmios, entre eles troféus do Screen Actors Guild, do Producers Guild of America e do Directors Guild. São os três sindicatos mais fortes da indústria cinematográfica dos EUA. O voto deles define quem leva para casa os mimos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. A biopic de J. Robert Oppenheimer (1904-1967) levou sete.
Estruturado na aparência como se fosse uma aula de geopolítica sobre a corrida nuclear, o filme carrega toda a assinatura formal e filosófica do realizador, que despontou aos olhos da crítica ao conquistar o troféu Tiger de Roterdã, em 1999, com “Following”. Sua assinatura se faz viva em três pontos. O primeiro: o fascínio em relação a episódios que mudaram a História, como visto em “Dunkirk”, seu estudo sobre uma das batalhas cruciais da II Guerra, lançado em 2017). O segundo: o interesse pela gênese do mal e sua banalidade, como visto em “Insônia”, com Al Pacino vs. Robin Williams, lançado em 2002. O terceiro: o encanto pela dimensão humanista da Ciência, o que foi o alimento de seu trabalho mais incensado – e ao mesmo tempo, mais incompreendido – que é “Interestelar” (2014).
“Oppenheimer” nasceu no momento em que Nolan se desligou de uma longa colaboração com a Warner Bros que terminou na pandemia, depois da forma como o estúdio tratou “Tenet” (2020), um thriller audacioso. Nele, o diretor destilou seu interesse em fazer uma autopsia em corpo vivo das cicatrizes da Guerra Fria, utilizando elementos sci-fi. Esse seu interesse não foi satisfeito ali e voltou em sua investigação sobre a criação do cogumelo nuclear do fim dos anos 1940.
Visto por três milhões de pagantes no Brasil, depois de faturar US$ 975 milhões nas bilheterias internacionais, “Oppenheimer” está no streaming, na Prime Video. O desempenho de Robert Downey Jr. é um de seus trunfos, assim como o de Cillian Murphy, no papel título. Eternizado no imaginário pop como Tony Stark, o Homem de Ferro, no momento de exorcismo do fantasma da dependência química, Downey Jr. é o hidrogênio que areja a atmosfera plúmbea de um filme construído para “ser pra sempre”. Uma postagem na internet do cineasta Paul Schrader, diretor de “Fé Corrompida” (2017) “A Marca da Pantera” (1982) e roteirista de “Taxi Driver” (1976), resume tudo o que o Nolan conseguiu sintetizar ao longo de três horas de pura excelência.
Schrader disse: “É o melhor, o mais importante filme deste século”. O superlativo impressiona e até espanta, não só por soar prematura, mas por ter sido emitido por um criador sábio, extremamente avesso a (quase) tudo o que a indústria hollywoodiana produz.
O que justifica sua fala seja justamente o fato de Nolan NÃO ser aquilo que os estúdios cismam em produzir e, sim, um realizador autoral que dirige narrativas personalíssimas, de teor filosófico, em forma de espetáculo, como é o caso do estonteante “Oppenheimer”. Bastam dois diálogos para que toda sua força dramatúrgica fique evidente: a) “Genialidade não garante sabedoria”; b) “Vocês procuram o sol, só que o Poder reside nas sombras”.
Essa joia aí ao lado é dita pelo almirante Lewis Strauss, intelectual autodidata que busca exterminar a reputação do físico J. Robert Oppenheimer depois de sugar dele aquilo de que a América necessitava em meio à II Guerra: a criação de uma arma nuclear suprema. O jogo de sedução mefistofélico, mais tarde convertido em caça às bruxas, empreendido por Lewis deu a Downey Jr. o Oscar que há décadas ele merecia.
Cillian Murphy evoca Burt Lancaster… e bem aquele Burt Lancaster de “O Leopardo” (1963), ao encarnar o gênio científico por trás da bomba mais assustadora de que a Humanidade tem notícia. É um homem que ama (de modo passional), é um sujeito fiel aos amigos e a alianças afinas, é um devoto do credo da Ciência.
Acossado por uma implicância rastaquera de que seus roteiros são por demais explicadinhos, Nolan flerta agora com Homero. Sai da fina flor do pensamento científico para a poesia. Nela há (ou pode haver) uma resposta para o ódio que nos divide, que mata, que segrega. Pode se candidatar a novos Oscars. Pode faturar fortunas (de novo). Porém, mais do que isso, pode nos dar uma alegoria iluminista sobre a resiliência do espírito humano, gostem os oráculos ou não.
Enquanto esse espetáculo não estreia aqui, fique atento a “Salvação”, do turco Emin Alper, que veio da Berlinale com o Grande Prêmio do Júri. É um dos maiores acertos do ano na telona. Seu enredo nos leva a uma aldeia remota nas montanhas da Turquia, onde o regresso de um clã exilado reacende uma disputa por terras que se arrasta há décadas. Enquanto antigos ressentimentos voltam à superfície, Mesut (Caner Cindoruk), irmão do líder local, passa a ser atormentado por visões perturbadoras, às vésperas de se tornar pai.
Com a certeza de que se tratam de avisos divinos sobre o Demônio, Mesut desafia as autoridades e insurge à frente de uma rebelião armada. O que se vê aí é um debate rico sobre manipulação da lucidez por malversações da fé e sobre intolerância. É imperdível!
Ó… do cinema brasileiro, a boa da vez é “Os Emergentes”, neochanchada do sino-carioca Hsu Chien Hsin, com Nelson Freitas, num quiproquó sobre um ricaço que perdeu tudo e vira vendedor de quentinha. Seu humor é escrachado e contagia.
Rodrigo Fonseca
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