Projeto nascido por Douglas Cardoso durante luto, registra moradores do Estado, resgata histórias invisibilizadas e mostra que a vida real também merece ser protagonista
Em meio à rapidez das redes sociais, vídeos que mostram pessoas compartilhando suas histórias passaram a chamar a atenção de milhões de usuários. Em Campo Grande, uma proposta semelhante vem conquistando espaço ao transformar encontros casuais em retratos cheios de significado. No perfil @retratosdecampogrande, o fotógrafo Douglas Cardoso registra moradores em diferentes pontos da cidade e revela, por meio das imagens, histórias que muitas vezes passam despercebidas na correria do dia a dia.
Mais do que fotografias, o projeto apresenta rostos, memórias e experiências de pessoas comuns. Seja durante uma caminhada pelo Centro da Capital ou em visitas ao interior do Estado, cada clique busca valorizar a essência de quem é fotografado. Com conteúdo totalmente autoral e produzido sem o uso de inteligência artificial, a iniciativa destaca a beleza presente no cotidiano e aproxima o público das histórias reais que fazem parte da cidade.
A criação do perfil nasceu em um momento delicado da vida de Douglas Cardoso. Servidor público e advogado, ele conta que decidiu encontrar um novo propósito após enfrentar a perda da mãe, falecida em 20 de julho do ano passado. O período de luto despertou a necessidade de buscar uma atividade que ajudasse na superação, e a fotografia apareceu como uma forma de transformar a dor em um novo caminho.
Embora sempre tivesse interesse por imagens e já registrasse cenas do cotidiano com o celular, além de produzir vídeos sobre viagens de moto para seu canal no YouTube, Douglas resolveu investir em uma câmera fotográfica para aprofundar esse interesse. No início, ainda buscava descobrir qual seria o foco de seus registros. Entre dúvidas sobre fotografar paisagens, animais ou outros temas, encontrou nas pessoas a inspiração para dar vida ao projeto que hoje eterniza histórias pelas lentes do @retratosdecampogrande.
Fotografando o cotidiano
Para o Jornal O Estado, Douglas explica que a escolha de quem será fotografado acontece de forma espontânea, guiada tanto pelo olhar para a composição da cena quanto pelas conversas que surgem durante os registros.
“Às vezes, a foto chama atenção pela luz, pela roupa ou pela composição. Em outras, é a própria pessoa que revela uma história marcante. Já aconteceu de um homem em situação de rua pedir para ser fotografado e contar a trajetória que o levou até ali. Acredito que toda história merece ser contada, porque a vida real está nas pessoas comuns e no cotidiano. Enquanto as redes sociais mostram uma realidade idealizada, meu objetivo é registrar aquilo que acontece todos os dias e fazer com que as pessoas se reconheçam nessas histórias”.
Para ele, a fotografia vai além do registro de uma imagem e se torna uma ferramenta de valorização humana. Em seu projeto, personagens que muitas vezes passam despercebidos na rotina ganham espaço para contar suas trajetórias e compartilhar experiências.
“Acredito que a fotografia pode devolver protagonismo para quem, muitas vezes, se sente invisível. Vejo isso nas reações e também nos comentários das pessoas, que dizem estar vendo a vida como ela realmente é. Lembro de um trabalhador da limpeza da Ceasa, que atua lá há mais de 30 anos. Quando pedi para contar a história dele, ficou emocionado e dizia, feliz, que iria aparecer no Facebook. As pessoas se sentem valorizadas quando são ouvidas e fotografadas, e isso também alcança familiares e amigos, que comemoram ao ver essas histórias publicadas”, conta.
Douglas afirma que o retorno do público reforça o propósito do projeto. De acordo com ele, familiares, amigos e conhecidos costumam comentar as publicações com mensagens de carinho e reconhecimento aos retratados, demonstrando que as fotografias despertam identificação e ajudam a evidenciar histórias que, muitas vezes, permanecem à margem do olhar cotidiano.
“É muito comum ver comentários de netos, filhos, amigos e parentes elogiando quem aparece nas fotos. As pessoas gostam de ver essas histórias sendo contadas. A sociedade costuma valorizar apenas quem considera bem-sucedido, mas a vida real é muito maior do que isso. O que procuro fazer é dar visibilidade para que outras pessoas se reconheçam naquelas cenas, seja alguém pegando ônibus, indo para a faculdade ou seguindo a rotina de todos os dias. Quando a pessoa se vê retratada, ela se sente valorizada, e acredito que a fotografia pode, sim, fortalecer o protagonismo, o bem-estar e a satisfação de quem tem sua história compartilhada”, detalha.
Histórias do dia a dia
O advogado conta que diversas histórias acabaram se tornando tão marcantes quanto as próprias fotografias. Entre elas, ele destaca a de vendedores ambulantes que construíram suas vidas por meio do trabalho diário, transformando atividades simples em exemplos de dedicação, superação e conquista.
“Algumas histórias ficam marcadas tanto quanto a imagem. Um exemplo é o pipoqueiro Barbosa, que há cerca de 30 anos trabalha na Praça Ary Coelho e conseguiu criar os filhos e conquistar sua independência financeira vendendo pipoca. Também conheci outro pipoqueiro, que há mais de 40 anos trabalha em frente à Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, além de um vendedor de flores da esquina da Avenida Afonso Pena com a Rua 14 de Julho, que está no mesmo ponto há mais de oito anos. São histórias de esforço e perseverança que mostram a força das pessoas comuns”, afirma.
Mas entre tantos o que mais marcou, foi o de Hilda, uma das que mais o emocionaram. A personagem chamou sua atenção pela elegância enquanto caminhava pelo Centro de Campo Grande.
“Essa história me marcou muito. Quando elogiei a Hilda e pedi para fotografá-la, ela abriu um sorriso e começou a contar um pouco da sua vida. Ela mora na periferia e tinha ido ao Centro apenas para pagar contas e resolver algumas coisas, mas fez questão de se arrumar toda. A reação dela foi o que mais me tocou. Ela ficou muito feliz, disse que não tinha Instagram e pediu para a filha procurar a publicação depois. São momentos assim que dão sentido ao projeto e mostram como uma fotografia pode transformar um encontro comum em uma lembrança especial”, detalha.
Ao projetar o futuro do trabalho, Douglas Cardoso afirma que pretende ampliar a iniciativa para além de Campo Grande, mantendo como essência o registro das diferentes realidades do cotidiano. Para ele, as fotografias podem se tornar um importante acervo da memória coletiva.
“Quero expandir esse projeto sem perder o foco nas diferentes faces do cotidiano. Espero que, daqui a 20 ou 30 anos, essas fotografias mostram como a cidade e as pessoas mudaram. Mais do que registrar o tempo, desejo que cada um possa se reconhecer nessas imagens, rever um familiar, um amigo ou a si mesmo. Se isso acontecer, o projeto terá cumprido seu propósito”, finaliza.
Amanda Ferreira