No 8 de março, artistas sul-mato-grossenses usam a arte para expor violências, dar voz às mulheres e provocar reflexão sobre direitos e resistência

Foto: Montagem
Foto: Montagem

No Dia Internacional da Mulher, a arte em Mato Grosso do Sul se transforma em ferramenta de denúncia e reflexão sobre a violência de gênero. Exposições, espetáculos e instalações retratam experiências de mulheres e ampliam o debate sobre direitos, memória e resistência, mostrando que celebrar conquistas também exige enfrentar realidades duras.

O Estado encerrou 2025 com 39 feminicídios, alcançando taxa de 2,6 mortes para cada 100 mil mulheres, acima da média nacional de 1,43, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Apenas Acre, Rondônia e Mato Grosso apresentaram índices superiores, colocando o Sul-mato-grossense entre os estados de maior risco proporcional de assassinatos motivados por questões de gênero.

Nesse contexto, artistas locais têm usado a criação cultural para dar visibilidade à violência contra a mulher. Projetos como a exposição coletiva “O Grito que Ecoa”, o espetáculo “CARNE VIVA” e a instalação “Valsa em Lugares Esquecidos”, que passou por presídios femininos, transformam experiências dolorosas em linguagens artísticas que provocam reflexão e diálogo com a sociedade.

A iniciativa evidencia o poder da arte como instrumento de conscientização, resistência e memória. Ao retratar agressões, abusos e injustiças, essas obras fortalecem a voz feminina, inspiram o debate público e lembram que a luta contra a violência de gênero não se limita às estatísticas: ela também corrói na criação, no corpo e na cultura das mulheres.

O Grito que Ecoa

(C) – Coletivo Dorcelina Folador

Misoginia, feminicídio, abuso, violência, invisibilização e ódio. Essas são situações que a maioria esmagadora das mulheres já vivenciaram ou ainda irão viver, estando em uma sociedade patriarcal, onde o que rege as relações sociais são a hostilidade ao corpo feminino, silenciamento e violências estruturais. São essas as temáticas trabalhadas na exposição coletiva ‘O Grito que Ecoa’, que terá sua estréia nesta quinta-feira, 12, na Galeria de Vidro, Av. Calógeras, 3015 – Centro, Campo Grande.

Participam da exposição as artistas Bejona, Marcia Lobo Crochê, Vitória Lorrayne, SYUNOI (Sara Welter), Veryruim, Letícia Maidana, Terrorzinho, Kami, Sabrina Lima, Thalya Veron e Maíra Espíndola, reunindo produções que transitam entre pintura, artes visuais, têxteis, performance, música e poesia, com curadoria de Sara Welter.

Em entrevista ao jornal O Estado, Maíra Espíndola relatou que foi o estudo sobre o feminismo que a fez descobrir que os sentimentos de peso que perpassavam suas vivências diárias tinha nome: patriarcado.

“Durante muito tempo, acreditei que esse sufocamento era algo individual, quase íntimo. A partir desse peso (o peso de patriarcado e o sufocamento que ele ocasiona) meu processo na obra se constrói muito pela deriva e pelo encontro com objetos, materiais e narrativas de violência que fui trazendo de matéria para a peça também. Não é um processo de ilustração direta da violência, mas de elaboração onírica dessas narrativas reais do que esses corpos de tantas mulheres carregam e do que esses corpos são submetidos para existir”, revela.

Carne Viva

Em cena, Madu Flores e Estefânia Bueno – (C) Cátia Santos

Quando a arte imita a vida, nem sempre os temas retratados são leves. Em 2025, Campo Grande ultrapassou os índices de feminicídio na capital, registrando 38 casos, sendo 24 deles em Campo Grande. O último caso foi reportado: Angela Nayhara Guimarães Gugel, de 53 anos, foi morta a facadas pelo ex-marido, Leonir Gugel, de 59 anos, em dezembro do ano passado.

É nesse contexto que o espetáculo CARNE VIVA, criação da atriz e diretora Estefânia Bueno.A peça, que conta com a atuação de Estefânia ao lado de Madu Flores, surge de uma pesquisa cênica que transforma vivências reais de mulheres em dramaturgia, música e performance, oferecendo ao público uma experiência sensorial e reflexiva sobre dor, resistência e insurgência feminina.

O espetáculo nasceu do Projeto SOBREVIVER, que realizou um ato poético exclusivo para mulheres e dois ensaios abertos ao público feminino. Durante essas atividades, diversos relatos foram coletados, mostrando histórias de violência cotidiana enfrentadas por mulheres.

A ideia de transformar relatos reais de mulheres vítimas de violência em arte surgiu da própria experiência de Estefânia Bueno como sobrevivente de feminicídio. Para o Jornal O Estado, ela conta que ao longo de anos, a diretora e atriz enfrentou violência psicológica, física e financeira dentro de seu casamento e precisou reconstruir sua vida após se separar, enfrentando depressão e síndrome do pânico.

“A proposta através da arte é sensibilizar tanto homens quanto mulheres a questionarem sua própria realidade dentro dessa violência diária. A arte gera mecanismos para o debate e desperta a vontade de mudar, de sair do lugar, de tomar decisões, de participar na construção de uma comunidade mais igualitária. Combater o machismo é uma luta de todos, pois é um mal que atinge a todos. É um mal-estar coletivo”, conta Estefânia.

Valsa em Lugares Esquecidos

Valsa em Lugares Esquecidos – (C) Lunar Fotografia 

O projeto “Valsa em Lugares Esquecidos” levou o espetáculo “Valsa nº 6”, de Nelson Rodrigues, para além dos muros amarelos e pretos que ocupam uma quadra do bairro Coronel Antonino, em Campo Grande.

Idealizado por Tauanne Gazoso, a montagem ganhou um novo significado ao ocupar espaços marcados pelo silêncio e pela rigidez do encarceramento. As apresentações aconteceram no Estabelecimento Penal Feminino de Regime Semiaberto, Aberto e Assistência à Albergada e no Estabelecimento Penal Feminino Irmã Irma Zorzi, em quatro sessões que levaram a força do teatro a diferentes realidades dentro dos presídios.

O espetáculo trouxe para dentro das celas o universo psicológico de Nelson Rodrigues. Valsa nº 6 é uma das obras mais enigmáticas do autor, centrada em Sônia, uma menina de 15 anos que, já morta, busca compreender os acontecimentos que levaram à sua morte por feminicídio. Em cena, Tauanne Gazoso inicia o monólogo sozinha, vestida de noiva, envolta pela Valsa nº 6 de Chopin.

A reeducanda Gabrielle Alexandra também compartilhou suas impressões sobre o espetáculo. Ela contou que foi sua primeira experiência com teatro fora de atividades internas e demonstrou interesse em continuar assistindo a peças.

“Me identifiquei com a trama, marcada por tragédias e violência contra mulheres. No início, pensei que ela estava louca, mas depois percebi que sempre é importante procurar ajuda. Para mim, a iniciativa reforça o valor da cultura e das artes dentro do presídio. O teatro abre a mente das meninas, ajuda a refletir sobre relacionamentos, violência e a importância de buscar apoio”.

Para o Jornal O Estado, a atriz Tauanne Gazoso falou sobre a circulação do espetáculo Valsa nº 6 nos presídios femininos de Campo Grande, destacando a recepção das reeducandas e também suas interpretações subjetivas sobre a peça.

“Fomos sempre muito bem recebidos. Elas demonstraram grande interesse pelo teatro, algumas nunca haviam tido contato com a arte ao longo da vida.Para mim, essa experiência está sendo muito importante. Esse contato com elas também me faz repensar meu trabalho, no sentido de circular com a peça em lugares onde as pessoas mais necessitam do teatro”, destaca.

Exposições, espetáculos e performances como O Grito que Ecoa, CARNE VIVA e Valsa em Lugares Esquecidos não apenas retratam a violência e as desigualdades enfrentadas por mulheres, mas também criam espaços de diálogo, memória e empoderamento.

Serviço: A Polícia Civil reforça que denúncias de ameaças, agressões e situações de risco podem ser feitas nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam) e pelo telefone 190.

Por Amanda Ferreira e Carolina Rampi

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