O trovador de Medellín

Foto: divulgação
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Em poucos dias, o Brasil vai botar sua cabeça entre as presas do Leopardo de Ouro de Locarno a fim de ampliar seu rol de consagrações em festivais estrangeiros, com a sessão, nesta terça, dia 11, de “A Margem do Rio”. A direção é de Matheus Farias e Enock Carvalho, crias do cult “Bacurau” (2019). Regado a erotismo, esse thriller queer acompanha os perigos em torno de um jovem zelador, Izaquiel (Caique Copque), depois de ele ser alocado na sede de uma seita evangélica, cujo pastor (Robério Diógenes) é uma figura controladora, com apreço por armas de fogo. Há uma história de amor bonita entre Locarno e o Brasil.

“Pixote, A Lei Do Mais Fraco” (1981), “Nunca Fomos Tão Felizes” (1984), “As Boas Maneiras” (2017) e “Regra 34” (2022) se imortalizaram na premiação desse evento suíço, que sempre badala nuestros hermanos, vide a consagração de “Tengo Sueños Electricos”, de Valentina Maurel, da Costa Rica, em 2022. Há uma safra de novos talentos de nosso continente que está berrando excelências para o mundo, da qual a classe cinematográfica brasileira faz parte. Gramado engata mais um festival, a partir desta sexta-feira, com a projeção de “Antártida”, de Bruno Safadi, para comprovar isso. É uma pena só que muitos longas de nações vecinas a nosotros não sejam contemplados com vaga em circuito, como é o caso de “Um Poeta”, da Colômbia.

Ouviu-se falar dele, com ênfase, na cerimônia da Academia Brasileira de Cinema, na semana passada. Embora a festa do Grande Otelo, o Oscar brasileiro, realizada na última terça-feira, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, não tenha sido das mais cálidas, a presença de certos bons títulos da América Hispânica, na competição dos estrangeiros, deu um sopro de alegria. Encontrar o belo “Belén”, de Dolores Fonzi, entre as produções concorrentes, devidamente valorizado, traz mais fôlego para a produção da Argentina, nestes tempos assombrados por Javier Milei. Vê-se essa pérola do drama de tribunal em streaming, na Prime Video, com toda a qualidade. Fonzi vive a advogada que ajuda uma jovem detida injustamente por um aborto que não cometeu. É uma narrativa que faz jus ao cinema político de nossa Pangeia. Ganhou o troféu da Academia Brasileira de Cinema num empate com o épico da lusofonia “O Riso e a Faca”, de Pedro Pinho, de Lisboa. Entre todos os títulos que disputavam essa láurea, numa cerimônia que o Canal Brasil projetou integralmente, “Um Poeta” é o que mais merece atenção. É um ímã de prantos, é um alimento à nossa perplexidade. Bate à direita, à esquerda e ao centro. É poesia… literalmente.

Coroada ao longo de 2025 com láureas nos festivais de Berlim, Veneza, Cannes e San Sebastián, com filmes do Equador (“Hiedra”), México (“En El Camino”), Chile (“O Olhar Misterioso do Flamingo”) e muita coisa do Brasil (como “O Último Azul” e “O Agente Secreto”), a América Latina emplacou um cult a mais, por vias colombianas, que, apesar de arrebatar elogios e troféus, ficou sem espaço em tela grande entre nós: “Um Poeta”. Desde maio passado, esse longa-metragem de de Simón Mesa Soto, projetado no Festival do Rio, não para de dar alegria para o continente. Ganhou o Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard da Croisette, em sua estreia, e não parou mais de conquistar espaços… e aplauso. Seu currículo de conquistas soma onze vitórias e um mar de críticas boas. Um de seus mais expressivos feitos foi ganhar a competição Horizontes Latinos na Espanha, no Festival de San Sebastián. Agora, chegou a vez de conquistar o streaming brasileiro. Está na plataforma do Telecine, o que lhe habilita acesso também pela Prime Video.

Tem muito tempo que a Colômbia não é listada entre as sensações cinematográfica de uma temporada. Isso ocorreu com peso há onze anos, quando “O Abraço da Serpente”, de Ciro Guerra, explodiu na Quinzena de Cineastas de Cannes. Em 2022, houve outra lufada de êxito vinda de lá, com “Los Reyes Del Mundo”, de Laura Mora, que ganhou a Concha de Ouro, na já citada San Sebastián. No entanto, a onda de entusiasmo que “Um Poeta” gera não parece ter igual entre os acertos autorais da pátria que emplacou joias como “A Vendedora de Rosas” (1998), de Victor Gaviria, hoje na MUBI.

Seria um sonho para Oscar Restrepo, protagonista de “Un Poeta”, um dia ser capaz de publicar versos como os de “De Los Gozos Del Cuerpo“, de Harold Alvarado Tenorio, seu conterrâneo, mais velho (hoje octogenário… e aclamado), que escreveu (na vida real) estrofes de sabedoria. Segundo ele: “A amizade, velha moeda errante, agora é oferecida por anciães, / doentes, animais, bêbados e loucos. / Nada sabem, os homens, dela: a fugitiva dos séculos”. Esse é o tipo de ensinamento de que Oscar precisava no seu périplo profissional pela arte de escrever. O anseio de ser grande – no continente que gerou Gabriela Mistral, Cecilia Meirelles, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Raúl Zurita, Bruna Mitrano, Meira Delmar, Tatiana Pequeno, Eucanaã Ferraz – levou a personagem central do longa de Mesa Soto a dedicar a vida à profissão da escrita. Só não teve o cuidado de maneirar na bebida e de saber frear a língua feroz. A falta de cuidado com esses dois aspectos impediu que a sua potência virasse ato. Diferentemente do motorista de ônibus metido a Baudelaire de “Paterson” (2016), do já citado Jim Jarmusch, que era um tipo cheio de alegria, Oscar é sorumbático. Perder é sua sina.

Na trama, filmada em Super 16mm pelo realizador de “Leidi” (Palma de Ouro de Curta de Cannes em 2014), Oscar (interpretado com fluidez por Ubeimar Rios, um ator não-profissional) teve a chance de lançar dois livros e de dar aulas, o que, nem de longe, aplaca seu apetite por prestígio. Se bebesse menos, era mais fácil chegar lá e não estaria, já quarentão, à mercê do quarto que tem na casa da mãe, rejeitado por entes queridos que poderiam amá-lo.

O verbo “desistir” é imposto pela vida a Oscar como um norte inescapável. A crença de que o poema pode levar quem escreve e quem lê à transcendência é o único combustível do seu sonho e da sua coragem. Essa gasolina parece encher também o tanque de uma jovem, Yurlady (Rebeca Andrade), que demonstra ter um talento nato para metáforas, metonímias, Zeugmas… Na Medellín filmada por Mesa Soto numa fronteira ténue do naturalismo, ela é um indício de que a chama da invenção lírica arde onde o determinismo económico impõe silêncio e ausência. Sob a granulacão no quadro composto pelo diretor de fotografia Juan Sarmiento G., “Un Poeta” põe os lugares comuns históricos de aspereza da América Latina em foco ao mapear a construção de um projeto de parceria artesanal (entre mestre e aprendiz) num rastreio do que a euforia literária pode gerar de transformação prática.

A vida de quem crê na poesia… sobretudo quem é latino… não é para amadores. “Um Poeta” é cinema profissa, para ver e rever. Falando em poesia… “A Odisseia”, de Christopher Nolan, já chegou à marca do bilhão em sua arrecadação. Vejam na telona.

 

Por Rodrigo Fonseca

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