Após prêmios internacionais, longa do brasileiro Gabriel Mascaro disputa vaga no Oscar e estreia hoje nos cinemas
Estreia nesta quinta-feira, 28 de agosto, o aguardado longa-metragem brasileiro “Último Azul”, uma ficção científica com toques dramáticos dirigida por Gabriel Mascaro. Com 1h27 de duração, o filme acompanha a emocionante jornada de Tereza (interpretada por Denise Weinberg), uma mulher de 77 anos forçada a deixar sua cidade natal na Amazônia para viver em uma colônia de idosos. Antes da transferência, ela embarca em uma travessia pelos rios e afluentes da região, em busca de um último desejo, uma escolha que promete transformar seu destino. O elenco conta ainda com Rodrigo Santoro e Miriam Socarrás.
O Último Azul já chega aos cinemas com forte reconhecimento internacional. Em fevereiro deste ano, o longa conquistou o Urso de Prata no Festival de Berlim, um dos maiores prêmios do júri da mostra. No Brasil, também foi destaque no Festival de Cinema de Gramado em agosto, onde ganhou uma sessão especial e foi homenageado em uma cerimônia temática, decorada em tons de azul em alusão ao título.
Gabriel Mascaro, natural de Recife e formado em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco, tem se destacado como um dos cineastas mais influentes do cinema brasileiro contemporâneo. Desde sua estreia em 2004, ele já lançou mais de dez longas, incluindo os premiados “Boi Neon” (Veneza, 2015) e “Divino Amor” (Sundance, 2019). Seus filmes somam mais de 50 prêmios internacionais, e em 2016, Boi Neon foi incluído na lista dos dez melhores filmes do ano pelo The New York Times. No mesmo ano, Mascaro foi homenageado com uma retrospectiva no Lincoln Center, em Nova York.

Premiado: O ator Rodrigo Santoro é Cadu e Denise Weinberg dá vida a Tereza no longa de Gabriel Mascaro – Foto: Reprodução
Produção
Durante o Festival de Cinema de Gramado, a equipe do Cine NINJA conversou com o diretor Gabriel Mascaro e a atriz Denise Weinberg sobre os bastidores e os significados por trás de Último Azul. Denise, que dá vida à protagonista Tereza, destacou a importância de provocar o público jovem com a temática do filme. Para ela, a força da narrativa está em mostrar um processo de “rejuvenescimento” simbólico: uma mulher que vivia de forma simples e silenciosa começa a se abrir ao mundo, até que explode em vida e potência.
Gabriel Mascaro explicou para o Cine NINJA que Último Azul aborda uma distopia muito particular: um futuro em que o Estado, em nome da produtividade, passa a descartar os corpos idosos para que os jovens possam seguir produzindo sem preocupações. O diretor ressaltou que a narrativa é construída sobre contradições políticas e sociais, em especial a alienação do corpo velho em nome de um ideal produtivista. Para Mascaro, o filme convida o espectador a refletir sobre o valor da experiência, da memória e da resistência de quem envelhece em um mundo que prefere ignorá-los.
O simbolismo do longa começa já na primeira cena: uma linha de produção de carne de jacaré, animal frequentemente associado à preservação, mas que ali é domesticado e explorado, assim como o corpo do idoso na lógica da distopia apresentada. Elementos poéticos, como o encontro com um caracol babassu animado, oferecem momentos de fantasia e metáfora. Ao longo da trama, a jornada de Tereza ganha contornos de aventura, tornando-se não apenas uma fuga, mas uma redescoberta da vida, dos afetos e da liberdade, em um filme que mistura crítica social com lirismo visual e sensorial.

Foto: Reprodução
Crítica
A recepção da crítica especializada de O Último Azul tem sido amplamente positiva, com destaque para sua sensibilidade ao retratar o envelhecimento sob uma perspectiva rara no cinema. A crítica Aline Pereira, do site Adoro Cinema, deu quatro estrelas ao filme, ressaltando sua capacidade de tocar o público de maneira universal ao abordar um tema inevitável e muitas vezes evitado: a velhice.
Para ela, o longa se destaca não apenas pela força da protagonista idosa, mas também pela qualidade técnica e filosófica da obra, que oferece uma visão mais doce e poética sobre a passagem do tempo em um mundo que insiste em valorizar apenas a juventude.
Já Inácio Araújo, da Folha de S. Paulo, destacou o filme como uma profunda afirmação da vida. Para ele, a jornada de Tereza é carregada de surpresas e descobertas, sejam elas simples, como um caracol ou um barco, ou intensas, como uma luta entre peixes.
Araújo elogia a habilidade de Mascaro em construir universos que parecem próximos e, ao mesmo tempo, estranhamente distantes, criando imagens que encantam e inquietam. Segundo o crítico, O Último Azul representa o ponto mais alto da carreira do diretor até agora, consolidando seu lugar entre os grandes nomes do cinema brasileiro contemporâneo.

Foto: Reprodução
Prêmios e festivais
O sucesso de Último Azul não se limita à consagração no Festival de Berlim. O novo longa de Gabriel Mascaro já acumula mais de 40 seleções em festivais internacionais e garantiu distribuição em 65 países, sendo um dos filmes brasileiros mais relevantes no circuito mundial em 2025. No Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, no México, que aconteceu em junho, o filme foi duplamente premiado: recebeu o troféu de Melhor Filme Ibero-americano de Ficção e rendeu à veterana Denise Weinberg o prêmio de Melhor Interpretação.
A trajetória internacional do longa segue firme. Último Azul foi incluído na categoria Masters do New Horizons International Film Festival, na Polônia, dedicada a cineastas com carreiras consolidadas, e na Headliners do Melbourne International Film Festival, na Austrália, que destaca nomes em ascensão nos principais festivais do mundo. O filme também integra a mostra competitiva de ficção latino-americana do Festival de Cinema de Lima, no Peru. Em junho, Mascaro participou pessoalmente da exibição em Xangai, na China, e o longa foi um dos dez títulos selecionados para a disputa no Sydney Film Festival, na Austrália.
Agora, o filme se prepara para mais um momento decisivo: a exibição na 50ª edição do Festival Internacional de Cinema de Toronto, entre os dias 4 e 14 de setembro. No Brasil, o público do Recife pode conferir de perto o Urso de Prata conquistado em Berlim, exposto na Fundação Joaquim Nabuco, com entrada gratuita. Além disso, Último Azul está entre os 16 títulos brasileiros habilitados para tentar uma vaga como representante nacional na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2026. A lista dos seis pré-selecionados será anunciada em 8 de setembro pela Academia Brasileira de Cinema.
Amanda Ferreira