Mostra leva filmes à fronteira entre o Brasil e a Bolívia

Mostra ‘Cinema de Sala’,
leva obras para as ruas
de Corumbá, Ladário e
Puerto Quijarro, Bolívia - Foto: Cinema de Sala/Divulgação
Mostra ‘Cinema de Sala’, leva obras para as ruas de Corumbá, Ladário e Puerto Quijarro, Bolívia - Foto: Cinema de Sala/Divulgação

Cineastas já podem se inscrever e 11 produções serão premiadas

Até o dia 7 de dezembro estarão abertas as inscrições para a Mostra Itinerante Cinema de Sala 2026, realizada de 14 a 23 de janeiro de 2026, nas cidades de Corumbá, Ladário (MS) e Puerto Quijarro (Bolívia). A ação gratuita e aberta ao público levará o cinema para praças, largos e ruas, celebrando a força do audiovisual sul-mato-grossense e o encontro de fronteiras entre Brasil e Bolívia. Interessados podem se inscrever pelo link: https://forms.gle/kkRsQ5Ay8rhzBtBZ9.

Idealizada por Salim Haqzan, o projeto nasce da tradição do Cineclube Cinema de Sala, ativo desde 1998, que ao longo de quase três décadas tem promovido exibições e debates sobre cinema nas comunidades do Pantanal. Agora, o sonho se expande: da pequena televisão de 16 polegadas que marcou o início do projeto, surge uma mostra itinerante com tela inflável de quatro metros, cadeiras acessíveis e som de alta qualidade.

“O Cinema de Sala começou em 1998, com uma TV pequena na Casa de Cultura, e hoje ver essa história se transformar em uma mostra que atravessa fronteiras é emocionante. A gente sempre quis levar o cinema com dignidade, ou seja, de boa imagem, som de qualidade e acessibilidade, para as ruas. É muito gratificante saber que as pessoas vão poder assistir aos filmes produzidos aqui no estado e se reconhecer nas telas”, afirma Salim Haqzan, idealizador do projeto.

Segundo ele, a expansão para o país vizinho reforça uma identidade compartilhada que antecede qualquer limite geográfico. “Eu já faço essas exibições há 27 anos, não somente em espaços fechados, mas também nas localidades rurais, no Pantanal, nos assentamentos. Achei muito importante levar esse projeto para a Bolívia porque estamos cada vez mais nos posicionando como fronteiriços. Corumbá é habitada há 10 mil anos; essa fronteira foi colocada há pouco tempo, e queremos que as pessoas compreendam que somos um só povo”, afirma.

Além da dimensão identitária, Salim destaca a interdependência econômica e cultural entre Corumbá e Puerto Quijarro. Para ele, a circulação constante de pessoas, alimentos e produtos já evidencia essa integração no cotidiano. “A Bolívia colabora muito com a cidade. Corumbá nunca ficou ruim, mesmo quando o país passa por dificuldades, por causa da fronteira. A gente tem muita circulação de dinheiro boliviano, nossas feiras acontecem todos os dias e praticamente tudo vem de lá”, explica. É nesse contexto que a Mostra Itinerante se consolida como um gesto simbólico e prático de aproximação. “É muito importante estarmos integrados, e o Cinema de Sala é prova disso. Levamos o cinema para os pontos que consideramos importantes, sempre periféricos, e um deles é a Praça de Puerto Quijarro”, completa.

A Mostra Itinerante Cinema de Sala é voltada para obras audiovisuais produzidas em Mato Grosso do Sul entre 2024 e 2025, que sejam resultados de Políticas Públicas Culturais e contemplem recursos de acessibilidade comunicacional, como audiodescrição, Libras ou legendas em português e espanhol.

Curadoria

Ao todo, onze produções serão premiadas. Serão selecionadas três obras de até 20 minutos, que receberão R$ 1,5 mil cada; seis obras de até 5 minutos, com premiação de R$ 500 cada; e duas obras de audiovisual experimental (poesia, videoarte…) com duração até 5 minutos, premiadas com R$ 500 cada. As produções escolhidas integrarão a programação nas três cidades, que também contará com bate-papos e atividades formativas.

A diversidade de formatos contemplados pela premiação nasce de uma curadoria comprometida em refletir o que está sendo produzido hoje no Estado e acompanhar as transformações do próprio fazer audiovisual. Salim destaca que a mostra assume linguagens que muitos festivais ainda não abraçam plenamente. “Poucos festivais ainda hoje contemplam vídeos experimentais ou vídeos feitos com celular na posição vertical, mas isso já é uma realidade. A tendência não é para o futuro, é algo que já acontece”, afirma.

Segundo ele, a curadoria busca selecionar obras cujas experiências estéticas possam dialogar com o público de rua, que já está habituado a uma programação mais alternativa do que comercial. “O Breno Moroni, que é nosso apresentador e já fez mais de 100 filmes, prepara o público, conversa antes das sessões e ajuda a diferenciar um cinema cinearte de um cinema comercial, sem dar spoiler. Isso faz toda a diferença”, explica.

O projeto também se preocupa em garantir vida útil às obras produzidas em editais, que muitas vezes não encontram espaço de exibição após serem concluídas. “Muitos filmes ficam prontos e, se o próprio realizador não corre atrás, eles não chegam ao público. A mostra dá vida a esse material”, afirma Salim.
Exibir também é permitir

Para Diego Cafola, produtor executivo da mostra, o projeto é um convite para ampliar o olhar sobre o cinema feito no interior do país. “Há uma necessidade de valorização das produções que nascem dessas políticas culturais e dos artistas que vivem fora dos grandes centros. Essa mostra foi pensada para difundir as obras, mas também para provocar o debate, aproximar o público e fortalecer nossa identidade audiovisual”, explica.

Mais do que exibir filmes, o Cinema de Sala leva o cinema de volta ao seu lugar mais humano: o encontro. As exibições ao ar livre permitem que as pessoas se reconheçam na reação dos outros, que conversem depois dos créditos e que percebam o poder coletivo das histórias contadas em tela.

A acessibilidade é um dos pilares centrais da Mostra Itinerante Cinema de Sala, não apenas como exigência técnica, mas como compromisso ético e político com o público. Salim explica que essa diretriz surge da constatação de que ainda faltam espaços verdadeiramente acessíveis, tanto arquitetônica quanto comunicacionalmente. “A gente só fala de acessibilidade, mas não tem espaços acessíveis de verdade, com toda a acessibilidade necessária. Eu sempre penso nisso nos meus projetos: praças e ambientes fechados têm que ter acessibilidade para quem usa cadeira de rodas ou tem limitação de locomoção”, afirma. Ele reforça ainda a importância de recursos como legendas, Libras e audiodescrição. “Acho muito importante ter legenda, ter Libras, ter audiodescrição. E é fundamental também a acessibilidade atitudinal — estar ali dizendo para as pessoas: sim, pode vir, tem Libras, tem legendas, tem acolhimento”, completa.

Durante dez dias de programação, a mostra vai reunir o público fronteiriço-pantaneiro do Brasil e da Bolívia, em uma travessia de imagens e afetos, promovendo o intercâmbio cultural entre os países e reforçando a importância da arte como ponte entre povos.

Para Salim Haqzan, exibir filmes ao ar livre é uma forma de resgatar o sentido coletivo do cinema, que se perdeu com a individualização do consumo audiovisual. Ele relembra a força histórica das salas escuras como espaços de encontro. “O cinema sempre foi coletivo. No cinema você percebe a expressão das pessoas, ouve quem chora, quem ri, sente o que toca cada um. Era mais sensorial e sinestésico do que assistir em casa”, afirma. Esse retorno às praças, segundo ele, devolve ao público a experiência de compartilhar reações e emoções diante da tela.

Salim destaca que criar esse espaço de convivência nas ruas, especialmente em uma região de fronteira, tem também uma dimensão afetiva e cultural. “Provocar o cinema nas praças é muito legal: você sai de casa, tem uma noite fresca, uma pipoquinha, uma tela bacana, som de qualidade. A gente oferece tudo com muito carinho para que o público prestigie”, diz. Com forte ligação pessoal com a Bolívia, ele vê a mostra como gesto de união. “Eu gosto muito de ser fronteiriço. Poder ofertar isso para brasileiros e bolivianos é um prazer imenso, uma honra gigantesca”, completa.

Este projeto conta com investimento da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc), do Governo Federal, através do MinC (Ministério da Cultura), operacionalizado pelo Governo do Estado, por meio da FCMS (Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul).

 

Por Carolina Rampi

 

 

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