“Mãe Arrependida” ama muito seus filhos

“Mãe Arrependida” ama muito seus filhos

“Mãe Arrependida” ama muito seus filhosEm novembro de 2020, quando estreou a peça “Mãe Arrependida” em formato de streaming,  a atriz carioca de Niterói, Karla Tenório, 38 anos, colocou em prática um projeto iniciado em 2017. Mas, a ideia já existia há cerca de 10 anos, quando Karla se tornou mãe. Era a idealização de gerar uma vida e ser responsável por ela, totalmente separado do amor das figuras maternas por seus filhos. Ela deu luz a um movimento ainda silencioso na vida de muitas mulheres responsáveis pela vida de um pequeno ser humano. 

Assim, para amparar outras “mães arrependidas”, Karla criou um espaço no instagram para acolhimento e desabafo voltado para arrependimento materno, depoimentos, empatia, cura e casos de violência doméstica. Vamos conhecer duas mulheres de Campo Grande que se identificam com a atriz. Danieli Lima, 32 anos, formada em marketing, é coordenadora de operações e dona de casa. Responsável por toda parte operacional da empresa na qual trabalha, ela é mãe de duas filhas: Micaela, 9 anos, e Lavínia, de 8 meses.

“Fui mãe aos 24 anos e novamente mãe aos 32 anos. Como mãe sou completamente apaixonada por minhas filhas, me encanto com cada gesto e sorriso delas, trabalho fora como coordenadora de operações, trabalho em casa como dona de casa, às vezes penso que não darei conta de tanta coisa, tem dias que quero ficar quieta no meu canto em silêncio , sem ninguém me incomodar, porém tenho duas filhas ( isso é impossível)”, relata Danieli.

suporte

Mas, Dani tem um suporte fundamental. “Eu ainda tenho uma rede de apoio enorme com minha mãe, irmã, cunhada e claro, meu marido. Se não fosse isso, acho que eu já teria surtado. É muito cansativo conciliar trabalho, casa e maternidade. Tem dias que eu quero largar trabalho e me dedicar somente a ser mãe, pois me sinto frustrada em não dar a atenção que eu queria. Também fico frustrada em perder alguns momentos únicos das minhas meninas, às vezes até me sinto excluída da vida das minhas filhas. Mas, ao mesmo tempo, penso que não é porque me tornei mãe que minha vida tem que parar. A maternidade veio para agregar” reflete.

O abalo de ser mãe para Mikaela Ribeiro da Silva, 23 anos, manicure, começou ao descobrir a maternidade.  Depois de nove meses o resultado foi seu tão esperado e sonhado filho. “Moisés, o meu primogênito. Foi aí que eu percebi o que era ser mãe de verdade! Cuidar do Moisés é magnífico, apaixonante, encantador, mas a obrigação de ser mãe e dona de casa, me deixa frustrada. Afinal, o meu querer não pode acontecer por conta das minhas obrigações”, reflete Mikaela.

Além disso, Mika é obrigada a ouvir a opinião dos outros sobre sua vida. “E ainda tem a sociedade, familiares e amigos, dizendo que eu não posso voltar a minha rotina de trabalho, encontrar com amigas para conversar sobre a vida, dançar, dentre diversas coisas para meu lazer e reposição de disposição mental”, pontua e em seguida avalia: “Ser mãe me mostrou que sou uma pessoa livre, mas que vivo presa a realidade de ser acordada com choros ‘sem motivos’, passar o dia em função de um mini ser e simplesmente não ter momento para mim”.

“Mãe Arrependida”

Desta forma, tudo que faz é para seu filho. “Vivo hoje a minha vida em função do meu filho, meu emocional está completamente abalado, minha autoestima lá embaixo, afinal adquiri flacidez, estrias, enormes olheiras, estresse ao nível hardcore, ou seja minha vida está estacionada”, pontua, porém destaca: “Eu amo ser mãe, afinal eu gerei e dei além da vida tudo o que pude enquanto estava dentro de mim. Agora ele precisa mais do que tudo, dos meus cuidados, da minha atenção, enfim de mim”.

Mas, falar sobre o assunto é muito julgado pelas pessoas e pela sociedade em geral. Por isso, Karla Tenório elaborou a peça e estruturou o perfil no Instagram. Ela conversou com o Grupo O Estado MS e enfatizou que não é normal se arrepender da maternidade, pelo contrário.  “Demorei muito tempo para ter a coragem de ‘sair do armário’ e me assumir uma mãe arrependida. Isso está se popularizando. Porém, nunca vai ser normativo. Até porque ele vem de estruturas do patriarcado de muita crueldade, do neoliberalismo e todas estas estruturas que foram criadas no pós-guerra. Elas não são normais”, explica.

No entanto, apesar destas criações surgirem por um bom motivo: expansão, crescimento, para tirar o poder das religiões dogmáticas doutrinárias, além de trazer o empoderamento pessoal, desumanizou a mulher, principalmente na situação de gerar e cuidar de vidas. Isso, conforme Karla, acabou destacando um processo de crueldade. “A figura materna tem que ser imagem e semelhança da Virgem Maria. Então, para começar, ela tem que ser perfeita. Ela não pode detestar ninguém nem nada. Precisa ser uma eterna doadora. Nunca, nunca sentir vontade de receber, nunca reclamar da vida”, aponta. 

opressão

Karla também pontua que a sexualidade da mãe fica completamente oprimida. “Já que a Maria não transou para ter Jesus, segundo a Bíblia. Ela engravidou diretamente do Espírito Santo de Deus. Assim, como é que uma mulher, mãe, que acaba sendo a imagem e semelhança de Virgem Maria, pode ser sexualizada? Se esta mulher fizer isso (olha que absurdo) ela é uma promíscua, uma vagabunda, uma mulher que não é ‘direita’.  Então, a gente já começa com um discurso completamente distorcido e nada normal. Por isso, ser mãe arrependida nunca vai ser normal, porém, é muito mais comum do que se imagina”. 

E o motivo é encontrar identificação com outras mães. “Estamos vendo isso a passos largos, com o crescimento da página, a quantidade de depoimentos que temos recebido, postado e, principalmente, com todos os comentários que são as coisas mais ricas que existem onde as mães se assumem colocando o próprio coração à frente. Elas trazem amor, acolhimento e parceria para as mães que sofrem. Isso sim é uma grande beleza. Elas entram para oferecer ajuda psicológica, terapêutica, de amizade e para também desabafar e dar o próprio depoimento”, revela. 

A página “Mãe Arrependida” foi criada para divulgar a peça de mesmo nome. Aos poucos, foi crescendo e Karla percebeu a necessidade de falar do assunto. Além disso, para reforçar o amor à filha. “Tenho sido chamada de mãe narcisista, mãe absurda, uma mãe que expõe sua própria filha, enfim que essa filha vai ter problema no futuro. Obviamente as pessoas não conhecem minha filha, não sabem o grau de desenvolvimento emocional que elas têm e o que a gente fez para chegar até aqui”, avalia Karla. 

reflexão

Ela ainda reflete sobre a situação. “Obviamente, quando alguém me xinga, me critica desse jeito – eu que já trabalhei e estudei muito psicologica e espiritualmente – percebo que  é um reflexo a pessoa ficar tão consternada, tão atordoada que ela acaba fazendo um paralelo com a própria vida. Provavelmente ela está projetando na minha filha ela mesma. Mas, infelizmente ela não consegue ter consciência que está falando da própria dor e não da minha filha”. Karla Tenório cita Freud, Jung e Lacan demonstrando ter a certeza que sua primogênita não será afetada por isso.

“Mas tudo bem! Vamos lá! Temos que ter compaixão e empatia. A pessoa xinga minha filha, diz que ela vai ficar perdida, mas eu sei que não tem nada a ver e a pessoa está falando dela mesma. Se ela precisa disso para fazer este autoconhecimento, não posso fazer nada!”, aponta e introduz dois lados da mesma vivência: “Amar a minha filha e detestar a maternidade”.

Karla afirma que a filha dela não é uma obra nem um produto dela. “Nem uma coisa minha que eu criei. Ela é uma alma. Atualmente muitas pessoas acreditam em reencarnação, as espiritualistas, se há essa possibilidade, porque minha filha, esta alma gigante, esta estrela brilhante, assim como você, eu e todas as pessoas, por que minha filha só poderia nascer de mim?! Acho isso muito egoísta, narcisista e delirante”.

filha

“Mãe Arrependida” ama muito seus filhosAssim, com esta visão, a filha viria ao mundo de qualquer maneira. “A minha filha teria nascido independente da minha alma. Sim! Claro! Acredito que a gente tenha compatibilidade energéticas, espirituais e possamos ter propósitos de vidas parecidos e a gente se une por isso. Agora, ela não nasceria com as características físicas que tem. Talvez outro tipo sanguíneo que é igual ao meu,  A+, mas ela teria nascido. A alma dela é dela, a vida dela é dela. Não sou eu a grande detentora disso. Não sou a Virgem Maria! Muito pelo contrário, passamos grande parte da nossa vida longe da nossa mãe”, analisa. 

Depois de toda esta análise resumida, Karla conclui que sim é possível ser uma mãe arrependida e amar a filha. “Porque o arrependimento não é culpa da filha nem está ligado a ela. Está ligado à estrutura de cuidado. Hoje, 75% do trabalho de cuidado não remunerado (‘atividades do lar’) é feito por mulheres. Essas mulheres ainda querem seguir seus propósitos de vida, ganhar dinheiro, fazer sucesso para criar independência e criar seus filhos e filhas sem depender de marido, pais ou avós. Como faz?”, questiona.

Ela finaliza apontando um dos responsáveis do arrependimento: a culpa pelos atos do ser humano que gerou e criou. “ A carga mental que derruba a mulher porque a mãe simplesmente é responsável por tudo que seu filho e filha fizer na vida. A gente tem que entender tudo do bebê, da criança, do adolescente, do jovem e não vem com manual”. 

Box – Karla Tenório

“Mãe Arrependida” ama muito seus filhosKarla Tenório  resumiu sua biografia para nós. “Eu sou Karla Tenório. Mulher, mãe, atriz, yogini. Sou formada em artes cênicas pela CAL-RJ, estou cursando Filosofia e Teologia pelo instituto presbiteriano Mackenzie. Viajei para Índia algumas vezes em imersões longas de meses, pratico yoga há 15 anos.


Fiz diversas peças e novelas, em 2020 criei o solo autobiográfico teatral online Mãe Arrependida, a fim de trazer a tona a falência da estrutura patriarcal sobre a maternidade. Em 2021 criei o movimento de mesmo nome para convocar a cura através do desabafo horizontal, radicalizando na verdade, inclusão, na honestidade e autorresponsabilidade.

O movimento ganhou força no mundo todo, e não pára de crescer diáriamente. Mulheres estão liberando sentimentos oprimidos e com isso descortinando os absurdos que passam. Meu trabalho é viver a saúde do corpo e da mente de forma integral servindo às causas de transformação e inclusão social, como o feminismo e cuidar de mulheres em vulnerabilidade social.”

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