Uma das primeiras imagens que tenho da minha infância, é estar sentado no chão da casa da minha tia Catarina (Eiko), vendo e ouvindo, curioso, minha avó Matsu Higa, tocando koto. Koto é um instrumento de cordas dedilhadas tradicional do Japão e de Okinawa.
Essa lembrança dos sons doces e suaves do koto se conecta com vários flashes de memória quando, ainda criança, assistia a inúmeras apresentações de música e dança tradicional nos palcos campo-grandenses do clube da Associação Nipo-Brasileira, na sua Antonio Maria Coelho, e do clube da Associação Okinawa, na Rua dos Barbosas.
Os cantos acompanhados pelo sanshin (instrumento típico de Okinawa) e koto, foram a trilha sonora de boa parte da minha infância. Eu não entendia nada do que as letras diziam, e também não compreendia muito bem porque a maioria deles evocavam um sentimento de nostalgia e saudade de algo que eu não conseguia identificar.
Hoje, já começando a descer a montanha do ciclo natural da vida, percebo o quanto essas sonoridades ficaram impressas em mim, e a curiosidade da infância voltou a despertar a urgência de resgatar essas memórias e tentar compreender os significados (musicais e sociais) dessa música.
A província de Okinawa é um arquipélago com 169 ilhas ao sul do território japonês, que, até 1872 configurava um país independente conhecido como Reino de Ryukyu. Naquele ano foi anexado ao Japão e, no contexto da 2a. Guerra Mundial, foi ocupada pelos EUA, que só a devolveram ao Japão em 1969.
Com dialetos próprios e culturas populares diferenciadas (e riquíssimas), Okinawa tem estreitos vínculos com Mato Grosso do Sul, pois, assim como meus avós paternos, a grande maioria dos imigrantes japoneses que se estabeleceu aqui no século XX vieram de Okinawa. Como consequência, múltiplos aspectos culturais okinawanos são praticados por aqui, conectando seus descendentes em redes de colaboração e identificação étnica.
São praticamente dois grandes grupos de gêneros musicais tradicionais em Okinawa: Minyo e Ryukyu Koten Ongaku. Minyo é o gênero que podemos considerar como música folclórica e o Ryukyu Koten Ongaku é associado à música clássica praticada pela antiga nobreza do Reino de Ryukyu, e está organizado em 3 escolas (ou linhagens): Tansuiryu, Nomuraryu e Afusoryu. Além desses gêneros musicais, há também os tipos de dança e teatro musical conhecidos por Kumi Odori. Presentes em todas essas práticas, estão os instrumentos tradicionais: sanshin (também conhecido como shamisen no resto do Japão), koto (espécie de harpa de mesa), kucho (instrumento de cordas friccionadas por um arco), fue (parecida com uma flauta transversa) e taiko (tambores).
Em Campo Grande, temos pelo menos 3 núcleos de prática e ensino de música e dança tradicional de Okinawa: Clube Okinawa, Clube Nipo-brasileiro e Academia Gushiken de Cultura Okinawana. No Clube Okinawa, há dois senseis (professores) de música: Marcelo Inamine e Crystian Proença. Além do gênero Minyo, de música folclórica, também é ensinado o Koten (Ryukyu Koten Ongaku) seguindo a linhagem (escola) Nomuraryu.
O patrimônio cultural local também abrange a construção do instrumento sanshin. Ofício atualmente raro até mesmo em Okinawa, a jovem campo-grandense Sarita Shirado é bastante conceituada no ramo da lutheria de sanshin, tendo se especializado com mestres okinawanos durante vários anos. Antes, Campo Grande já havia abrigado o Sr. Tadashi, já falecido, e considerado um dos raros artesãos de sanshin em terras brasileiras.
Os diversos grupos de taiko (tambores) são mais recentes. O primeiro deles, o Kariyushi Eisa Daiko, foi criado no início da década de 2000 na Associação Okinawa e reúne dezenas de jovens que impressionam e empolgam em suas tonitruantes apresentações.
Em um cenário marcado pela interculturalidade, Mato Grosso do Sul abriga múltiplas facetas de musicalidades étnicas. Desde os diversos povos indígenas originários e culturas afro-brasileiras, passando pelas culturas dos migrantes de outras regiões do país e pelas comunidades formadas pelos imigrantes de diversas partes do mundo, a vida musical preservada pela comunidade de ascendência okinawana local é das mais ricas e ativas.
E são esses sons, que atravessaram mares e ares, que vieram do outro lado do planeta, que unem e reunem grandes massas de campo-grandense em diversos tipos de festas e celebrações, como o Festival de Okinawa, o Festival Japão, as festas do Bon Odori (que em Okinawa é denominada de Eisa Matsuri), além de constantes reuniões nos clubes e associações.
Quando criança, eu costumava frequentar (quase sempre levado pela minha avó) esses eventos, e hoje, passadas tantas décadas, aquelas lembranças retornam com uma força inesperada, me levando a procurar entender o mágico encantamento dessa música ancestral. E, com a urgência do tempo que corre fugaz, começo a desenhar um processo de mergulho nesse universo ao qual estou ligado pelo cordão umbilical da ancestralidade.




