‘O lugar mais lindo da minha cidade’

Foto: Marcelo Henrique
Foto: Marcelo Henrique

Espetáculo teatral se debruça sobre a infância e memórias do tempo do trem, com reflexões e histórias da ferroviária

 

No ano de 1996, o trem de passageiros da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil realizava suas últimas viagens cortando o cerrado e o Pantanal. Foram mais de oito décadas transportando pessoas, proporcionando encontros e sendo palco de muitas aventuras. Com objetivo de reavivar as memórias guardadas de quem viveu nesses tempos áureos e mostrar essa outra parte do MS para as crianças, a Ciranda Cultural traz o espetáculo ‘O Lugar Mais Lindo da Minha Cidade’, com apresentações em cinco dias, em Campo Grande.

A peça se utiliza da linguagem do teatr de objetos para narrar poaticamente para o público infantil a chegada do trem e como sua presenção impactou a história das pessoas e do lugar para sempre. O espetáculo estreou em dezembro de 2025 no Sesc Teatro Prosa, abrindo a programação de férias com duas sessões lotadas. Em nova temporada, entre os dias 15 e 22 de março, serão 8 sessões gratuitas na própria Plataforma Cultural, na Esplanada Ferroviária, com recursos de acessibilidade.

União SP e MS

‘O Lugar Mais Lindo da Minha Cidade’ reúne profissionais do teatro local e nacional de reconhecida e premiada experiência para sensibilizar, informar e envolver a plateia infantil em um dos mais importantes patrimônios históricos da nossa região: o trem.

O texto dramatúrgico original foi concebido por Andrea Freire (MS) e Sandra Vargas (Grupo Sobrevento, SP) e foi construído a partir de uma extensa pesquisa realizada por Thais Pompêo e Julia Basso, idealizadoras do projeto. No elenco, Kelly Figueiredo chama atenção pela delicadeza em cena. “Tivemos a sorte e o prazer de contar com essas diretoras e atrizes tão profissionais e generosas. E o resultado é visível: um espetáculo lindo, sensível e que não subestima a inteligência e a sensibilidade das crianças. A peça é tão bonita que envolve toda a família”, comenta Julia Basso.

Para o jornal O Estado, Thais revelou que o processo de pesquisa foi “surpreendente”, e contou com livros e dissertações de mestrado, o que trouxe informações “inusitadas” que ajudaram a entender a grandiosidade do projeto da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.

“Foi entender que o trem foi o maior divisor de águas para a nossa cidade, que antes da chegada do trem era apenas um entreposto comercial de gado. Imagina: a luz elétrica só chega por aqui depois da chegada do trem”, revela.

Entretanto a parte que ela considera mais importante são os depoimentos que coletaram ao longo da pesquisa.

“Pessoas que viajaram de trem, dos ferroviários: maquinistas, filhos de funcionários da NOB, conhecer a dinâmica de comunidade envolta do trem; enfim, entender o tamanho dessa engrenagem e da riqueza humana das histórias. Muitas lembranças, memórias sempre muito afetivas desde a vilinha (Vila dos Ferroviários) até lembranças das viagens de Maria Fumaça, das chipas sendo vendidas em Maracaju, as despedidas e chegadas nas plataformas, as charretes da Calógeras… Todo mundo tem uma história para contar sobre uma viagem que fez de trem”, destaca. Thais também entendeu que o encerramento das atividades pegou a maioria das pessoas de surpresa e que muitos consideraram um erro.

Concepção

Mergulho em nossa cultura histórica. A dramaturgia se valeu de objetos históricos da época do trem em seu processo criativo, como parafusos que fixavam os dormentes dos trilhos, diário de maquinista e luz de cauda do trem. A trilha sonora que compõe a peça foi gravada, especialmente, para o espetáculo: uma letra encontrada durante a pesquisa, Herói dos trilhos, um samba-enredo que virou hino da Escola de Samba Igrejinha, fundada por ferroviários, no início dos anos 80 e que até então não possuía gravação.

Segundo Andreia Freire, todas essas histórias e depoimentos colhidos serviram de base para a construção dramaturgica.

“A opção pelo teatro de objeto tem a ver com a experiência das diretoras da peça e também com a criação no universo da memória, de algo intangível, então quando destacamos os objetos na cena é pela associação direta ou metafórica que eles tem com essa história, com a capacidade de fisicalizá-la. E, principalmente, considerando a arte contemporânea para a infância que aposta em novos modos de interação com o público infantil”.

Para ela, a participação do elenco na amterialização dessa história foi essencial. “ AKelly Figueiredo, que narra e conta as histórias que saem das malas e manuseia os objetos documentais. Ela participou da pesquisa e das diversas etapas da experimentação, vasculhou suas próprias memórias e elas estão nas cenas. O resultado aparece na montagem que tem simplicidade, poesia, delicadeza e aposta na sensibilidade e inteligência do público infantil”, complementa.

Programação

A temporada terá 8 apresentações gratuitas e contará com 5 visitas guiadas pelo IPHAN dedicadas a apresentar alguns cantinhos da Esplanada Ferroviária às crianças; e ainda uma roda de conversa que abordará a transposição da pesquisa em poesia, e também, buscará refletir sobre a valorização e a ocupação dos espaços carregados de memória, afeto e pertencimento em nossa cidade, com a equipe da peça, João Henrique (superintendente do IPHAN MS) e Nelson Araújo (AFAPEDI e Memorial Ferroviário).

“A peça é especial pois trata da cultura histórica da nossa cidade, e isso contribui para que possamos buscar a preservação e a ocupação de áreas com importância do ponto de vista da memória, como a Esplanada Ferroviária de Campo Grande, um lugar mágico e muito afetivo que merece ser valorizado e frequentado por todos nós”, finaliza, Thais Pompêo.

Mostrar para as crianças uma parte tão importante da história do Mato Grosso do Sul e até mesmo do Brasil é uma das mensagens principais do espetáculo. “A peça tem muitas camadas, mas eu acho que contar a história desse trem para as crianças é fundamental para que ela não se perca. As crianças de hoje, se não for pelas histórias, nem imaginam que um dia houve um trem tão lindo e tão repleto de aventuras nesse lugar. A ideia é bem simples: quem conhece uma árvore e passa a gostar dela, não deixará que ninguém a derrube; quem conhece a história do trem e se apaixona por ela (porque não tem como não se apaixonar) não deixará a Esplanada Ferroviária de Campo Grande – ou de qualquer outro lugar deste Estado – desaparecer”, completa Thais.

O projeto é realizado pela Ciranda Cultural através da Lei Paulo Gustavo via Ministério da Cultura e Fundação de Cultura de MS e conta com o apoio do Sesc MS, apoio institucional do IPHAN, Marruá Arte e Cultura, Instituto Histórico e Geográfico de MS, AFAPEDI (Assoc. do Ferroviários) e Prefeitura de Campo Grande.

 

Serviço: dias 15, 16, 17, 21 e 22 de março na Plataforma Cultural, Avenida Calógeras, 3143 – Centro. Ingressos pelo Sympla a partir de 9 de março.

15.03 – 10h e 16h (apresentações com intérprete de libras)
16.03 – 9h30 e 15h30 + visita guiada IPHAN – apresentação destinada à escolas
17.03 – 9h30 e 15h30 + visita guiada IPHAN – apresentação destinada à escolas
21.03 – 16h e roda de conversa (apresentação com intérprete de libras e audiodescrição)
22.03 – 10h (apresentação com intérprete de libras) e visita guiada IPHAN

 

Por Amanda Ferreira e Carolina Rampi

 

 

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